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Insurreição Comunista de 1935
em Natal e Rio Grande do Norte

Velhos Militantes

 

Velhos Militantes
Depoimentos

Depoimento de João Lopes, o Santa
Ângela de Castro Gomes (coordenadora), Dora Rocha Flaksman, Eduardo Stotz
Jorge Zahar Editor

 

 

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A revolução popular acaba no Brasil Novo

- Como foi sua viagem para o Nordeste?

- Eu e o Jabatão fomos de navio, clandestinos, no camarote do imediato, que também era do Partido. No meio da viagem, já aconteceu que o Jabatão pegou de namoro com a mulher de um sargento, que estava viajando com a filhinha. A mulher não saía do camarote, e falei para o Jabatão: "Rapaz, você está procurando desgraça!"

O Miguel tinha ficado de esperar a gente lá em Natal, mas o navio atrasou e disseram a ele: "Só encosta amanhã às seis horas." Ele foi embora. Acontece que arranjaram para o navio atracar antes, e o resultado foi que a gente chegou e o Miguel não estava lá. O Jabatão quis saltar assim mesmo, e eu fiquei com medo do tal sargento estar esperando a mulher e dar algum bode. Afinal, saltamos e fomos dormir num hotel lá que tinha umas redes, eu preocupado porque estava dando tudo errado. De manhã cedo, saímos e fomos para a casa do Jabatão. Por azar, a mulher dele estava saindo para comprar pão. Ela não tinha notícia dele há um ano e, quando viu a gente, deu um grito e desmaiou. Juntou gente à beça, e no meio apareceu um senhor que era músico da polícia e disse assim: "Já sei do que se trata. Esses rapazes não podem ser vistos." Pegou nós dois e levou para a casa da filha dele. Eu pensei: "E agora?" Nós ali sem o Miguel, sem nada. Virei para o Jabatão e disse: "Está aqui o seu dinheiro, você vai para o seu lugar" - era Barra do Açu "que eu vou tratar da minha vida."

- E o que aconteceu com o senhor?

- Esse senhor músico me levou para a casa de um tal de Agostinho, um sapateiro. Fiquei lá quatro dias escondido num quarto sem nenhuma ligação. O pior é que nessa casa só se comia uma vez por dia: de manhã era uma manga ou uma fruta junto com o café. ao meio-dia era almoço e janta ao mesmo tempo, e às seis da tarde era uma bolacha. E esse Agostinho tinha um medo de mim danado. No fim de quatro dias, o Miguel apareceu, e eu disse: "Não vim aqui para ficar dentro de um quarto, não. Vim aqui para trabalhar." O que eu queria mesmo era sair dali para poder comer.

Nisso morreu um dos homens feridos naquele choque com a polícia, e eu disse: "Vamos fazer o enterro." Eu tinha dinheiro e paguei. Foi um enterro enorme, o comércio parou, todo mundo ficou admirado. Fui assistir disfarçado de retratista. Depois disso, pedi uma reunião. A direção do Partido lá era tudo sapateiro. Segunda-feira, eles não trabalhavam e ficavam bebendo cachaça. Disseram que era difícil fazer uma reunião, mas insisti. Nos encontramos na praia, debaixo de um pé de coco, e eu disse: "Companheiros, trago ordens, não quero ser mandão de ninguém. Primeiro: cooperativismo não pode. Tem que acabar com isso, para poder tratar da luta, Segundo: vou reorganizar a direção aqui. Não pode ter valor a direção de um partido com o sujeito embriagado. Muita gente se afasta porque não quer se meter com cachaceiro."

Nessa primeira reunião saí vitorioso. Todos eles me aceitaram e me obedeceram. Recebi logo uma carta de elogio, dizendo que eu estava trabalhando direito. Mas, dali a uns dois meses, aconteceu uma encrenca. Veio uma ordem dizendo para nós todos, comunistas, entrarmos para a Aliança Nacional Libertadora. Eu queimei com aquilo, discordei, e mandaram me chamar ao Rio de Janeiro.

- O senhor veio ao Rio?

