Insurreição
Comunista de 1935
em
Natal e Rio Grande do Norte
Lauro Reginaldo
da Rocha - Bangu
Bangu,
Memória de um Militante
Brasília Carlos Ferreira
– Organizadora, 1992
Nosso
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de Produção
IV
– As prisões
“PRIMEIRO
DIA”
“SEGUNDO DIA”
“TERCEIRO DIA”
“QUARTO DIA”
“QUINTO DIA”
“SEXTO DIA”
“SÉTIMO DIA”
“OITAVO DIA”
“NONO DIA”
“DÉCIMO DIA”
“DÉCIMO
PRIMEIRO E DÉCIMO SEGUNDO DIAS”
“A SALA DOS DETIDOS”
“A SOLITÁRIA”
“A ILHA GRANDE”
A casa onde eu morava no morro da piedade, era
uma meia-água modesta, localizada numa
rua discreta com quintal na frente e nos fundos.
O local era de meu agrado. Sossego completo, as
crianças – três nessa época
– dispondo de espaço e de sol. Havia
uma saleta com a estante de livros, um convite
ao descanso e a meditação.
Naquele
dia passei a manhã em casa reunido e completando
a matéria para o jornal. Ao meio-dia já
estava tudo pronto. Fui chamado para o almoço,
à mesa encontrei os meninos sentados, era
um prazer ver aqueles tiquinhos de gente compenetrados,
procurando manejar os talheres como pessoas grandes.
Terminando o almoço, me despedi da mulher
e das crianças e saí rumo à
tipografia, seguindo o costumeiro trajeto.
Na
casa da rua Engenho do Mato encontrei o portão
aberto. Estranhei este detalhe porque nós
havíamos combinado que o portão
seria mantido trancado – uma chave estava
em meu poder – isto como medida de segurança,
indicando “caminho livre”, e também
para evitar que pessoas estranhas entrassem sem
avisar e ouvissem o barulho da máquina.
Pensei em não entrar, seguir em frente,
o sexto sentido me alertava contra qualquer coisa
de anormal, mas lembrei-me que este fato já
tinha ocorrido por duas vezes, e tratara-se apenas
de esquecimento. Resolvi então entrar.
Subi cautelosamente os degraus. A porta de entrada
estava encostada. Antes de bater olhei pela janela
aberta que dava para a sala de estar. Policiais
armados até os dentes estavam de tocaia,
vinham acompanhando meus passos desde o portão.
Esperavam apenas a minha entrada na sala e como
se viram descobertos, avançaram feito loucos
para a porta, de arma em punho. Num gesto instintivo
tentei a fuga. Atiraram. Mas foi no justo momento
em que eu pulava os degraus da descida, não
me acertaram, continuei correndo, ate que fiquei
encurralado, com uma cerca de arame farpado pela
frente. Não era mais possível escapar,
estava preso.
Fui
conduzido até a tipografia. Num quarto
estavam detidos Júlio, D. Alice e as crianças.
Eu fui levado para o outro quarto, puseram-me
numa cadeira, nela fui amarrado com as mãos
para trás. A polícia resolvera manter-nos
ali durante toda a tarde na esperança de
que alguém mais caísse na armadilha
– coisa que não aconteceu –
e aguardando a escuridão da noite para
conduzir-nos para a Polícia Central.
A turma
que ali estava – logo vim a saber –
era constituída justamente dos espancadores
e torturadores da seção de explosivos:
Cegadas, Pequenino, Monteiro e outros. Também
aquelas caras não podiam negar. A ferocidade
estava estampada nelas de maneira inconfundível.
Um deles, o Cegadas, sentou-se à minha
frente e iniciou uma brincadeira para ele, certamente,
muito divertida: com a mão espalmada começou
a bater em cima do meu coração.
As cuteladas obedeciam a um ritmo determinado.
No princípio não me incomodou mas
com a continuação, comecei a sentir
os seus efeitos. Os minutos foram passando, até
que as pancadas começaram a abalar todo
o meu corpo, produzindo um horrível mal-estar.
Aquilo parecia não ter fim e só
terminou quando o carrasco sentiu-se cansado.
Entendi
que aquelas pancadas “inocentes” no
órgão vital não passava de
uma preparação visando quebrar a
resistência física para os golpes
decisivos que viriam depois. Para eles era apenas
um aperitivo. À noite chegou um carro de
Polícia. Eu e o Júlio fomos colocados
nele, espremidos entre os “tiras”,
e o veículo tomou o rumo do centro da cidade.
^
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“PRIMEIRO
DIA”
Chegamos à Polícia Central. Fui
levado à uma sala onde estavam sentados,
em poltronas enfileiradas, os maiorais da polícias.
Eu estava de espírito prevenido contra
interrogatórios, sabia que eles iam começar
a qualquer momento. Fitei um ponto qualquer no
espaço, procurei nada ver nem ouvir do
que se passava naquela sala. Algumas perguntas
foram feitas. Elas, no entanto, chegavam aos meus
ouvidos sem sentido, como se não fossem
dirigidas a mim. Um indagou a origem de uma marca
que havia o meu rosto, outro perguntou onde eu
morava. Como nenhuma pergunta teve resposta, um
silêncio total começou a reinar na
sala.
Muito
tempo se passou. Todos me olhavam como se nunca
tivesse visto gente, até que um deles ordenou:
“Podem levá-lo”.
Os
mesmos que me prenderam – Cegadas, Monteiro
e Pequenino – conduziram-me através
de corredores e salas. Em certa altura, recebi
uma pancada na nuca – um murro ou um coice,
não sei bem – que me projetou de
encontro a umas cadeiras. Depois uma porta se
abriu e fui empurrado para uma espécie
de corredor quadrado, com piso de ladrilho. Em
cada parede desse quadrado havia uma porta, sendo
que uma delas dava para uma privada e as outras
para salas.
“-
Vá tirando a roupa!” – ordenou
um dos tiras.
Comecei a me despir, enquanto eles tiravam o paletó
e arregaçavam as mangas. Fiquei só
de cuecas.
“- Tire tudo!” – rosou o mesmo
sujeito.
Fiquei completamente nú.
Eu não tinha ilusões, sabia que
estava diante de uma situação decisiva,
de vida ou morte. Sabia que o medo e o desespero
seriam a minha ruína. Concentrei, pois,
todos os meus esforços para manter a calma
e não me apavorar.
Fui
obedecendo às ordens sem inúteis
relutâncias. Fui encostado a um canto de
parede. Surgiu uma corda, amarraram meus pulsos,
um braço foi esticado para um lado e amarrado
na maçaneta de uma das portas e o outro
braço atado a outra maçaneta da
porta do banheiro. A seguir, os pés também
foram amarrados. Fiquei completamente imobilizado,
de braços abertos como um crucificado.
Abriram
uma caixa de espetos de bambu, lisos, achatados,
pontiagudos. Outros apetrechos: um alicate, um
sarrafo curto para servir de macete, garrafas
com líquidos, uma bacia. Um dos policiais
aproximou-se e bradou: “Como é, seu
f. da p., vai dar o serviço ou não
vai?” ele verificou que eu não estava
com nenhum desejo de dar serviço pois continuei
calado.
