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Comitê Estadual pela Verdade, Memória e Justiça RN - Rio Grande do Norte
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Capa Dermi

Travessias Torturadas
Dermi Azevedo

Coleção Memória das Lutas Populares

Home Page de Dermi Azevedo
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Este livro é, ao mesmo tempo, um registro autobiográfico e político do autor e um testemunho sobre os anos de chumbo na Brasil, entre os anos de 1964/1985. Esse período marcou profundamente a situação existencial de Dermi Azevedo. Ele optou, em plena juventude, por dedicar-se integralmente à luta pela dignidade humana e por uma sociedade justa, fraterna, solidária e democrática. Pagou conscientemente o duro preço de sua escolha, como relata nesse livro. Um preço mais alto ainda foi pago por centenas de brasileiros e brasileiras que se empenharam nas lutas contra a ditadura civil-militar. Eles/elas constituem o grande universo dos mortos e dos desaparecidos políticos.


Este livro-memória soma-se a todos os demais relatos dos/das combatentes contra o regime fascista que dizimou a Nação brasileira. E cujas consequências nunca serão plenamente vencidas. A linha seguida pelo autor corresponde ao pensamento emitido por Danton na Revolução Francesa: “Não tenho rancor. Tenho memória”.


O autor

Jornalista e Cientista Político, graduado em Jornalismo pela UFRN (1979); Especialista em Relações Internacionais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de SP (FSESP) com estudo sobre a política externa do Vaticano; Mestre em Ciência Política pela USP, em 2001, com dissertação sobre o tema "Igreja e Ditadura Militar. Colaboração Religiosa com a Repressão de 1964". Doutor em Ciência Política pela USP, em 2005, com tese sobre "Igreja e Democracia. A Democracia na Igreja", sob a orientação do Prof. Dr. Paulo Sérgio Pinheiro.

Exerce o Jornalismo desde 1967, tendo trabalhado como repórter, redator, editor e correspondente em várias revistas e jornais. Fez a cobertura de diversas viagens do Papa João Paulo II e de importantes eventos ligados aos Direitos Humanos e aos Movimentos Sociais. No serviço público, ocupou vários cargos e funções nos governos do RN e de SP. Em Natal, dirigiu a FETAC (Fundação Estadual do Trabalho e da Ação Comunitária). Em SP, foi Assessor Técnico da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania. Presidiu, de 1999 a 2009, o Conselho Deliberativo do Programa Estadual de Proteção às Testemunhas (PROVITA), integrou o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana (CONDEPE). Foi um dos coordenadores do Programa Estadual de Direitos Humanos (SP). É um dos fundadores do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH). Foi preso político em 1968, no XXX Congresso da UNE, em Ibiúna/SP e em 1974, em São Paulo/SP. É anistiado político. Participou como um dos representantes da sociedade civil brasileira, da II Conferência Mundial de Direitos Humanos, promovida pela ONU, em Viena (Áustria), em 1993. É um dos membros da IEAB (Igreja Episcopal Anglicana do Brasil). É portador da Síndrome de Parkinson.

 

Travessias Torturadas - Excertos
Dermi Azevedo

Aos eternos companheiros e companheiras de luta Emmanuel Bezerra, Manoel Lisboa de Moura, frei Tito de Alencar Lima, Maria Nilde Mascellani, José Luiz Brum, Nelson Martinez, Vanderlei Caixe, Flávio Canalonga, João Bittar, frei Giorgio Callegari e Paulo Freire.

Dedico em especial este livro ao meu primeiro filho Carlos Alexandre Azevedo que, com menos de dois anos, sofreu em seu frágil corpo de criança a brutalidade da repressão fascista nos porões do DEOPS/SP.

Dedico também aos meus pais José e Amélia, às minhas irmãs Sebastiana e seus filhos Walter, Fátima e Vera, Judy e seus filhos Judson e Josenaldo, à Cláudia, aos meus filhos Carlos Alexandre, Daniel, Estevão e Joana, à minha esposa Elis Regina Almeida Azevedo e às nossas filhas Paula, Betânia e Fernanda, a d. Júlia Almeida e Valdir e aos seus filhos.

A todos os companheiros de luta por um mundo mais justo, na pessoa de Roberto Monte e Maise e aos homens e mulheres decentes que marcaram a minha vida.