- Vim, expliquei que já tinha acabado com aquele negócio de cooperativa, já tinha organizado uma direção, e contei que o secretariado do Nordeste estava envolvido num golpe que estavam preparando lá em Natal. Levei 24 horas discutindo, e eles me disseram: "Volta agora mesmo e desmancha esse golpe com o secretariado."

- Que golpe era esse?

- Era o golpe que acabou estourando lá. O golpe não foi comunista, não. Tomamos parte no movimento armado, mas se não tomássemos ia estourar de qualquer maneira. Uma vez até me chamaram para uma reunião com os dirigentes da política de lá. Apareceu o Aluísio Moura, que queria derrubar o governador. Mas ele também não queria que ficasse no lugar o Café Filho. Era um grupo de capitalistas, mas eles estavam divididos.24

Quando cheguei de volta a Natal, fui logo dizendo: "Café Filho está preparando uma greve geral, e nós não temos nada com isso." Mas aí o pessoal disse: "Não, temos sim, companheiro. Temos que tomar a greve." Aí concordei, trabalhamos um mês Com o pessoal da Light e fizemos a greve.

- Para esclarecer: o senhor volta a Natal, está havendo uma agitação encabeçada por pessoas de fora do Partido, está sendo preparada uma greve, e o Partido resolve participar da agitação para poder atuar dentro dela.

- Foi isso. Quando cheguei, ia ter um comício em praça pública, e eu disse para a minha secretária - era a Amélia, filha do Bangu:25 "Olha, vamos hoje para a praça pública dizer que a Aliança Nacional Libertadora é contra esse golpe." Quando a menina começou a falar, eu só via nego ficar com a cara virada. Ficamos como inimigos daquele pessoal. Aí mandaram me chamar de novo aqui no Rio, porque eu não obedecia ao secretariado.

- Mais uma coisa: o senhor continuava a ser contra o golpe, mas já tinha aderido à Aliança Nacional Libertadora.

-É. Eu recebia A Classe Operária,26 recebia cartas clandestinas, e o pessoal dizia que naquele momento todos os camaradas deviam se filiar à Aliança Nacional Libertadora. A Aliança foi o maior organismo de massa que teve aqui. No Norte, então, todo mundo aderiu. Vendo essa força, que modificou toda a situação do país, os golpistas se aproveitaram.

- O senhor então veio pela segunda vez ao Rio de Janeiro. Com quem o senhor se encontrou?

- Com o mesmo grupo que me trouxe de Niterói e me mandou para o Nordeste. Eu só me ligava a eles. Eles me mandaram voltar. e disseram para eu procurar lá em Natal o Valadares, que era do CC, e mandar ele vir embora para o Rio imediatamente. Cheguei, mandei chamar o Valadares, e ele me disse: "Já está tudo pronto para o movimento. Contamos com Manaus, com o Ceará, com a Paraíba. A senha é essa: Maria teve um bom parto." Eu disse: "Mas rapaz, você tinha ordem de fazer isso? Estou vindo do Rio, e lá eles são contra isso! Isso é um golpe, não podemos fazer uma coisa dessas!"

- Quer dizer que as pessoas com quem o senhor teve contato no Rio eram contra a insurreição?

- A palavra de ordem era essa: a Aliança Nacional Libertadora é contra o golpe, que é um golpe dos capitalistas, um golpe fascista. Mas depois que eu falei com o Valadares, o Praxedes, sapateiro,27 que era secretário lá, veio me dizer: "Olha, o 21.° Batalhão vai fazer o movimento agora. Temos que tomar parte." Eu disse: "Não tenho nada com isso. Não sou do CC, não sou do secretariado. O Valadares é que é do CC, você fala com ele e faz o que ele mandar."