Começou
então a operação. Segurou
firme um dedo de minha mão, colocou um
espeto de bambu debaixo da unha e começou
a bater com sarrafo, com quem crava um prego.
Contraí todos os músculos, cerrei
os dentes. O espeto penetrou nas carnes, ultrapassou
toda a unha. É impossível descrever
aquela dor, tive que sufocar um urro na garganta,
o primeiro impulso foi gritar, berrar mas contive-me.
Depois passaram aos outros dedos. Um a um os espetos
iam sendo cravados, as unhas iam ficando levantadas
e roxas, o sangue gotejando sobre o ladrilho.
Enquanto
eu me mantinha em silêncio, os monstros
cantavam. E acompanhavam o seu nefando trabalho
ao ritmo de um estribilho que servia na época
de propaganda pelo rádio dos cigarros Adelfi,
como se aquilo ao passasse, para eles de um divertimento.
E, na sua gíria, os espetos passaram a
ter o nome dos cigarros. Havia uma ligação
entre a propaganda dos cigarro Adelfi e o “trabalho”
dos carrascos. As carteiras desse cigarro traziam
vales que davam direito a prêmios aos fumantes
e os torturadores eram também premiados
pelos seus chefes, sempre que conseguiam arrancar
alguma confissão de suas vítimas.
Uma idéia digna de seus autores.
Todos
os dedos da mão esquerda estavam cravejados
com os espetos, passaram para a mão direita.
O martírio não parecia ter fim.
O serviço era feito porém, com calma
os espetos iam ficando enterrados, não
havia pressa em retirá-los, eles davam
a impressão de que as unhas cresceram de
repente e viraram garras.
Eu
contava os dedos espetados e os que faltavam espetar,
calculava o tempo em que eu tinha de me manter
com os músculos e os nervos tensos e fazendo
aquele esforço tremendo para não
gritar. Quando os dez dedos das mãos ficaram
todos enfeitados, respirei fundo e julguei ter
vencido aquele primeiro “round”. Mas
enganei-me porque o primeiro “round”
não terminara. Com surpresa vi que eles
se abaixava e começavam a meter os espetos
nas unhas dos pés.
As
torturas prosseguiram pela noite a dentro, o sadismo
tomando as formas mais variadas: “mordidas”
de alicate na barriga, torceduras dos testículos,
queimaduras com ponta de charuto.
Finalmente,
exaustos e suados, os algozes suspenderam as operações.
Com o alicate arrancaram, uma a uma, as farpas
das mãos e dos pés. Puseram numa
bacia um líquido que disseram ser água
vegeto-mineral, e mergulharam meus dedos nessa
água, à guisa de assepsia. A seguir,
fui levado para uma sala ao lado, a alguns passos
apenas do local das torturas.
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“SEGUNDO
DIA”
Na
sala onde me colocaram puseram um investigador
para me vigiar. Esse vigia sentado à minha
frente, tinha ordens para me manter de pé
num canto de parede, de maneira nenhuma devia
deixar que eu sentasse, dormisse ou cochilasse.
No
início o sentinela não teve dificuldade
em cumprir sua missão. Dormir eu não
podia, mesmo que quisesse. Logo após a
minha retirada do “quadrado”, trouxeram
para lá outras pessoas. Do canto onde eu
estava ouvi vozes assustadas de homem e de mulher,
choro de criança, as mesmas ordens de “tira
a roupa” e, a seguir, gritos pavorosos martelaram
os meus ouvidos.
A porta
que dava para o “quadrado” estava
aberta e eu a dois passos dela. Os gritos e os
soluços eram tão perto que me abalavam
os nervos, podia ouvir perfeitamente as batidas
do sarrafo nos espetos de bambu, era como se estes
estivesse penetrando em minha própria carne.
As gargalhadas dos tiras, os deboches e os palavrões
vinham de roldão com o gemido das vítimas
e me invadiram os sentidos, sem que eu pudesse
fugir daquele inferno, eu tinha que suportá-lo,
até quando, não sabia. Perdi a noção
do tempo, todas as janelas estavam fechadas, as
luzes acesas, não podia distinguir a noite
do dia. Distinguimos o dia da noite pela visão:
luz e sombra. Agora outros sentidos entraram em
função para a divisão do
tempo. As horas de silêncio correspondem
ao dia. E quando as carnes começaram a
ser dilaceradas no “quadrado”, quando
os gritos, os ais e as gargalhadas enchem o espaço,
é porque a noite chegou.
Mas,
o suplício não sofre intermitência.
Durante a noite ele é violento, brutal,
arrasador. De dia o sofrimento é lento,
morre-se aos poucos pela fome, pela sede. Morre-se
devagarinho, de pé, as carnes se consumindo,
o corpo diminuindo e afinando até ficar
um esqueleto, a pele colada aos ossos.
De
vez em quando me vem um pensamento que procuro
afastar: a mulher e os filhos. Não sei
o que está havendo com eles mas não
posso pensar neles, sei que qualquer sentimentalismo
é perigoso, o melhor é mudar as
idéias para outra coisa, fazer de conta
que eles não existem, muito embora isto
muito me custou.
Os
dedos estão dormentes, não há
dor localizada em nenhum ponto, porque é
o corpo todo que me dói. Aperto os dedos
e das unhas sai um sangue preto, pisado com mau
cheiro.
Não
sentia fome ainda mas a sede ia aumentando cada
vez mais, percebi que ela ia se tornar uma obsessão,
no meu maior tormento. Procuro também afastar
do pensamento a palavra água, mas é
impossível. No mictório ao lado,
deixaram a descarga automática funcionando,
o barulho da água chega aos meus ouvidos
como o som de uma cascata, sem parar.
Começo
a sentir as pernas bambas. Mas sou forçado
a continuar de pé, sob a ameaça
de uma correia larga que o investigador empunha,
à minha frente.
O tempo
foi se escoando até que a noite chegou,
pois alí estava a turma de espancadores
para confirmá-la. Fui novamente levado
ao “quadrado”. Agora, os apetrechos
são outros: uma enorme palmatória,
maços de jornais, indicando que novas formas
de torturas iam ser postas em prática.
Fui
amarrado de forma a deixar as mãos livres
para receber pancadas de palmatória. Esta
passou a funcionar pelo braço dos espancadores,
o revezamento era feito quando um se sentia cansado.
As mãos ficaram inchadas, redondas. Depois
passaram a bater nas nádegas, até
deixar em carne viva. Por último, fui amarrado
numa cadeira, esta foi deitada ao solo, deixando-me
com os pés para cima. Reiniciaram as palmadas,
agora na sola dos pés.
Nessa
noite estava presente um rapazinho ainda moço,
de uns 18 anos presumíveis, que estava
treinando para espancador. Quando iniciaram a
pancadaria, esse rapaz ficou de tal forma excitado
que dava gargalhadas feito louco, fingia soltar
foguetes, imitava o seu chiado e estampidos, pulava,
subia nas portas feito macaco, saltava lá
de cima ao solo, tornava a subir, tornava a pular,
dava gritos histéricos, num espetáculo
inédito, coisa nunca vista nem imaginável.