O Povo Como Protagonista

Este livro tem como protagonista o povo brasileiro. Isto significa dizer que os fatos aqui narrados e testemunhados estão intimamente vinculados ao doloroso processo de emancipação dos povos originários, dos negros, dos quilombolas, dos trabalhadores urbanos e rurais, das mulheres e dos homens, das crianças, dos jovens e dos idosos deste país chamado Brasil.

O autor integra esse povo e sua trajetória pessoal está diretamente ligada a essa caminhada histórica. Como dizia Ortega y Gasset, “o homem é o homem e suas circunstâncias”. Talvez se o autor fosse oriundo das classes sociais que historicamente controlam o poder no Brasil, suas palavras manifestariam outra ideologia conservadora elitista, preconceituosa e legitimadora da violência.

No entanto, a sua origem de classe e as circunstâncias favoreceram o seu processo de conscientização no seio da classe trabalhadora e, portanto, do povo. Esse universo específico é representado pelos migrantes nordestinos, pelos mineradores do interior do Rio Grande do Norte, pelos paulistanos apressados para chegar ao trabalho, por todas as vítimas de qualquer discriminação.

Foi contra o povo brasileiro que as elites civis e militares levantaram-se em 1964, com o apoio do governo dos Estados Unidos. Elas já haviam percebido que o processo de reformas democráticas no Brasil levaria o povo a conquistar espaços talvez definitivos na afirmação de seus direitos de cidadania. Deste modo, a preocupação do autor é a de resgatar, na sua própria história pessoal e no testemunho gritante de centenas de mortos e desaparecidos políticos, o caráter deste processo.

Outra ênfase dada pelo autor refere-se aos aspectos subjetivos da vivência de uma ditadura fascista e repressora por natureza. Ninguém consegue descrever, com inteireza, o impacto desumano e destrutivo da ditadura de 1964 no plano ideológico. Durante a Guerra Civil espanhola, a imprensa perguntou a um general por que o franquismo perseguia a esquerda: “Porque pensam”.

Os golpistas de 1964 fizeram exatamente o mesmo: tentaram extirpar o pensamento crítico no Brasil, substituindo-o pela ideologia da segurança nacional. Não me esqueço da recomendação que recebia de alguns editores de jornais e revistas onde trabalhei. De antemão, eu repórter não poderia, nas entrevistas, mencionar a expressão direitos humanos. Muitos homens e mulheres das Igrejas colaboraram nessa sórdida tarefa de esmagar o pensamento crítico.

A história cobra deles hoje a sua responsabilidade. E o faz por meio das armas democráticas representadas pelas comissões da verdade e da memória, embora criadas muito recentemente (e o Brasil é um dos países mais atrasados nesse ponto na América Latina), essas instituições expressam um avanço na intervenção da sociedade civil e do povo brasileiro.

O autor considera que há muito que fazer, muito mais do que já foi feito. Os mortos e desaparecidos políticos esperam a nossa atuação permanente e firme. O autor reconhece e agradece a todas as pessoas que colaboraram para que esse livro fosse publicado. E espera que cada leitor e cada leitora reveja o seu papel nesse processo.

A democracia formal não pode iludir-se sobre o caráter efêmero e susceptível das democracias de Estado de Direito. Trata-se de uma planta bela e fraca, por natureza, que exige ser cuidada a cada minuto do dia; do contrário, a falta de água felicitará a tarefa dos abutres e todas as nossas serão exterminadas. No entanto, existem sinais de esperança. Espero que este livro contribua para reforçar a esperança em um Brasil justo, e fraterno, e solidário.

Apresentação I
Vladimir Platilha*

Os que lutam,
“Há aqueles que lutam um dia, e por isso são bons.
Há aqueles que lutam muitos dias, e por isso, são muito bons.
Há aqueles que lutam anos, e são melhores ainda, porém há aqueles que lutam toda a vida.
Esses são os imprescindíveis”. (Bertolt Brecht)