Fui para casa e avisei à mulher: "Vai haver o diabo. Tudo fracassado. Vim do Sul, e não tem nada organizado. Ainda está se estudando como é que se vai fazer. Pega esses livros e vai para a casa do seu pai, porque eu vou morrer. Se você quiser contar que eu morri, diga só" - porque ela não sabia nem o meu nome, só me conhecia como "Maranhão" - "diga só que morreu o João Lopes, dos metalúrgicos." Ela ficou chorando, foi esconder os livros e voltou. Dali a pouco bateram na porta: era um camarada mandado pelo Valadares, dizendo para eu estar às sete horas da noite num tal lugar. Virei para a mulher e disse: "Vai embora para a casa do seu pai." Ela falou: "Eu não, eu vou com você."

- A mulher do seu João, desde aquela época até hoje, é a dona Letícia, com quem vamos conversar um pouco também. Como é que foi essa história da insurreição em Natal, dona Letícia? A senhora não quis deixar o seu João ir sozinho?

Dona Letícia - Não. Eu lembro que estava fazendo uma galinha gorda, bacana, só você vendo, quando o João chegou e disse assim: "Apaga o fogo, acaba com isso aí, apanha essa mala de livros e vai esconder, porque a revolução vai começar hoje." Nisso chega um cara dizendo para ele a hora em que ia começar. Ele me disse: "Vai embora para a casa do seu pai." Eu respondi: "Para a casa do meu pai?! Pois se vim de lá quando a coisa não estava tão preta, agora é que eu vou voltar? Não volto, não. Aonde você for, eu vou." Ele disse: "Não vai comigo porque eu vou morrer. Isso vai fracassar, tenho certeza." Aí ele me contou que não queria que a revolução fosse naquele dia, mas um praxedes desses, um chefe lá, disse que tinha que ser, porque o 21 já estava pronto para mandar brasa.

- A senhora podia voltar um pouco para trás e nos contar como conheceu o seu João?

Dona Letícia - Eu morava com a minha irmã e dois irmãos numa casinha alugada lá em Natal. Uma noite, o João e um outro passaram por lá. A minha irmã era muito levada, mexeu com eles, conversaram um pouco e eles foram embora. O João não falou muito não, porque tinha ido para Natal escondido, não é? Depois nunca mais vi ele. Foi como uma pessoa qualquer que passou. Um dia, fui ao circo, ele estava lá e chegou perto de mim. Conversamos, e dali para a frente ele ficou indo lá em casa. Até que um dia teve uma briga dos soldados de polícia com a guarda civil. Ele estava lá em casa, o pau comendo lá embaixo na avenida, e então eu disse: "Não vai embora, não, fica aí." Meus irmãos eram o cão. Queriam saber quem era ele, onde é que eu tinha arranjado aquele negro. Porque lá no Norte negócio de preto é fogo, minha filha.

- Fogo como?

Dona Letícia - Eles não gostam de preto. É a ignorância, não é? Porque nós brasileiros somos raça negra mesmo, somos raceados de tudo quanto é qualidade. Meus irmãos ficaram naquela história, c eu disse: "Olha, eu não sei quem ele é nem quero saber. Só sei que ele vai ficar aqui porque não vou deixar o rapaz sair sem saber o que vai encontrar pelo caminho." Ele ficou em casa essa noite, e daí ficou essa amizade danada que está grudada na gente até hoje.

- Desde então vocês ficaram juntos?

Dona Letícia - É. Ele ficou indo lá em casa, os meus irmãos amaciaram mais, e afinal fomos visitar o meu pai, que morava lá em Barra de Massaranguape. Depois nós dois nos mudamos para a praia, para Ponta Negra, porque os meus irmãos não tinham cabeça e meu pai muito menos, e naquela época não era para ninguém saber onde o João estava. Primeiro fomos morar juntos, depois é que a gente se casou. Viemos casar no civil aqui no Rio. Na igreja casamos lá, porque lá quem não casa na igreja não é casado.

- Seu João disse que a senhora não sabia nem o nome dele. A senhora tinha idéia do que ele fazia, em que ele estava metido?

Dona Letícia - Mais ou menos, por alto. Sabe por que é que eu ,fiquei com ele e ele comigo? Porque um dia ele me chamou para passear na praia, passamos perto da cadeia, e no muro estava escrito: Partido Comunismo do Brasil.

Seu João - Partido Comunista do Brasil.