A pancadaria
continuava, minhas carnes começavam a rachar,
e o desgraçado do tarado a gritar e a pular
como um possesso. A seguir fui amarrado em forma
de crucificado, trouxeram os jornais, acenderam
tochas e começaram a me chamuscar como
que pela um porco. O cheiro de carne chamuscada
e de cabelos queimados encheu o “quadrado”.
Acenderam fogueiras aos meus pés, o calor
tremendo e a fumaça me asfixiavam, a sede
aumentou, a garganta ressecou. Os carrascos iam
alternadamente lá fora, para respirar.
Eu não podia sair dali. Estava sendo assado
vivo.
E
o miserável histérico a pular e
gritar delirantemente.
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“TERCEIRO
DIA”
Comecei a sentir uma dor de cabeça esquisita,
insuportável. Era um peso bem na nuca que
aumentava gradativamente, como se qualquer coisa
estivesse comprimindo e esmagando o meu cérebro.
Pensei em traumatismo e na possibilidade de vir
a perder o uso da razão. E fiquei desejando
que a loucura viesse, na ilusão de que
ela me tornaria insensível às dores
e ao sofrimento.
Mas
o meu raciocínio continuava a funcionar,
ora atabalhoadamente, ora com perfeita lucidez,
o corpo resistindo de tal forma as torturas, que
me surpreendia. Nunca imaginara que o meu físico
raquítico pudesse suportar tanta pancada,
sem comer, sem beber e sem dormir. Quantas vezes
desejei perder os sentidos, um desmaio qualquer
que me aliviasse por alguns momentos. Mas, nada
de vertigem. Até a velha bronquite que
outrora tantas noites de sono me roubara, desapareceu.
A fome
começou a me atormentar. O estômago
passou a latejar, comecei a sentir umas batidas
enjoadas e persistentes nesse órgão,
como se para ele tivessem se transferido as batidas
do coração. Já devia estar
chegando a noite, quando me trouxeram um prato
de comida. Era farofa com carne seca. Antes de
começar a comer, pedi água. Disseram-me:
“Coma. Depois vem água”. Fiquei
desconfiado daquele depois. A sede era maior do
que a fome, eu sabia que não ia poder engolir
aquela farofa sem água, com a boa ressecada,
sem saliva.
Tentei
comer. Ao por na boca a primeira colherada, compreendi
que me haviam armado uma cilada: a comida era
puro sal, tentavam aumentar minha sede ao máximo,
ao desespero. Botei fora a comida que estava na
boca e afastei de mim o prato. Os investigadores
trocaram entre si olhares irônicos, como
se quisessem dizer: “Que pena! Não
caiu”. Eles não compreenderam porém
uma coisa. Se em vez de farofa fosse água
com sal, talvez eu tivesse bebido, tal era a sede
que me atormentava.
Mais
tarde fui levado ao “quadrado”. Amarrado,
com os braços em cruz, aguardei os acontecimentos.
Vi,
no chão, a caixa com os espetos de bambu,
o sarrafo, o alicate, a bacia e as garrafas, o
material para o suplício das unhas. Como
eu já havia passado por aquela espécie
de tortura, julguei que aqueles apetrechos não
estavam a mim destinados. Entretanto, a sala de
torturas é uma caixa de surpresas, nunca
se pode prever o que vai acontecer. Logo pude
constatar o meu engano, os “adelfis”
estavam ali à minha espera.
O rito
infernal ia se repetir, preparei-me para enfrentá-lo.
Começaram a cravar os espetos sob as unhas,
reabrindo as feridas, fazendo espirrar sangue
e pus. Em vez de contrair os músculos,
relaxei-os por completo e gritei com toda a força
que me restava. E verifiquei que esta era uma
forma melhor de suportar o martírio.
Quando
os espetos foram cravados em todos os dedos das
mãos, começaram a praticar uma nova
variação de tormento. Com alicate
retorciam os espetos nas feridas, de modo a que
a parte mais larga das farpas ficassem para cima.
As unhas ficaram, assim, suspensas ao máximo,
restando presas apenas os dois cantos laterais.
Depois as farpas foram retiradas dos dedos das
mão e novamente cravadas nos dedos dos
pés, repetindo o que haviam feito no primeiro
dia. Com a inovação do retorcimento
do bambu.
Novas
fogueiras de jornais foram acesas – parecia
que o desejo dos monstros era me assar em fogo
brando – o calor aumentava a sede, aquela
sede que se tornara idéia fixa.
Depois
passaram a puxar o órgão sexual
com o alicate e a torcer os testículos.
Essa forma de tortura ocasionava dores horríveis.
Os órgãos estavam inflamados, eu
temia pelas conseqüências. Lembrei-me
do que aconteceu com o companheiro Ceará
– uma das vítimas desses brutais
espancamentos – que ficou urinando por um
buraco, em conseqüência e pancadas
nos órgãos genitais.
O
curioso é que os carrascos deixaram de
fazer perguntas, certamente por julgá-las
inúteis, diante do meu silencio, pois todas
as que fizeram ficaram sem respostas.
^
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“QUARTO
DIA”
Os novos métodos de tortura que a polícia
estava pondo em prática eram considerados
por ela própria como científicos.
Os algozes recebiam ordens para evitar lesões
físicas ou aleijões que pudessem,
mais tarde, “dar na vista” e produzir
provas “visuais” irretorquíveis
nas vítimas. Só que esses métodos
freqüentemente falharam. E quando um ficava
louco, quanto outro punha termo à vida
ou quando um terceiro – num gesto instintivo
– tentava a fuga ou resistia à prisão
era alvejado impiedosamente pelas costas, a “ciência”
dos métodos tornava-se uma irrisão.
E tais “falhas” eram consideradas
apenas como acidentes lamentáveis mas,
sem importância.
Dentro
dessa orientação “científica”,
havia um médico acompanhando os trabalhos,
com a missão de avaliar a nossa resistência
física ou fazer soerguer as forças
a um corpo que baqueasse. O médico que
nos assistia – o doutor Mariozinho –
era um sujeito pequenino, franzino. Ele veio me
examinar. Olhou-me pegou no meu pulso, auscultou.
E concluiu que meu estado físico era excelente,
que eu era uma resistência fora do comum.
Esse
elogio, noutra oportunidade, muito me teria desvanecido.
Mas naquela ocasião, ele queria dizer que
eu estava em condições de suportar
as torturas e que estas podiam continuar sem perigo.
Eu
sempre tive um grande respeito a admiração
aos médicos, sempre achei nobre o honroso
e seu mister de salvar vidas e diminuir os sofrimentos
da humanidade. Mas ali estava um empenhado justamente
ao contrário, em prolongar os padecimento
de seus clientes. E essa era mais uma estranha
revelação da “caixa de surpresas”
da Polícia fascista do “Estado Novo”.
Enquanto
o clínico me examinava, o meu raciocínio
divagava. Esse médico consegue entrar com
facilidade em nosso organismo, vai ao coração,
aos pulmões, pode vasculhar tudo por dentro.
Mas há um ponto onde ele não conseguirá
penetrar: no nosso pensamento. Isto porque, se
ele conseguisse adivinhar o que estou pensando
a seu respeito, na certa eu levaria agora mesmo,
mais um bofetão ou um pontapé.
