Encontro
dos Pesquisadores do Ciberespaço

DECLARAÇÃO
DE NATAL
- Regenerar as cidadanias locais e gerar
uma cidadania mundial, para ligar nossas várias terras natais
formando uma única Terra Natal: o Ciberespaço – eis nosso
objetivo. E eis também as duas faces das redes virtuais:
desterritorialização do espaço físico e materialização do
imaginário. O Ciberespaço contribui para viabilizar a nossa antiga
idéia de uma Utopia Social, de redistribuição de
riqueza/saberes/poderes; é a lógica da solidariedade planetária
engendrada pela convivialidade das rede telemáticas.
- Em um passado ainda recente, a unidade
mítica das culturas recebeu muitos nomes: ‘inconsciente coletivo’,
‘museu da humanidade’, ‘cérebro planetário’, ‘alma do
mundo’, ‘noosfera’, ‘cibionta’. O Ciberespaço, no
entanto, não é um espaço imaginário formado por sonhos, mitos e
imagens do inconsciente, mas sim uma realidade da qual não podemos
ser excluídos.
- No mundo atual, globalizado sem
fronteiras, em que as fábricas migram para onde a matéria-prima e
a mão-de-obra são mais baratas e os países ricos não são apenas
produtores de bens materiais, mas sim os que produzem bens
simbólicos e culturais, que desenvolvem costumes e pesquisas de
ponta e lucram com sua comercialização. Assim, a pesquisa
científica é ponto estratégico, verdadeiro diferencial entre
desenvolvimento real e um crescimento ‘sub-industrializado’, que
dá empregos em troca de royalties mas não incentiva a elaboração
de tecnologias próprias e de identidades nacionais/regionais. Nesse
cenário, a universidade deve desempenhar um papel central como
produtora e distribuidora de informação científica e cultural. A
escola pode se tornar a instituição mais importante da sociedade:
acolhendo e reciclando exércitos de trabalhadores subitamente
desqualificados. Mas só a universidade, através da pesquisa, pode
descobrir e operar as mudanças necessárias para as reformas
sociais contemporâneas. Afinal, ela não é uma mera reprodutora do
saber cultural dominante, mas uma instituição produtora de
conhecimento científico.
- Aliás, por definição, a
universidade não é lugar da análise do que já existe,
simplesmente, e, sim, da construção do futuro, de respostas às
necessidades da sociedade. Não é apenas uma instituição de
ensino, mas também de pesquisa; um espaço para busca de
alternativas para o mundo da produção e para a existência social
e individual. A universidade deve atender às necessidades da
sociedade através de atividades de extensão e dos cursos de
graduação, mas deve também no sentido inverso, inventar
tecnologia que desafie os padrões sociais estabelecidos,
aperfeiçoando outras instituições. Daí a importância
estratégica de sua informatização imediata. É que em uma
sociedade completamente informatizada, as instituições de
ensino superior, interconectadas pela fibra ótica e pela telefonia
digital, devem se firmar como o arquivo central das redes locais,
nós de um sistema nervoso global de produção de conhecimento. Quem
não investir no saber e na democratização do conhecimento ficará
à margem do desenvolvimento no próximo milênio.
- Conscientes da relevância de suas
reivindicações para ultrapassarmos a condição histórica de
subdesenvolvimento econômico e tecnológico, os Pesquisadores
Brasileiros do Ciberespaço, reunidos durante a 50ª
Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
(SBPC), firmam o presente documento sobre a prioridade do
Ciberespaço para a pesquisa e a educação do futuro, alertando as
autoridades e a opinião pública para a importância estratégica
de investimentos na informatização do ensino superior. Para tanto,
sugerimos ao Governo Federal e às Reitorias das diversas
universidades brasileiras as seguintes medidas:
- Investir na ampliação e no
desenvolvimento do projeto da Rede Nacional de Pesquisa (RNP),
permitindo o seu ingresso na Internet2, rede mundial de alta
velocidade, exclusiva para instituições de pesquisa e ensino
superior. Além disso, a RNP deveria também funcionar como um
superprovedor nacional (oferecendo serviços de e-mail, intranets
setoriais na Web, e chat’s para vídeo conferências em tempo
real), dando acesso gratuito (ou a custo local) às redes municipais
e estaduais de ensino e as ONG’s credenciadas.
- Estudar apossibilidade da criação
de bancos de dados setoriais por área de conhecimento (matemática,
geografia, medicina, etc), permitindo, assim, a centralização e a
atualização constante de dados para pesquisa científica em cada
área. Todo estudante brasileiro deve, mediante credenciamento e
senha a um determinado nível de acesso, ter garantido a
possibilidade de pesquisar nesses bancos setoriais gratuitamente.
- Equipar cada universidades com um
modelo padrão de Laboratório Digital para Pesquisa
Interdisciplinar, interligado permanentemente por via ótica,
estabelecendo assim uma Rede Nacional de Comunicação. Esta segunda
rede seria gerenciada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da
Ciência (SBPC) e teria como função principal a coordenação dos
bancos de dados setoriais, intranets e outros mecanismos de
comunicação, promovendo o intercâmbio universitário de forma a
coordenar cursos de pós-graduação à distância e editar revistas
eletrônicas e de impressão descentralizada específicas para
diferentes áreas.
-
Mais do que informatizar
o ensino superior, o que precisamos é de instrumentos de
discussão, atualização, divulgação e, sobretudo, de
valorização da pesquisa científica no Ciberespaço. Tais medidas,
no entanto, não seriam apenas o ponto de partida para construção
de uma nova relação do ensino superior com a pesquisa científica,
mais também de uma nova relação entre as universidades e a
sociedade brasileira.
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