Dona Letícia - É, estava escrito lá. Então eu disse: "Já vi um homem apanhar muito por causa desse nome." Ele: "Que nome?" Eu falei: "Comunismo." E eu disse que não sabia o que era nem o que deixava de ser. Aí ele conversou comigo alguma coisa sobre o Partido, não coisas fundamentais, mas coisas que qualquer pessoa podia saber. E juntos ficamos, até que veio a revolução.

- Quando começou a revolução, seu João pediu que a senhora fosse esconder uns livros. Ele lia esses livros?

Dona Letícia - E ele tinha tempo de ler? Ele já tinha lido um ou outro. Já eu, pouco sei ler. Assino o meu nome para não pedir arrego aos outros. Porque eu tive três meses de aula na minha vida. Me lembro até hoje qual foi o livro que eu li: Raciocínio rápido. Fiquei duas semanas numa lição, porque não sabia dizer "transatlântico". Não saía da minha língua, nem a gancho. O que é que eu podia ler? Nada. E ele não tinha paciência de me ensinar. Me chamava logo de burra, e pronto. Eu achava que ele não devia me chamar de burra porque quem sabe alguma coisa não deve xingar o que não sabe, não é, coitado? Era o meu caso. Mas deixa para lá. Tudo já passou, e hoje agente está aqui. Já vi muita coisa que nunca pensei de ver.

Bom, mas aí peguei os livros e escondi na casa da minha madrinha, debaixo de uma cama. Depois a polícia foi lá, revirou tudo, mas não viu a mala. Se tivesse visto, pobrezinha, ela ia ter que dar conta daquilo, e nem sabia o que tinha ali. Eu só ficava pensando: "Aquela pobre vai morrer no cacete, porque não vai dizer nada!" Ia dizer que fui eu que deixei, mas quem sou eu? Onde é que eu estou?

- Depois de esconder os livros, a senhora saiu de casa com seu João.

Dona Letícia - Foi. Quando chegamos na rua, ouvi o primeiro tiro e vi um bonde pegando fogo. O João falou: "Pronto! Agora não adianta mais nada. Se já deram o primeiro, é o mesmo que ter dado mil." E mandou de novo eu ir embora para a casa do meu pai. "Não vou, rapaz." Fui com ele para a casa de um sujeito que eu nem me lembro o nome, e ficamos a noite inteira lá. Eles disseram que tomavam a cadeia em duas horas, mas levou a noite inteira. Toda hora chegava um e dizia: "A cadeia está resistindo!" Virgem Maria! Aquilo era amador que estava lutando, e eu pensava: "Vão acabar as balas todas na cadeia, e depois como é que vão resolver a resta?" Aí eu já estava sabendo de mais alguma coisa, já estava entrando mais alguma coisa na minha cachola.

- A senhora sabia que revolução era aquela?

Dona Letícia - Sabia por quê, para quê, e, se fracassasse, o que é que ia acontecer. Sempre fui muito assim. Apanhava as coisas no ar. Sempre tive muita inteligência das coisas que iam acontecer, ainda mais estando dentro delas.

Quando a cadeia caiu, o dia vinha amanhecendo. Mas ainda tinha o quartel da polícia, e o João foi para lá. Ainda bem que a polícia não resistiu muito, não. Lá estavam os meus irmãos, e eu fiquei com um medo danado que eles morressem. Os coitados não sabiam de nada. Mas felizmente o quartel da polícia caiu logo.

Seu João - Quando chegou nove horas da manhã, vencemos. Eu disse então para a minha gente: "Vamos fazer a direção."

- Como é que se formou o governo revolucionário?

Seu João - Não tinha nada resolvido. Falaram com o Aluísio de Moura, mas ele não aceitou. O Café Filho também não quis, fugiu. Chamei outro militar lá, e ele não quis aceitar. Ninguém queria aceitar aquele abacaxi, porque o povo estava doido, cantando no meio da rua, não queria trabalhar, não queria nada. Então se formou a direção, com o Lauro, o Macedo, e outro que eu não me lembro.28 A mim me botaram como segurança.