O doutor
foi embora mais sua visita agravou o meu estado
de nervos. As esperanças de que as torturas
pudessem ter um fim próximo se desvaneceram.
Agora eu já sabia que as torturas iam continuar
por muitos dias, pois o médico não
acabara de concluir que o meu estado físico
era excelente?
Tive
a impressão de que o peso na nuca aumentara
vários quilos, a cabeça parecia
estourar.
A descarga
do mictório continuou a funcionar ininterruptamente,
o ruído da cascata enchia os meus ouvidos.
A fome ia diminuindo – ela só me
atormentou até o terceiro dia – enquanto
que a sede ia aumentando. Tinha vontade de gritar
água! água! mas me contive. Eu não
devia dar demonstração de fraqueza
e de desespero. Continuei de pé no canto
da parede, oscilando, me firmando ora num pé,
ora noutro, eu tinha que jogar o peso do corpo
numa perna enquanto a outra descansava. Procurei
me distrair espremendo as unhas, dedo por dedo,
fazendo sair um pus fedorento, que estava sempre
se renovando.
Senti
um estremecimento quando ouvi os primeiros passos
no “quadrado”. Era a turma de espancadores
que chegava com as novas vítimas. A sinfonia
dantesca enche o ar. É uma repetição
dos mesmos palavrões, gargalhadas e gemidos.
A mistura
das gargalhadas com os gemidos me causa uma estranha
sensação, a inconseqüência
dos sons me desconserta. Naquelas circunstâncias,
a manifestação simultânea
dos dois sentimentos diametralmente opostos –
a dor e o prazer – era mais uma revelação
da “caixa de surpresas”, eu jamais
vira ou imaginara coisa igual.
Depois
que cessaram aqueles gritos, chegou a minha vez.
Naquela noite, com o diagnostico do médico
declarando que eu ainda estava em bom estado físico,
os tarados caíram sobre mim com verdadeira
volúpia. Um torcia um braço, outro
torcia um dedo, outro apertava a garganta, pareciam
urubus na carniça. Quando eu arquejava
e as pernas cambaleavam, eles suspendiam as operações.
Depois que eu reanimava, eles recomeçavam,
procurando sempre os pontos mais sensíveis,
as articulações, os órgãos
genitais, os pulmões e o coração.
A
imaginação criadora dos verdugos
é fértil. Eles estão sempre
a descobrir pontos vulneráveis no organismo
e a cada descoberta exultam como se tivessem descoberto
um tesouro. Isto aconteceu quando eles descobriram
um calo, muito sensível, no meu pé.
Com um cabo de vassoura passaram o resto da noite
a bater sobre o calo. É impossível
descrever o que senti. Dessas pancadas originou-se
um tumor entre os dedos, o pé inchou, ficou
redondo como uma bola.
^
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“QUINTO
DIA”
Pelos meus cálculos os torturadores chegaram
mais cedo. A simples presença dos monstros
nos causa um inexprimível estado de apreensão
de desassossego. Ficamos na expectativa de que
um golpe traiçoeiro nos seja desferido
a qualquer momento e nos sentimos completamente
indefesos.
Monteiro
aproximou-se e repetiu a pergunta que me fizeram
desde o primeiro dia: “Onde é que
você mora?”Permaneci calado.
O Pequenino,
rindo, largou esta bomba: “Não é
preciso dizer. Já estivemos lá,
na sua casa, na rua tal. Sua mulher está
perto de ter criança. Quando ela nos viu
entrar na sua casa, com as metralhadoras nas mãos,
teve um ataque de nervos, quase que aborta, tivemos
que chamar o médico às pressas”
E continuou a dar detalhes sobre a casa para demonstrar
que não estava mentindo.
Senti
uma coisa esquisita pelo corpo, como se o sangue
tivesse parado nas veias. Há pouco eu me
indagava que espécie de golpe eu ia receber
e este acabava de ser desfechado, fria e bruscamente,
naquela notícia acachapante. O coração
passou a bater desordenadamente, o torniquete
que me comprimia o cérebro parecia ter
dado várias voltas. Tive vontade de dizer:
Miseráveis! Torturem-me! Cortem-me em pedaços!
Mas, não mexam na minha família.
A custo me contive, eu não podia perder
a calma nem topar “provocações”
tinha que aparentar indiferença. E continuei
imóvel mudo.
Agora
eles podiam a qualquer momento, trazer a minha
mulher e os filhos para a sala das torturas, como
já fizeram com outros. Com o estado adiantado
de gestação e os nervos abalados
em que se encontrava, a mulher não resistiria
a uma tal prova. Restava a esperança de
que a polícia, com seus métodos
científicos, não quisesse correr
os riscos e as responsabilidades da morte de uma
parturiente em tais circunstâncias, com
a conseqüente repercussão que poderia
ter na opinião pública. Essa esperança
todavia me parecia frágil e eu me sentia
agora num estado da maior aflição.
Aos
meus ouvidos chegava o som de uma cachoeira. Donde
vinha esse barulho? E eu me lembrava: é
a descarga do banheiro, ao lado. Eu sentia que
ia acabar enlouquecendo. A boca estava ressecada,
a garganta me ardia. Passei a estudar um meio
de por fim a tudo isso. Sabia que estava um segundo
ou terceiro andar. Mas, as portas e janelas estavam
fechadas. O “tira” continuava sentado
à minha frente, não arredava o pé.
Procuro
afastar do pensamento a idéia do suicídio.
Espremo os dedos, o pus fedorento nunca para de
sair das feridas. É isto o que faço
sempre que procuro afastar um mau pensamento,
aperto e solto rápido as pontas dos dedos,
o líquido purulento dá uns estalinhos
esquisitos sob as unhas.
Do
“quadrado” chegam os primeiros sinais
de atividade. Preparo o espírito para enfrentar
mais uma noite de terror.
Quando
se aproxima a hora das torturas todos os nosso
sentidos se aguçam, o instinto nos coloca
na situação de um animal acuado,
fisicamente sem nenhuma chance de defesa. Moralmente,
porém, há um escudo com o qual nos
protejamos: e a convicção de que
nos batemos por um ideal justo e humano, a certeza
de que o nosso sacrifício não será
em vão e que o regime de iniqüidades
em que vivemos terá fatalmente que ruir,
mais cedo ou mais tarde, diante da avalanche dos
que têm fome de pão e sede de justiça.
Esta convicção, em nenhum momento,
me abandonou.
Quando
os gritos cessaram, chegou a minha vez, fui levado
ao “quadrado”. Os meus pés
deslizam sobre uma massa pastosa. É o sangue
ainda quente dos companheiros que me antecederam.
Mais
uma vez fui amarrado às maçanetas
das portas. Os carrascos reiniciam as torturas
vasculhando as feridas das unhas. As farpas de
bambu são espetadas e reviradas, as gotas
de sangue e pus das mãos e dos pés
vão se juntar às poças já
existentes no ladrilho. O ar está impregnado
de um cheiro sufocante de coisa podre, suor e
fumo. Quase não posso respirar.