O livro do companheiro Dermi Azevedo se enquadra dentro dessa visão do poeta Bertolt Brecht. É um livro imprescindível. Possui uma das poucas características dentro da autobiografia literária, que é o equilíbrio humanista de um esteta com a consciência social de um jornalista político. Seu livro nos faz retornar ao tempo tenebroso da ditadura militar; sua travessia torturada em meio a um deserto de crimes e de atrocidades é mais do que uma lição, é uma reflexão para que todos os patriotas se unam para barrar as tentativas fascistas que querem que a juventude esqueça as barbaridades do passado.
O livro é repleto de um clamor por justiça. O companheiro Dermi Azevedo nos transmite uma esperança e uma fé alicerçada na convicção de que, apesar das maiores injustiças que possamos sofrer, nunca devemos desanimar, mas sempre acreditar que um mundo solidário e fraterno é o futuro da humanidade. As futuras gerações serão feitas de homens como Dermi Azevedo, que sabem transformar ódio em perdão, quedas em recomeços. O escritor Stephan Zweig disse: “Um homem só pode dizer que já viveu, quando sentiu na pele as misérias desta vida”. Dermi Azevedo fez isto, transformou as misérias da vida em uma travessia para um mundo de liberdade e amor.

*Vladimir Platilha
Membro do Diretório Estadual do PPL-PA, Partido Pátria Livre

Apresentação II
Dalmo Evangelista

Mestre Dermi,
Sei que você terá uma surpresa muito grande ao receber esta correspondência. Mas, diferentemente de Sofia (GAARDER, Jostein) não precisa entregar a Hilde Knag! Afinal, eu sei quem é você!

Na verdade, a remessa deveria ter sido feita há meses, no momento em que comemoramos os 80 anos do Seminário de São Pedro. Mas atribuo o atraso não à falta de atenção ou gentileza para com o inesquecível amigo, mas, certamente, às atribulações do dia adia e à própria rotina espartana comum ao nosso cotidiano.

Mestre, embora as pessoas nem sempre percorram os mesmos caminhos, muitas vezes ocorrem momentos de aproximação. Estes não devem ser desperdiçados, pois materializam o resgate de aspectos e lembranças da história de cada um e ainda produzem conforto espiritual e sentimentos de alegria e satisfação. É nesta perspectiva e com espírito de fraternidade que envio esta carta para você, mesmo correndo o risco de alguém já tê-lo feito e você já deve ter lido a “Revista Comemorativa” em anexo.

Talvez você não saiba, mas você foi a pessoa que me presenteou um livro, pela primeira vez na minha vida. E aquilo serviu para despertar em mim o gosto e o zelo pela leitura. Você era, à época, chefe da equipe de Cultura, no Seminário de São Pedro. O livro poético da Bíblia, os Salmos, teria sido uma homenagem de reconhecimento à apresentação de um trabalho em um dos Núcleos de Improviso, então existentes no Seminário.

Sempre falamos aqui em você. Quis o destino que eu fosse ensinar em Currais Novos (atualmente sou professor da UFRN – Curso de Administração), belíssima cidade, sobre a qual tanto ouvi comentar, ainda no Seminário, tanto por você quanto pelos colegas Ernane e Erli (meus atuais “vizinhos”, em Natal). Em lá chegando, conheci Lécia, pessoa amável que dispensa comentários, e a quem devo oportunidade deste contato. E sobre você ela tem sempre elogios!

Mestre Dermi, a festinha de comemoração pelos 80 anos do Seminário foi altamente agradável. Reuniu, no América, toda a cúpula da igreja local e do Seminário, tanto as autoridades do passado, como as de hoje, tendo havido uma interessante integração com os atuais e os ex-seminaristas. Sei que você quer saber, mesmo não sendo possível citar todos os que estavam presentes: os mestres Misael, líder e principal incentivador dos frequentes encontros das turmas – Adauto, Ernane, Pedro Avelino, Zé Luís, Lúcio, Lira, Marcos e Anchieta (irmão), Campos, Canindé, Cassiano, Zé Aquino, Zé Gonçalves, Gildenor, Tarcísio, Zé Gomes, Ivanilson, João Agripino, Jocelin, Tarcísio Palhano, Jaime (agora Dom) e muitos outros. Notou-se a ausência do mestre Ferreira, também meu vizinho; e ainda a do pessoal da “Pax et Bonum”, com todo o respeito que merece!