- O que esse governo fez?

Seu João - Lançamos um programa bonde barato, pão barato. Demos pão ao povo. Fizemos dez mil manifestos,29 e o Valadares falava pelos alto-falantes, chamando o povo para se unir. Que nós queríamos pão, terra e liberdade.

- Como é que ficou funcionando a cidade nesse período?

Seu João - O povo não queria trabalhar, só queria cantar: "Viva Prestes! Viva Prestes!" Luís Carlos Prestes era o menino dos olhos lá. O povo queria armas. Gritavam: "Mata! Fuzila!" Queriam ir buscar o pessoal do governo na embaixada para acabar com a vida deles. Eu dizia: "Não! Não podemos entrar na embaixada! O Brasil tem uma responsabilidade!" Me perguntavam: "Você quer trair, companheiro? Para a frente, companheiro!" Cheguei a cair de tonto no meio da rua, já não agüentava mais.

- Houve um descontrole grande, tanto da parte da população como do governo revolucionário.

Seu João - Não tinha gente preparada para aquilo. Um queria dar uma ordem, outro queria dar outra, perdeu-se o controle. Cheguei até a querer dar um tiro na cara do Praxedes. Disse a ele: "ô miserável, eu não disse que não estávamos preparados? Agora o que é que você vai fazer?"
- Dona Letícia, a senhora se lembra desse período do governo revolucionário?

Dona Letícia - Lembro. A junta governativa ficou uns três dias. Eles pagaram ao povo tudo o que estava atrasado, deram comida para o povo, e ninguém queria mais sair de lá. Prenderam um rapaz integralista, ruim feito uma desgraça. Ficava lá dizendo que era integralista até a morte. Mataram ele.

Seu João - Ele dizia: "Eu sou integralista! Sou integralista!" Eu falava: "Rapaz, cala a tua boca!" Aí chegou alguém e falou: "Você está zombando de nós?" Varou ele de um lado ao outro com a baioneta.

- Foi um período agitado, não é, dona Letícia?

Dona Letícia - Cruzes! Cala a boca! Era preciso ter peito. Quando vocês ouvirem falar em revolução, não batam palma, não fiquem alegres não, porque o negócio não é mole. Naquele tempo não foi, quanto mais hoje, que tem muito mais gente ruim por aí.

- Como acabou a revolução em Natal?

Dona Letícia - Acabou quando eles receberam a notícia de que Pernambuco tinha caído e que os aviões já estavam vindo para liquidar com agente.30

Seu João - No dia em que nós caímos foi que começou no Rio: 27 de novembro de 1935. Chegou um emissário contando que o Giocondo Dias tinha fugido de madrugada, e que o 21 tinha arribado desde meia-noite. Fui procurar o Valadares, que era o nosso chefe de polícia e era quem dava passaporte para quem quisesse ir embora, e ele tinha sumido. Aí eu disse: "Fracassamos." Às cinco da manhã, fui-me embora.

Dona Letícia - Nós fugimos. O João me disse: "Olha, eu vou fugir. Você vai embora para casa do seu pai." O negócio dele era me mandar para a casa do meu pai. Eu disse: "Não, vou com você, que eu sei andar por aí dentro dos sertões." Mentira, que eu não sabia nada, só de ouvir falar. Mas fui com ele e mais uns outros, e nos salvamos.

Seu João - Fomos embora em dois automóveis do governo. Num o chofer era Lauro, e iam dois primos seus. No outro, o chofer era Zé Pretinho, e fomos eu, ela e mais um garoto de Pernambuco. O pior de tudo é que a gente passava pelo povo, pelos rapazes que estavam dando guarda nas estradas, e eles gritavam: "Viva Prestes! Viva Prestes!" Ah, que tristeza! Que vontade de dizer: "Não fica mais aí." Eles iam prender os pobrezinhos, e a gente não podia nem avisar. Até hoje dá vontade de chorar.

- Por que vocês não podiam avisar a essas pessoas que o movimento havia fracassado?

Seu João - Porque se a gente avisasse aos que estavam na frente ía ser uma balbúrdia danada, entendeu?