De
vez em quando sinto uma picada nas pernas ou nos
braços, o corpo estremece: são as
pontas de cigarro ou de charuto acesas que são
encostadas à minha pele. Essas queimaduras
deixam marcas passageiras mas feitas de surpresa,
abalam ainda mais os nervos já em frangalhos.
As
bolhas e pequenas chagas vão se multiplicando
pelo corpo, como se tivéssemos sido atacados
de varíola. Cada hora, cada minuto que
passa, sentimos que um pouco de nossa vida se
consome e se esvai.
^
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“SEXTO
DIA”
Depois que saí do “quadrado”
fui acometido de um acesso de sono. De pé
no canto da parede desandei a cochilar, a cabeça
pendia irresistivelmente para frente, como se
eu perdesse de repente os sentidos. Um estalo
forte como um tiro me despertou bruscamente. Esse
estampido era produzido por uma larga correia
que o investigador sentado à minha frente,
vibrava sobre a mesa. A primeira pancada me produziu
um susto tal que o corpo todo estremeceu. O “tira”
achou graça.
A dor
de cabeça atingiu o máximo. O peso
na nuca tornou-se uma coisa louca, insuportável.
A vigília forçada de vários
dias, as torturas, a fome, a sede, os sobressaltos,
o cansaço, tudo isto acumulado, chegou
a um ponto que as últimas reservas de resistência
física iam se esgotando. A cabeça
novamente pendeu para frente, para a semi-inconsciência.
Nova pancada, novo sobressalto.
Faço
um esforço sobre humano para não
cochilar, pois as pancadas na mesa funcionam como
se fora na minha cabeça. Mas não
tenho forças para impedir os cochilos.
Então a cena se repete, numa seqüência
interminável de cochilos, pancadas e despertar
assustado, cochilos, pancadas, cochilos, pancadas...
As
pernas tremem, cambaleio, mas consigo a custo
me manter em pé. Não consigo porém
manter a cabeça firme. E o tormento continua.
A pancada e o susto que abala todo o meu corpo
só poderiam ser evitados se fosse possível
impedir o sono.
A cabeça
pende mais uma vez. Num segundo sonho com um estimulante,
um remédio fantástico que me mantém
acordado e me salva da tortura. Nova pancada me
faz estremecer e me traz à realidade da
vida ou melhor, à realidade da morte. Sinto
a cabeça como se ela não fizesse
mais parte do meu corpo, como se fosse uma coisa
à parte, nela se concentrando todas as
dores, todas as reações e as últimas
pulsações.
Escutei
os “tiras” dizerem que estávamos
na semana santa, revivia-se o martírio
de Cristo. Então eu pensei: Talvez tudo
isto esteja acontecendo em nome dos ideais cristãos.
Eles vivem falando em “ideais cristãos”,
será que eles interpretam e aplicam os
ideais cristãos desta maneira, arrancando
unhas, matando lenta e cruelmente as pessoas?
E a frase ideais cristãos ficou no meu
juízo, girando sem querer sair.
Naqueles
momentos a sonolência sobrepujou a todas
as demais sensações – a sede,
as pontadas no estômago, as dores nas pernas,
as queimaduras. Cada vez que a cabeça pendia
para a frente era como se eu caísse num
vácuo. A queda não era o pior, mas
o medo da pancada fazia com que eu a temesse e
fizesse todo esforço para evitá-la.
O “tira”
estava atento, aguardava apenas o momento em que
minha cabeça descambasse para desfechar
o golpe fatídico. Eu não tinha forças
para me conter, as pancadas e as quedas no abismo
vão se amiudando, o meu cérebro
não agüentava mais, parecia que ia
estourar.
Procurei
decifrar o semblante do “vigia”, o
riso de gozo e de ironia estava sempre presente
no seu rosto, não consigo distinguir nenhum
vestígio ou traço de humanidade.
Terá ele família, filhos?
As
pancadas tornaram-se mais freqüentes, há
um ferreiro batendo o malho numa bigorna, a bigorna
é meu cérebro. Cheguei a um ponto
em que não conseguia mais coordenar nenhum
pensamento. Em certos momentos não sabia
onde eu estava nem o que estava acontecendo.
Alguém
veio tirar-me daquela aflição. Seguro
por um braço fui levado, como um sonâmbulo,
para a sala de torturar. Lá estava o trio
sinistro à minha espera, com todos os apetrechos
para a outra forma de suplício. Todos os
meus sentidos passaram a “estado de alerta”,
milagrosamente despertos da letargia que há
pouco me prostrava.
Os
inquisidores recomeçaram a manipular num
corpo que é quase um esqueleto, onde a
dor está generalizada, mas onde eles descobrem
sempre pontos nevrálgicos. Remexem mais
uma vez, as feridas. Chafurdam-se no pus com volúpia.
E, ao som das gargalhadas e do deboche, conseguem
dar continuidade ao seu trabalho nefando, em mais
uma noite de terror.
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“SÉTIMO
DIA”
Nos momentos de crise eu achava que tudo ia acabar.
Caía no desânimo e chegava a desejar
que a morte viesse o quanto antes para por termo
ao martírio. Depois vinha a reação.
Pensava nas coisas bela da vida, no lar, nos filhos,
no despontar de um dia radiante, o sol iluminando
campos verdejantes, imaginava multidões
desfilando, felizes, na grande festa da vitória.
E voltava aquela esperança de que eu tornaria
ao mundo dos vivos. E o organismo reagia, parecia
readquirir as forças perdidas, eu lutava
para viver.
A descarga
do mictório mais uma vez rouba-me o devaneio.
A sede faz-me delirar. Imaginei todos os meios
de fazer chegar aos lábios ao menos umas
gotas d’água. No banheiro não
há pias nem torneiras. A descarga do mictório
espalha a água no azulejo, não há
meio de apará-la com as mãos. Além
do mais, quando vou á privada, um “tira”
me acompanha a dois palmos de distância.
Morrer
de sede vendo a água se derramar aos meus
pés tem qualquer coisa de diabólico.
Sou acometido de súbitos e estranhos desejos
como o de rolar pelo chão, rir, gargalhar,
mas ainda tenho forças para reprimir os
desvairados impulsos. E começava a pensar,
com essa capacidade de auto-domínio, se
eu vier a ficar louco, certamente serei do tipo
calmo, silencioso. Terá isso algum sentido,
alguma lógica?
Tive
de repente uma idéia. Eu poderia aproveitar
minha própria urina para matar a sede.
Eu estranhava o fato de ainda ser possível
urinar não sabia donde vinha aquele líquido
avermelhado, se eu há sete dias não
bebia nem comia. Era o processo de desidratação,
concluí depois.
A urina
era pouca e eu passe a retê-la, por economia,
aguardando um momento de descuido do “vigia”
para apará-la com a mão e beber.
Esse momento chegou, afinal. O investigador afastou-se
por um minuto, eu enchi a mão e bebi em
rápidos goles. O líquido quente
e salobro deixou um gosto esquisito na boca.
Por
alguns instantes aquele latejar insuportável
no estômago diminuiu. A sede porém
não passou. Ao contrário exacerbou-se.
A obsessão pela água continuou a
me atazanar o juízo.
