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Militantes Reprimidos no Rio Grande do Norte
Raimundo Ubirajara de Macedo

Livros e Publicações

... e lá fora se falava em liberdade
Ubirajara Macedo, Sebo Vermelho 2001

Figuras inesquecíveis

O tempo, a idade e a falta de controle do autor fazem a diferença nesta hora, quando o relato daqueles dias sombrios poderia ser mais completo. No entanto, nada faz esquecer os momentos vividos por pessoas que marcaram pela amizade, pelo sofrimento conjunto, quando, embora revoltados com a situação, demos a volta por cima e soubemos bem administrar as horas que ali passamos, “pagando” pelo mal dos outros, ou seja, os algozes que vendiam o país, naquela hora, aos detentores do poder econômico- as multinacionais, ligadas por cordão umbilical ao imperialismo ianque. Eles, os vendedores da pátria, é que deviam está ali pagando pelo mal que faziam e ainda fazem, porque a maior parte continua a serviço dos que nos escravizam. E o pior é que se apresentam como salvadores e se elegem em todas as eleições, recebendo rios de dinheiro dos seus patrões estrangeiros, e mesmo nacionais ligados aos que nos exploram.

Apesar de tudo, nos lembramos ainda daqueles que com bom humor e fé no futuro deste país, driblavam os esquemas montados para nos amedrontar e até hoje vivem sem precisar se ajoelhar diante dos poderosos que foram nossos algozes naquela hora cinzenta e perversa da vida nacional.

Não nos esquecemos do poeta areia-branquense Antonio Silvério, que fazia versos e contava piadas, muitas delas envolvendo certos “gorilas”. De Macau, com boa verve, tínhamos o sempre lembrado Chico Guanabara (já falecido), que ria das besteiras e da ignorância dos nossos “guardiões”. Geraldo Pereira de Paula, advogado, colega dos Correios e Telégrafos, em suas discussões infindáveis com Djalma Maranhão, Luiz Gonzaga de Souza, poeta, escritor, mas lá pras tantas, depois de recitar poesias suas e de Fagundes Varela, parava de repente e perguntava: “Afinal, quando vamos sair desta merda?”. Tinha também a palavra séria e filosófica de Moisés Grilo, o homem que nunca perdeu a fé naquilo em que acreditava- um Brasil livre e soberano- o que, infelizmente, ainda não aconteceu.

Distante, em outro departamento do quartel onde estávamos, Mailde Pinto Galvão, Maria Laly Carneiro,, Diva da Salete Lucena e Margarida de Jesus Cortez pagavam caro por terem tido o “atrevimento” de ensinar crianças carentes nos acampamentos da “Campanha de Pé no Chão também se Aprende a Ler”. Esta campanha, embora tenha recebido aplausos de vários países, inclusive da Suíça, era apontada pelos fascistas que dominavam o país, de subversiva, recebendo o “Ouro de Moscou”. Viram que gracinha? Os fascistas de vez em quando davam uma de palhaço...

As professoras presas no Regimento de Infantaria foram vítimas de pressões de todas as formas, mas isso não vou relatar, porque já está descrito com muita precisão no livro de Mailde - um dos melhores documentários que já se escreveu sobre a geringonça de abril de 64. Sofreram o diabo, aquelas jovens que resolveram ensinar crianças a ler e a escrever num projeto tão bem idealizado por Djalma Maranhão e Moacyr de Góes. Os fascistóides não os perdoaram. Elas, assim como Djalma e Moacyr “pagaram o pato” pelo fato de desejarem tirar da cegueira do analfabetismo filhos de trabalhadores honestos que não tinha condição de frequentar a escola.

Nos acampamentos, as crianças se alimentavam e tinham direito a assistência médica e dentária. Isso era um crime para os novos donos deste país. Quanto mais pobre e mais analfabeto o povo brasileiro, melhor para eles, os políticos safados e corruptos, porque assim era mais fácil comprar votos com feirinhas, tijolos, cimento e alguma alimentação. Ainda hoje é assim. E eles vão se mantendo no poder, à custa da miséria do povo.

Nós sabemos que, no Nordeste, por exemplo, jamais serão feitas obras públicas definitivas e que venham pelo menos minorar os efeitos da seca, porque a indústria da fome serve bem aos cruéis desígnios daqueles que arrancam do povo o voto, que um dia foi soberano. Fala-se até nos corredores do Congresso Nacional que o antigo “voto de cabresto”, usado pelas oligarquias, anterior aos anos 30, poderá voltar, para alegria maior ainda dos coronéis que se prevaleceram dos “currais” montados por eles mesmos para melhor garantir o voto do nosso homem simples do interior. Acredito que isso não venha a acontecer, visto que se tornaria um grande retrocesso, mas a vontade de certos políticos é enorme...

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