- O senhor teve notícia de como foi a repressão em Natal?

Seu João - Ah, foi muita calamidade. Muita gente foi presa. Eu e ela levamos 15 dias no mato. Largamos o automóvel, seguimos a pé, e eu mandava ela pedir comida: "Dona, quer me dar um pratinho de comida aí?" Eu pensava: "Se ela vier com a polícia, meto bala nela." Dali a pouco ela vinha com farofa, coisa para a gente comer.

Dona Letícia - Fizemos uma volta e viemos sair em Caraúbas. Tínhamos que passar por um rio, e a passagem era um pau de coqueiro atravessado. Aquilo criou lodo, não é? Quando eu pisei, caí dentro d'água e afundei. Mas ele me segurou e me salvou.

Aí fomos chegando perto da casa do meu pai, em Barra de Massaranguape. Mas o meu pai, com licença da palavra, era cagão. Então o meu irmão, que estava lá, nos levou para a casa de umas pessoas no meio do mato, para a gente ficar escondida até arranjar uma condução para ir por mar até Pernambuco. Três dias depois, de madrugada, o meu tio e mais um outro moço vieram nos trazer um bote, e nós fomos embora. Mas não chegamos até Pernambuco não. Saltamos em Ponta da Pedra, porque achávamos que era mais distante e não devia estar muito vigiado. Que nada! Saltamos, fomos a uma casa que tinha lá, dissemos que estávamos indo para Pernambuco fazer uma operação, e pedimos para almoçar. Quando estávamos almoçando, saiu um garoto montado num cavalo. Aquilo me bateu em cima: "Ele vai chamar a polícia." Comemos depressa e saímos pela praia afora. Quando chegamos lá adiante, encontramos uns sujeitos à paisana. Eu pensei: "Estamos fritos." Era a polícia mesmo. Nos prenderam e nos levaram para o posto de Ponta da Pedra. Aí veio a polícia de Pernambuco nos buscar, tudo armado de metralhadora, o diabo a quatro. O sujeito encostava a metralhadora em mim e dizia: "Vou te matar, filha da mãe!" Eu falava: "Pode matar, estou nas suas mãos." O que é que eu ia dizer? Me xingavam feito umas pestes. Levaram a gente para o Brasil Novo.

- O que era o Brasil Novo?

Dona Letícia - Uma cadeia lá de Pernambuco. Uma desgraça! Quem nunca passou pelo Brasil Novo não sabe o que é prisão. Esse daí vomitava sangue, de tanto que apanhou. Quando iam bater nele iam me buscar para ele apanhar na minha frente. E ele quase morto fazia assim com a boca para eu não dizer nada. Bateram, bateram, bateram, quase mataram ele. Aí me soltaram. Até pedi para dormir lá, que eu não conhecia nada em Pernambuco. Me botaram junto com os tuberculosos, com o pessoal que vinha do interior para ir para o hospital. Dormi ali e de manhã saí por uma rua qualquer, vi uma senhora e perguntei: "A senhora não sabe de alguém querendo empregada?" Ela disse que sabia, me mostrou uma casa e eu fiquei lá como empregada. Mas eu não sabia fazer nada, e a minha cabeça zunia. Fiquei nessa casa algum tempo, e depois arranjei de morar na casa de uma senhora no Pina. Todo dia de visita eu ia na cadeia ver o João, mas eles diziam que ele não estava lá.

- Quanto tempo o senhor ficou preso em Recife, seu João?

Seu João - Mais de ano. Fui preso no dia 8 de dezembro de 35, e saí com a anistia, em 37.31 Fui a julgamento, e disse para o juiz: "O problema é que eu estava de viagem, quando surgiu esse movimento, e me prenderam." O juiz chamou umas testemunhas, mas ninguém me conhecia. Além do mais, eu disse na prisão que me chamava Francisco de Assis, e o meu nome lá no Norte era Maranhão. Aí veio uma testemunha de acusação e falou: "Esse negro vai aí para os jornais para falar mal do governo! Ele tem ligação com a maçonaria, com isso e mais aquilo." Eu disse: "É mentira. Nunca fui jornalista, nem sei onde é que tem jornal aqui em Pernambuco." Acabou a audiência, saí dali e dei um jeito de arranjar uma gilete. Eu ia me cortar os pulsos, porque não agüentava mais tanto sofrimento. Mas um cara lá descobriu a gilete e disse: "Queria se matar, complicar a polícia, não é?" E me jogou no castigo, 30 dias sozinho a pão, e água.