O efeito
calmante da urina quente no estômago foi
passando, as batidas enjoadas voltaram. Agora
eu tinha que esperar o líquido juntar na
bexiga e o investigador se descuidar. Esse descuido
era hipotético. Eu fazia um esforço
para definir meus atos, queria saber se estava
agindo como uma pessoa sã ou se já
estava fora do meu juízo. E chegava à
conclusão de que minhas reações
eram normais, eu não podia agir de outra
maneira.
Era
impossível continuar com aquela sede, eu
tinha que beber água de qualquer maneira.
Do mictório era impossível. Restava
o vaso da privada. Sim no vaso da privada estava
a solução. Eu tinha noção
exata dos riscos que ia correr. Certamente não
ia escapar de uma infecção. Isto
demonstra que meu raciocínio ainda regula,
pensava eu. Mas, não importa o que virá
depois. Qualquer morte é preferível
à morrer de sede. Resta agora aguardar
uma oportunidade, esperar um descuido do investigador.
Direi
ao “tira” que preciso ir à
privada, ele me acompanhará e se colocará
a dois passos de distância, mas haverá
um momento em que ele dera as costas e eu aproveitar
esse momento. Não sei porque não
tive essa idéia antes. Nojo? Nessas alturas,
quem sou eu prá ter nojo, se estou a um
passo da cova, onde serei devorado pelos vermes?
Foi assim que aquela idéia repugnante nasceu
e se robusteceu na minha cachola. Só restava
o momento de pô-la em prática.
O investigador
que veio render ao que estava de vigia, fez esta
revelação surpreendente: “Hoje
não vai ter sessão de esculacho,
é Sexta-Feira da Paixão”.
Trocando
em miúdos, isto queria dizer que a sala
de torturas não ia funcionar nesse dia,
em sinal de respeito a crucificação
de Jesus Cristo. O cúmulo da hipocrisia!
Imaginei
o Cegadas ajoelhado aos pés de um padre
confessando os seus pecados, dizendo que torturou
crianças, que colocou uma dessas crianças
de 4 anos de idade, junto com o pai e a mãe
– todos completamente nus – num corredor
quadrado, arrancando-lhe as unhas e praticando
as mais torpes sevicias. E o padre, naturalmente
surpreendido e horrorizado com a revelação,
ficaria hesitante por não dispor de meios
nem de autoridade para punir tão nefando
crime. E acabaria dando alguns conselhos ao monstro
recomendando-lhe, como penitência, rezar
alguns padre-nossos e ave-Marias...
Que
me perdoem os católicos. Não quero
ser irreverente. Quero apenas ser fiel ao meu
relato e dizer como funcionava o meu raciocínio,
naquelas circunstâncias.
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“OITAVO
DIA”
Na noite anterior – Sexta-feira da paixão
– graça aos ideais cristãos
da polícia fascista, não fui levado
à sala das torturas. Não fiquei
sabendo se lucrei ou se perdi com a benevolência
religiosa dos tiranos, pois o meu desejo era que
terminasse logo o suplício, qualquer que
fosse o fim a mim destinado: viver ou morrer.
O “quadrado”
deixou de emitir os seus gritos e gemidos infernais,
o silêncio emendou com o da noite, até
o dia seguinte. Agora só ouço a
voz que vem de dentro de mim com uma força
irresistível: ÁGUA! Tenho que beber
água de qualquer maneira! A sede está
me deixando louco.
Torno
a pensar no vaso da privada. Já fui algumas
vezes até lá, com o propósito
de beber água, mas o investigador que me
acompanha não dá oportunidade, fica
grudado como um carrapato. Tenho que ter cuidado
para não despertar suspeitas, o melhor
é esperar a mudança da guarda.
Os
acessos de sono são, agora, intermitentes.
Nos intervalos surgiu um novo fenômeno até
então desconhecido: a cabeça tomba
repentinamente para a frente, mas de maneira rápida,
numa sacudidela incontrolável. Creio que
é uma conseqüência dos cochilos
e dos sustos produzidos pelas pancadas da correia
de couro sobre a mesa. As sacudidelas transformaram-se
num cacoete insistente e penoso. Mas, tiraram
ao vigia a oportunidade e o prazer de estalar
a sua correia, pelo menos até que outro
acesso de sono volte a me atacar. Só o
aperto na nuca não me larga e continua
a progredir. As dolorosas pulsações
e a peso na nuca são duas coisas difíceis
de descrever, eu nunca havia sentido nada na vida
que se assemelhasse àquilo.
O doutor
Mariosinho é um médico atento ao
“seu serviço”, tem vindo diariamente
me examinar e suas conclusões são
sempre as de que eu ainda possuo reservas suficientes
para continuar a suportar os suplícios.
E repete os elogios às minhas qualidades
de nordestino resistente, acostumado a agüentar
as durezas da vida. Talvez ele pense que o nosso
corpo esteja revestido de uma couraça protetora
toda especial, que nos torna invulneráveis
e insensíveis. O médico policial
é uma espécie de batedor da “turma
do esculacho”: vem sempre na frente. Depois
do seu “diagnóstico”, fui levado
ao “quadrado”.
Os
espancadores reiniciaram o seu trabalho com certa
apatia, como se realizassem uma tarefa demasiadamente
corriqueira. Depois foram se reanimando, como
que estimulados por um estranho e cruel sentimento
que aos poucos desperta e se agita em seu íntimo.
Dentro em pouco são acometidos de verdadeira
exaltação.
Os
carrascos dão vazão ao seu sadismo,
vão se revesando na pancadaria. Com a desidratação
do organismo, o meu hálito se tornara insuportável.
Parecia que estava poder por dentro. Percebi que
o meu cheiro incomodava até mesmo os espancadores
– eles que estavam habituados a lidar com
a podridão e que pareciam sentir-se bem
em revolvê-la. Passei a usar o meu mau hálito
como auto-defesa, à moda maritacaca: disfarçadamente
jogava o bafo na cara do algoz mais próximo.
Ele recuava tonto. É tudo que posso fazer
com vocês no momento, dizia comigo mesmo.
Em
algumas ocasiões os “tiras”
davam mostras de cansaço, faziam uma pausa,
e o silêncio reinava por alguns minutos.
Surgia, então, da sala vizinha –
de onde comandava as operações –
o detetive Veras e vinha incentivar seu sequazes:
“Baixa o pau nesse f.d.p.! Ele está
bancando o “queixo duro”, mas aqui
não tem disso não. Ou ele fala ou
vai ficar mudo pra sempre”.
A voz
de comando era obedecida incontinenti, os monstros
caiam sobre mim feito um furacão; socos,
pontapés nas canelas, membros retorcidos,
o mundo girava, o terreno fugia sob meus pés.
O meu corpo transformara-se numa carcaça;
mas o massacre prosseguia.
O que
mais me revoltava eram os apelos à deleção:
“Fala Bangu! Fala e te daremos água,
cessaremos as torturas! “Eu pensava, Ah!
Se eu ao menos pudesse dizer alguns palavrões!
Nem isso eu podia dizer, para desabafar. Eu tinha
que “engolir” os insultos calado,
minha única resposta era o silêncio.
Apenas o silêncio.