Dermi, mesmo à distância, procuramos sempre ter alguma informação sobre você. Desde a Editora Vozes, onde você esteve; nas entrevistas na televisão com alguma frequência; e também na Folha de S. Paulo, através de algumas reportagens suas. Infelizmente, só leio a Folha aos domingos, pois aqui o preço do jornal é alto (R$ 6,00 aos domingos), e completo a leitura durante a semana pela internet.

Agora vou preparar o envelope para mandar pra você, mesmo com o sentimento de que você esteja até em Currais Novos hoje, pois estou escrevendo em plena festa de Santana! Não deverei ir às festividades, pois passei a semana em Brasília, onde apresentarei um trabalho na SBPC, que termina hoje.

A você muitas felicidades e um abraço amigo,

Dalmo Evangelista

 

Assim começaram minhas travessias

Eu tinha apenas 16 anos quando avistei, nos céus de Natal, dezenas de aviões que sobrevoavam baixo a cidade. Eu e os outros alunos do Seminário de São Pedro fomos convocados pelo reitor, cônego Lucilo Machado, para a sala de reuniões. Logo lhe per-guntamos o que estava acontecendo. Respondeu que eram ”as forças armadas que estavam derrubando o comunismo”.

O rádio da sala estava ligado no Repórter Esso e Heron Domingues narrava o deslocamento de tropas de Minas Gerais para o Rio de Janeiro, sob o comando do general Olímpio Mourão Filho. As notícias do sucesso do golpe chegavam filtradas aos nossos ouvidos, mas já eram fortes as informações sobre a prisão de dezenas e centenas de pessoas acusadas de “subversão”.

Uma das primeiras memórias que eu tenho da infância é a de um caso de injustiça social. Meus pais, José e Amélia, lembravam sempre, entre lágrimas, o que aconteceu com Derci, o único sobrevivente do primeiro casamento de minha mãe com João Aprígio de Azevedo, seu parente de Jardim do Seridó. João havia deixado para Darci um pedaço de terra como herança, mas logo depois de sua morte, um fazendeiro rico da região, José Ginani, a tomou dele sob ameaças. O fato ficou por isso mesmo. Anos depois Derci, sua esposa Iracema e seus filhos João e Fátima se mudaram para o Rio de Janeiro, onde ele trabalhou como motorista e cobrador de ônibus. Depois, já doente, voltou para Currais Novos. Morreu moço aos 30 e poucos anos.

Influiu também na minha formação religiosa a Cruzada Eucarística Infantil dirigida pela professora Gisela Pereira, que nos deu, por exemplo, as primeiras lições sobre o mistério da Eucaristia.

Quando eu tinha nove anos, fiz a minha primeira confissão com Mons. Paulo Herôncio de Melo, vigário de Currais Novos. No confessionário da Igreja Matriz de Sant’ana, ele me perguntou: “Você quer entrar no seminário?”. Eu respondi: “Sim”. Pouco tempo depois, minha mãe arrumou uma malinha de madeira e segui para o seminário de Caicó, a maior cidade da região do Seridó.

O seminário era dirigido por padres holandeses, da Congregação da Missão. Eles nos ensinaram a dividir o tempo entre o estudo das disciplinas obrigatórias e a leitura de obras clássicas da literatura mundial. Tínhamos um especial apreço pela rainha da Holanda, Juliana, isto porque, no dia do seu aniversário, era também feriado para nós. Alguns seminaristas de Currais Novos formaram um grupo para uma intervenção cultural no município durante as férias. O grupo era integrado por mim, por Manoel Jaime Xavier Filho, por José Adailson de Medeiros e por José Alves Pinheiro. Colaborávamos com a redação do jornal Tribuna Estudantil, onde eu escrevia uma coluna sobre política internacional, e com os programas da Rádio Brejuí, da família Salustino, a mais rica da cidade. Participava também do grupo o professor Antônio Quintino, historiador e dono de uma gráfica. Seu trabalho era muito bem organizado e isto me ajudou bastante, mais tarde, no aspecto metodológico da pesquisa acadêmica.

Encerrado o período de estudos em Caicó, mudei-me para Natal para fazer o colegial. A disciplina no Seminário de São Pedro era rígida. De manhã bem cedo, íamos sonolentos para a missa na capela. Depois se iniciavam as aulas. No almoço, costumávamos escutar em silêncio a história dos mártires no Império Romano. De vez em quando, havia uma hora matinal de meditação embaixo das mangueiras e cada um recebia um livro com a história de um santo. Vários colegas aproveitavam para ler clandestinamente outros livros como “A Carne”, do português Júlio Ribeiro, e “A vida sexual dos solteiros e casados”, do padre e médico maranhense João Mohana.