Teve um dia lá que eu estava na minha cela, e, não sei como, veio uma coisa no meu ouvido dizendo que o prefeito do Rio, o Pedro Ernesto, tinha sido preso.32 Quando o guarda abriu a porta para trazer comida, eu perguntei: "Que foi que houve com o Pedro Ernesto? Foi preso?" Lá não entrava jornal, não entrava nada, e o camarada ficou assombrado. Chamou o outro: "Esse crioulo é adivinhador!" E começou a me dar prestígio. Até que um dia ele veio me avisar que tinha saído a anistia. E disse assim: "Trepa na janela da cela que eu vou ficar lá fora do lado de uma mulher que sempre vem aqui. Aí você vê se essa mulher é a sua." Quando fui subir, botei uma golfada de sangue de tanto apanhar. Arriei logo, mas cheguei a ver a cara dela. Quando o guarda voltou, perguntou: "É aquela?" Eu disse que sim, e ele fez a ligação.

Aí, às seis horas da tarde, mandaram a gente embora por causa da anistia. Esse guarda me pegou e me levou para a casa da irmã dele, lá perto do campo do zepelim. O marido dela chamava Paim, trabalhava nos ônibus e era do Partido. Foi ele que me disse: "Olha, eu também sou da coisa. Vou te ajudar." Aí chegou lá um outro irmão da mulher, dizendo que conhecia uma dona que botava cartas e que dizia que tinha um marido carioca que estava preso. Fiquei ouvindo, e no fim disse: "Essa dona que ele está falando é a minha mulher." No dia seguinte bem cedo o Paim saiu para buscar ela. Fiquei no quarto espiando pela janela, e daí a pouco vejo ela saltar do ônibus, toda enfeitada, toda bonita. Trouxe um presente para mim, me deu um abraço.

- E aí vocês ficaram juntos?

Seu João - Não, ela não podia ficar lá, tinha que ser um lugar de segurança. No outro dia me levaram para encontrar com ela lá no Pina, numa casa amarela. Era dia de São João, tudo cheio de bandeirinha. Tomei o bonde na parte de trás e o cara que me levava foi na parte da frente. Quando ele saltasse, eu tinha que saltar junto. Mas fui entretido, vendo aquelas bandeirinhas, e, quando olhei, o cara já tinha sumido. Aí saltei sozinho, perguntei onde era o Pina, acabei achando a casa tarde da noite e bati. Ela estava aflita, com saudade de mim, e se assustou. Aí veio um pessoal me buscar, me esconderam de novo, e depois vim para o Rio. Ela ficou e só veio depois.

Logo que cheguei aqui, fui procurar os companheiros. Estavam no Rio o Bangu e o Mário Lino. Eles me deram um mês para eu descansar, e depois fizemos uma reunião para eu dar o informe. Aí resolveram me mandar para Minas, mas a mulher apareceu e eu não fui.

Dona Letícia - Cheguei aqui em dezembro de 1937 e fui morar com ele na casa da mãe dele, no morro do Pinto.

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Notas

24 - A eclosão e as características da revolta comunista em Natal estiveram, sem dúvida, vinculadas às disputas entre facções oligárquicas pelo controle da política estadual. A eleição para governador em outubro de 1935 opôs o grupo do interventor Mário Câmara ao grupo político tradicional. chefiado por José Augusto Bezerra de Medeiros. A vitória coube a Rafael Fernandes Gurjão, desta última facção. o que foi contestado por Mário Câmara e João Café Filho, chefe de polícia do antigo governo. Aluísio de Andrade Moura, militar e interventor no Rio Grande do Norte em 1931, era um dos interessados na definição da política do estado.