Na
oitava noite de torturas. Paguei o dobro pelo
“descanso da Sexta-Feira da Paixão.
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“NONO
DIA”
Naqueles
dias amargos, quando as forças pareciam
querer me abandonar, eu procurava coordenar minhas
idéias e pensava nos milhões de
injustiçados que há por esse mundo
afora. E no meio dessa multidão imensa
eu distinguia caras bem conhecidas, gente do meu
sangue, e sentia que não estava me sacrificando
por uma causa estranha, ela me pertencia de corpo
e alma. E nessas ocasiões eu me sentia
desejo de viver para lutar por essa causa e para
ver a sua vitória. Era isso o que me dava
ânimo para resistir e viver.
A luta
entre a vida e a morte estava travada, era difícil
prever qual seria a vitoriosa. Sempre que eu fazia
um esforço para raciocinar, a dor de cabeça
aumentava, eu sentia uma sensação
esquisita, parecia que qualquer coisa se rompia
no meu cérebro, algo como um véu
e envolvia, amortecendo-o, paralisando-o. Impossível
era saber quanto tempo durava esse estado de letargia.
Quando,
afinal, as idéias iam voltando e se aclarando,
era como se eu tivesse saído de um pesadelo.
Dirigi-me
ao reservado, acompanhado pelo investigador. Sentei-me
no vaso da privada e aguardei o momento. Mas o
vigia não se afastava da porta, a um passo
de distância. Em dado momento ele virou
as costas, fazendo menção de se
retirar. Aproveitei o ensejo, levantei-me rápido
e, com as duas mãos em concha, apanhei
um punhado d’água do vaso. No momento
em que levava a boca, recebi um bofetão,
por trás. Era o investigador quer voltava
no justo momento. A água se espalhou pelo
meu rosto, frustrando o meu intento.
Voltei
para o canto da sala, para o meu lento suplício.
Foram-se as minhas esperanças de chegar
aos lábios gotas d’água mesmo
poluída. Continuei de pé, não
sei, não compreendo como as pernas conseguem
sustentar o corpo, e aguardo a hora de ser levado
mais uma vez ao “quadrado”. A hora
chega, a cena se repete.
O meu
físico tornou-se um esqueleto insignificante,
os “tiras” se aproveitam disto para
me apelidarem de “Pequenino”. Fico
revoltado com o gracejo, ao me lembrar que um
dos torturadores de alta estatura tem a mesma
alcunha. Mas nada posso fazer para impedir essa
forma sui generis de sadismo, que é a dos
algozes se divertirem às custas de suas
vítimas.
Descrever
as torturas dessa noite seria repetir noites já
descritas: os espetos nas unhas, o remexer de
feridas purulentas, as torções de
membros descarnados.
O rapazinho
histérico que pulava e gritava durante
as torturas não mais apareceu. Teria sido
recolhido por algum hospício? A ausência
do bufão parecia ter tirado a inspiração
aos carrascos, estes agem pachorrentamente, a
sua lentidão prolonga o meu sofrimento,
melhor seria que tudo acabasse de uma vez. Fico
pensando que essa fleuma é calculada, que
ela faz parte dos “métodos científicos”
ensinados pelos nazistas e de que os policiais
nativos se vangloriam.
Sinto que a morte está rondando, a qualquer
momento um golpe falso pode produzir o fim. Não
é isto o que me apavora e sim o fato de
que a agonia se prolongue, é sobre-humano
o esforço que faço para me manter
em pé.
De
vez em quando minhas pernas cambaleiam, meu corpo
fica suspenso pelas cordas que prendem meus pulsos,
as mãos, inchadas, ficam roxas, quase negras.
Isto me obriga a realizar um esforço enorme
para sustentar nas pernas e aliviar a dor dos
pulsos. Por fim, as últimas reservas de
resistência física se esvaem, meu
corpo descamba definitivamente, até ficar
inerte. O meu esqueleto é arrastado até
a sala contígua.
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“DÉCIMO
DIA”
Mais uma vez fui atado ao “pelourinho”.
As torturas recomeçaram. Os carrascos se
esforçam para imprimir maior inspiração
ao seu mister, mas isto vai se tornando cada vez
mais difícil diante da minha fraqueza,
do meu estado pré-agônico.
Por
sua vez, o tal monstrinho histérico –
o que gritava, ria, pulava e rolava no chão
durante o massacre – continuou desaparecido.
Sua ausência parece ter diminuído
o entusiasmo dos espancadores, tornando-os de
tal forma fleumáticos que os seus chefes
de vez em quando irrompiam de supetão no
“Quadrado” para estimular seus asseclas,
para evitar arrefecimentos.
As
torturas prosseguem com maior ânimo, inexoráveis,
o esqueleto insistindo teimosamente, os meus gritos
transformados em longos gemidos arquejantes, incontroláveis,
entravam pela noite a dentro, pareciam não
ter fim.
De
repente houve uma correria na sala vizinha. Ouvia-se
uma pancada na janela, barulho de vidros partidos
caindo no chão. Gritos fortes vibraram
no espaço: “Abaixo a ditadura fascista!
Viva Luís Carlos Prestes! Os “tiras”
passavam correndo feito loucos, sons desconexos,
confusão, agarra-agarra. Senti que uma
coisa muito grave estava acontecendo.
O tumulto
foi aos poucos diminuindo até chegar a
um silêncio total. Em segundos a notícia
se espalhou: Joaquim Câmara Ferreira –
o companheiro Jurandir – que vinha sendo
torturado, aproveitou um descuido do “tira”
que o vigiava, correu para uma janela partiu com
um soco o vidro e cortou os pulsos, ao mesmo tempo
que gritava as frases acima descritas.
Foi
operado na mesma hora, ficando fora de perigo
de vida. A morte que lhe aguardava muito mais
pavorosa viria muitos anos depois, quando foi
massacrado sob torturas pela Polícia de
São Paulo.
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“DÉCIMO
PRIMEIRO E DÉCIMO SEGUNDO DIAS”
Vou perdendo a noção do tempo e
das coisas. Os meus sentidos se embotam. As vezes
tenho dificuldade em saber que parte do corpo
me dói, onde estou, o que está havendo.
Quando a mente se aclara, sinto que está
se esvaindo o que me resta de existência,
que minha vida está por um fio, a qualquer
momento os prognósticos do doutor Mariosinho
poderão ir “pro beleléu”.
Os “tiras” já não insistem
para que fique de pé durante o dia –
insistência que agora seria improfícua,
a não ser que arranjassem um meio de escorar
o meu esqueleto.
Desperto
constantemente de um estado de inconsciência,
como se acordasse de um sono profundo, e fico
em dúvida se tive um desmaio ou se simplesmente
dormi. Acredito que esses intervalos de inconsciência
são momentâneos, mas a recuperação
dos sentidos traz de volta as dores, a angústia,
a apreensão.
Ouço
vozerio na sala vizinha. Os torturadores chegaram.
Ordenam que me levem ao “quadrado”
dos suplícios. Faço esforço
para caminhar mas o estado de fraqueza me faz
cambalear, os tiras me seguram pelos braços.
Me carregam. Me amarram nas maçanetas das
portas, fico dependurado pelas cordas, oscilando
como um pêndulo. As torturas recomeçam.