Três anos depois, eu passaria a ser uma das pessoas perseguidas e procuradas pela ditadura. Em 1967, fiz o meu primeiro vestibular e ingressei na Escola de Serviço Social, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Essa primeira travessia representou uma dupla mudança qualitativa em minha vida: de um lado, afastei-me definitivamente do projeto de ser padre; de outro, passei a ter um contato direto com uma geração de intelectuais cuja visão sobre o ser humano e sua inserção na sociedade, de forma transformadora, iria marcar para sempre a minha própria leitura da realidade. Foram figuras como o professor Otto de Brito Guerra e as assistentes sociais do Movimento de Natal (mobilização reformista da Igreja Católica no Nordeste) que mais influíram sobre minha formação universitária.

Em 1967, fui eleito o primeiro presidente do Centro Acadêmico D. Hélder Câmara, da Escola de Serviço Social. Logo comecei a atuar no movimento estudantil. Iniciamos então os preparativos para o XXX Congresso da UNE, em Ibiúna, no interior de São Paulo. Tomei consciência, cada vez mais, do meu papel de lutar por uma sociedade livre, democrática e soberana.

Mesmo fragilizados pela repressão, os diversos partidos e organizações de esquerda continuaram a sua luta, agora toda voltada contra o regime de fato, imposto ao país. Em Natal, nos reuníamos regularmente no restaurante universitário, para análise da conjuntura. Cada um se encarregava de preparar uma resenha crítica de suas leituras para o debate no grupo. Pela primeira vez na vida, tomei conhecimento mais sistemático do marxismo, graças a Emmanuel Bezerra, que me emprestou o livro clássico Princípios Fundamentais de Filosofia, do francês George Politzer.

No auge da mobilização, decidimos ocupar o restaurante universitário. A alimentação servida aos estudantes era a pior possível e a sujeira era generalizada. Durante 15 dias, os estudantes e a população uniram esforços para reformar a cozinha e para melhorar o serviço e a luta foi vitoriosa.

Os slogans predominantes nas manifestações variavam de acordo com as organizações e partidos de esquerda. Contudo, havia consenso em torno da palavra unitária de ordem que era: “Desgastar a ditadura e formar quadros para a Revolução’’.

 

Epílogo

Camaradas Emmanuel e Manoel Lisboa,

Faz tempo que nós não nos encontrávamos pessoalmente. Estivemos juntos em São Paulo, durante o governo de Luiza Erundina, quando seus corpos foram trasladados para o Nordeste. Foi cumprido, assim, o ritual exigido pelos homens e mulheres justos de todos os tempos: o cerimonial que indica para toda a sociedade um parâmetro eterno e imprescritível, o da dignidade humana. Confesso que chorei discreta e copiosamente ao ver aqueles ossos e aquelas sandálias carcomidos pelo tempo. Misteriosamente, os ossos se juntaram e surpreenderam os carcereiros e seus chefes, certos que estavam de que vocês tinham sido esmagados para sempre...

Emmanuel e Manoel: eles entenderam tudo errado. Não foram capazes de compreender que, mais cedo ou mais tarde, vocês sairão novamente pelas ruas, plenos de vida, como líderes de uma nova sociedade de homens e mulheres livres. Aliás, cama-radas, vocês sabem muito bem que os corpos podem ser triturados inumeráveis vezes; a vitória dos inimigos do povo poderá ser proclamada em decretos, discursos e festejada em orgiásticas manifestações.

Mas ninguém será capaz de aprisionar e de matar a chama de vida permanentemente acesa no coração de cada criança, de cada menina, de cada menino, de cada jovem, de cada mãe, de cada pai...

Depois de todo esse longo período voltei a encontrá-los em Belém do Pará, no ato público organizado pelo Sindicato dos Professores, em parceria com o PCR. Reencontrei-os na pessoa de Cajá. Fazia tempo que nós não nos víamos, mas voltou a ocorrer, nessa noite, o que acontece entre verdadeiros amigos: os assuntos estão sempre na ordem do dia, como se a reunião anterior tivesse acontecido na véspera...