25 - Lauro Reginaldo da Rocha - o Bangu - era professor, natural do Rio Grande do Norte. Na época da preparação da revolta de 1935, foi escolhido como elemento de ligação entre os revolucionários do Nordeste e os do Rio de Janeiro, tendo realizado várias viagens e incentivado o movimento. Após o fracasso da revolta, conseguiu escapar à repressão, tornando-se o mais importante líder do PC a permanecer em atividade. Foi eleito secretário-geral do PC em junho de 1936.

26 - A Classe Operária era o nome do tradicional jornal do PCB lançado pela primeira vez em 1° de maio de 1925. Daí em diante desapareceu e ressurgiu várias vezes.

27 - José Praxedes de Andrade, natural do Rio Grande do Norte, era membro do PC. Em 1935, juntamente. com João Lopes, foi "surpreendido" pelo início do movimento. Ver seu pequeno depoimento em Veja, 19 de dezembro de 1984. p. 45.

28 - O Governo Revolucionário Popular foi integrado pelos funcionários José Macedo (Finanças) e Lauro Cortez Lago (Interior); pelo estudante João Batista Galvão (Viação); pelo sargento Quintino Clementino de Barros (Defesa) e pelo sapateiro José Praxedes de Andrade (Abastecimento). É interessante observar que a revolta eclodiu em um sábado (23 de novembro) e terminou em uma terça-feira (26 de novembro). Por isso, e por sua feição francamente popular, ela é por vezes comparada a um "carnaval". Ver, por exemplo, o relato de Fernando de Morais em Olga, Rio de Janeiro, Alfa Omega, pp. 94-5.

29 - O manifesto mencionado é o primeiro e, único número do jornal do Governo Revolucionário Popular, intitulado A Liberdade.

30 - A revolta em Recife começou no dia 24 de novembro e, já na noite de 25 estava contida. Houve inúmeras mortes, e todos os principais líderes foram presos.

31 - O episódio da anistia concedida aos presos políticos sem processo formado, em 7 de junho de 1937, ficou conhecido como a "macedada". Isto porque a medida foi tomada por José Carlos de Macedo Soares, empossado pouco antes, a 30 de maio, no Ministério da Justiça. Macedo Soares permaneceu no cargo até as vésperas do golpe do Estado Novo, quando pede demissão.

32 - Pedro Ernesto Batista, médico que aderiu ao movimento tenentista em 1922 e à Aliança Liberal em 1929, interventor no Distrito Federal a partir de 1931, tornou-se um político popular nos anos 30. Participou da comissão organizadora do Partido Autonomista do Distrito Federal, e em abril de 1935, com o apoio da maioria da Câmara Municipal, tornou-se o primeiro prefeito eleito da cidade do Rio de Janeiro. Em decorrência de seu envolvimento com a ANL, e por suas denúncias à ameaça de uma ditadura, acabou sendo acusa¬do de participação no levante de 1935, sendo afastado da Prefeitura e preso, em abril de 1936. Julgado e condenado pelo Tribunal de Segurança Nacional, foi absolvido e solto pelo Superior Tribunal Militar já em setembro de 1937.

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Guia da Cidadania Cultural RN
Rede Estadual de Direitos Humanos Rio Grande do Norte
Redes Estaduais de Direitos Humanos
Rede Brasil de Direitos Humanos
História dos Direitos Humanos no Brasil - Projeto DHnet
Direito a Memória e a Verdade
Projeto Brasil Nunca Mais
Comitês de Educação em Direitos Humanos Estaduais
Djalma Maranhão
Othoniel Menezes Memória Histórica Potiguar
Luiz Gonzaga Cortez Memória Histórica Potiguar
Homero Costa Memória Histórica Potiguar
Brasília Carlos Memória Histórica Potiguar
Leonardo Barata Memória Histórica Potiguar
Centro de Direitos Humanos e Memória Popular CDHMP RN
Centro de Estudos Pesquisa e Ação Cultural CENARTE