Anotei na minha memória que a marca registrada do ato em Belém foi a da simplicidade. Vocês sabem, aliás, que foram homens e mulheres simples todos os grandes revolucionários: Karl Marx, Rosa Luxemburgo, Zumbi, Che Guevara, Ho Chi Minh, Ben Bella, Agostinho Neto, Luiz Carlos Prestes, Carlos Marighella, Carlos Lamarca, Gregório Bezerra, Djalma Maranhão, Pedro Pomar, Amaro Luís de Carvalho, frei Tito, irmã Dorothy Stang, Margarida Maria Alves, Vladimir Herzog, entre tantos ou-tros nomes de heróis e heroínas na história da humanidade.
O nosso último encontro pessoal, camaradas, aconteceu numa tarde de sábado de 1967, numa tosca escadaria entre a Cidade Alta e a Ribeira, em Natal. Refletimos sobre a terrível conjuntura que se abatera no Brasil, desde que o Estado policial, repressivo e torturador se abateu sobre a Nação em nome da “segurança nacional”. Nessa reunião, discutimos o que poderia ser a melhor estratégia para o movimento estudantil naquele momento histórico. Você, Manoel, resumiu didaticamente a orientação do Partido: o nosso movimento deveria empenhar-se na luta para desgastar a ditadura e na formação de quadros para a Revolução.
Antes desse sábado, eu me encontrara com você, Emmanuel. E você confiou-me a primeira tarefa: estudar e fazer um resumo do livro “Princípios fundamentais de Filosofia”, do filósofo marxista francês Georges Politzer. Lembro-me muito bem o que você me disse naquele momento: “Procure ler e estudar esse livro com espírito revolucionário e não burocrático. Estude sempre e tenha sempre em mente o projeto que move a nossa vida, que é o de construir, na luta, um mundo livre da exploração do ser humano”.

Ao registrar essas memórias, quero enfatizar que tenho bem presente, em todo o meu ser, o significado de todo um processo existencial. Nele, aprendi as lições de simplicidade e ternura dos meus pais José e Amélia; de engajamento e de firmeza ide-ológica de Emmanuel Bezerra, Manoel Lisboa de Moura e de outros companheiros de luta contra a ditadura; de honestidade e de espírito científico de professores como Paulo Sérgio Pinheiro e Benjamin de Souza Netto; de compromisso evangélico de Antônio Henrique Pereira Neto, Paulo Evaristo Arns, Pedro Casaldáliga, Tomás Balduíno e Sumio Takatsu; de engajamento revolucionário de Ana Lobo e de sua filha Elsa, de Eliana Rollemberg, de Isabel Peres e de Maria Sala; de consciência de classe de Valdemar Rossi, Nelson Martinez, José Luiz Brum, Brás Joison, Nilson, Gaúcho; de engajamento em favor dos direitos humanos de Roberto Monte, Nilmário Miranda, Perly Cipriano, Nilda Turra e Marga Rothe. Aprendi também que não basta dizer-se de esquerda para proclamar-se militante. Em muitos casos, sobretudo com respeito à condição feminina, as violências acontecem mais no campo progressista.

Em todas essas andanças, sempre tentei ser amoroso. Fracassei muitas vezes. Mas continuo pensando que, sem amor, a vida se esteriliza. O amor verdadeiro exige um exercício permanente de busca, paciência e de recomeço. Poder-se-ia perguntar: como é possível falar em amor depois de ter vivido e de relembrar tantas tragédias? Responderia que o ser humano não é uma pedra jogada no espaço. Sua primeira vocação é a de amorizar o mundo. Isto significa lutar por relações humanas autênticas e construir um espaço vital inspirado na liberdade, na igualdade e na fraternidade. Significa também eliminar todos os fatores que levaram a sociedade a ser um recanto de bem-estar para poucos e de miséria para bilhões de seres humanos.

Se fosse preciso recomeçaria tudo. Voltaria às ruas de Natal para participar de passeatas estudantis. Reencontraria outros militantes para a partilha de leituras e de estudos. Se fosse preciso, pediria de novo o apoio e o refugio a outros militantes. E continuaria a sonhar com um mundo novo, de homens e de mulheres novos.

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