Param quando sentem que preciso ser reanimado.
Reiniciam depois, para depois parar e depois recomeçar.
No
12º dia chegou ao fim. Entrei em agonia.
Fui estendido de costas ao chão. Perdi
os sentidos. Não sei quanto tempo permaneci
nesse estado de coma. Também não
sei o que fizeram para que eu voltasse à
vida. Ao que parece, esta voltou lentamente. Aos
poucos fui recuperando os sentidos.
Primeiro
vi umas sombras que se moviam confusamente. Depois
verifiquei que estava deitado no chão e
em volta de mim estavam os espancadores e seu
estado-maior, todos de cócoras, me olhando
com curiosidade. O doutor Mariosinho estava mais
perto, ergueu minha cabeça e passou a despejar
lentamente uma xícara de leite na minha
boca, o líquido desceu aos poucos na garganta,
aos poucos fui me reanimando.
Depois
de permanecer nesse estado por muito tempo, o
doutor Mariosinho segurou meu pulso e ao cabo
de alguns segundos sentenciou: “Não
adianta insistir. Este não agüenta
mais”. Outro chefe me ordenou, aborrecido:
“Levem esse queixo-duro para a sala dos
detidos”.
Dois
“tiras” me ergueram e me carregaram,
através de salas e corredores, para o local
indicado. E me deitaram no chão de uma
solitária, onde só cabia uma pessoa.
^
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“A
SALA DOS DETIDOS”
A sala dos detidos da Polícia Central não
era bem uma sala. Era uma série de cubículos
separados por um corredor. Esses cubículos
estavam superlotados de presos políticos,
todos em regime de incomunicabilidade. A insegurança
e o terror eram a constante entre esses presos,
pois a qualquer momento alguém podia ser
retirado para interrogatórios, dos quais
quase sempre voltava todo rebentado, quando voltava.
Certa
vez vi caminhar vagarosamente pelo corredor, seguro
por dois investigadores, um corpo descarnado de
um rapaz franzino, ainda jovem, quase não
se agüentando em pé. Era Pascacio,
um operário pernambucano companheiro inteligente,
firme, um caráter a toda prova. Diziam
que ele estava sendo submetido às torturas
e o seu estado de nervos ultrapassou os limites
do suportável. Foi ao banheiro, apanhou
uma lata de soda cáustica inexplicavelmente
esquecida lá e bebeu o seu conteúdo.
Não morreu na hora. Mas o estômago
devolvia todo alimento que ingeria, e seu corpo
foi afinando, as carnes se consumindo, até
sucumbir, depois de longo sofrimento.
Quanto
ao meu estado físico, a recuperação
começou. A alimentação fornecida
aos presos era horrível: mas os companheiros
faziam chegar ao meu cubículo um reforço
de frutas e outros alimentos mais leves, de acordo
com meu estado de fraqueza. Aos poucos fui recuperando
as forças até chegar ao meu estado
normal.
Para
tratar dos doentes – os cubículos
da sala de detidos formavam um amplo hospital
– a polícia dispunha de “enfermeiros”
ou melhor dito, de “tiras” arvorados
nessa função. As equimoses, feridas,
tumores e unhas semi-arrancadas eram tratadas
por esses enfermeiros para evitar, o mais possível,
que deixassem marcas e aleijões denunciadores.
O companheiro
Jorge da Silveira Martins, advogado, neto do Ministro
de Estado nos anos finais do Império, teve
um desequilíbrio nervoso e passava dias
e noites gritando. O Silveira, que lá fora
vivia a defender gratuitamente a todos os que
necessitavam dos seus serviços profissionais,
era agora também vítima das torturas
que ele tanto combatera e denunciara.
A ditadura
do “Estado Novo” podia se vangloriar
de que estava bem aparelhada para a repressão.
Tinha salas de torturas, tinha torturadores treinados
por técnicos nazistas e tinha médicos
e enfermeiros para servi-los e acompanhá-los.
Fabricavam aleijados, neuróticos e loucos,
mas não faltavam enfermeiras, hospitais
e manicômios. Tudo isto ali mesmo, dentro
do próprio velho casarão da rua
da Relação. Matava e fabricava suicidas,
mas os cemitérios estavam lá fora
para enterrá-los.
Transpor
os portões dos calabouços fascistas
era transpor as portas de um inferno.
A minha
família criou um problema para a polícia.
A mulher sem recursos de espécie alguma,
em vésperas de ter filho, com três
crianças sem terem para onde ir nem com
quem deixar, pois não tínhamos nessa
época parentes no Rio, era um embaraço.
O parto era considerado perigoso, em vista das
crises nervosas da parturiente, em tais circunstâncias
poderia chegar ao conhecimento da opinião
pública e repercutir desfavoravelmente
contra o governo.
No
Rio Grande do Norte os nossos parentes tomaram
conhecimento rápido de nossa prisão
e passaram a se movimentar no sentido de interrogar
a polícia, através, dos políticos,
sobre o que estava ocorrendo e sobre o paradeiro
da mulher e das crianças. E a polícia
encontrou a solução: mandou todos
– mulher e filhos – para o Rio Grande
do Norte, entregando-se ao meu sogro, que os recebeu
de braços, apesar do seu minguado ordenado
de Secretário da Escola Normal.
Logo
depois veio a notícia, numa carta: “parto
difícil, a criança nasceu morta.
Aliás, morta já estava, há
dias, no ventre materno, segundo a informação.
Mas, a mãe estava salva! O prestígio
da ditadura não fora arranhado, se é
que realmente poderia ser, por tão pouco.
Os policiais podiam dormir tranqüilos, não
haveria recriminações.
Na
“sala dos detidos” continuava a situação
de terror. Num cubículo isolado, estava
um baleado. Era o companheiro Martins (Honório
de Freitas Guimarães).
Uma
operária de são Paulo estava noutro
cubículo de mulheres, com as unhas arrancadas,
em estado lastimável. Magra, franzina,
tinha passado pelas torturas mais cruéis,
mantendo-se numa atitude digna e corajosa.
Elias
Reinaldo, outro operário pernambucano,
andava se arrastando apoiando em muletas improvisadas.
Fora atacado de polionevrite, em conseqüência
das pancadas que lhe deram nas pernas.
Matias
outro mártir, ficou com a região
pubiana em chagas, que viraram cicatrizes, proveniente
das queimaduras com tochas de jornais, “trabalho”
da trinca Cegadas-Monteiro-Pequenino. A esposa
desse companheiro, com os nervos abalados, acabou
pondo termo a própria vida em São
Paulo. Nunca é demais repetir que a ditadura
dessa época – como todas as suas
congêneres – mantinha rigorosa censura
aos meios de difusão, não permitia
que esses crimes fossem divulgados, a não
ser através de sua própria versão,
manipulada, deformada.
Os
dias, as semanas e os meses iam passando e não
havia nenhum indício de quando a nossa
situação ia se modificar. O desejo
de todos era sair do “inferno” (polícia
Central) e ir ao purgatório (casa de correção).
Essa classificação vulgar era feita
zombeteiramente pelos “tiras” e simbolicamente
correspondia a realidade. Isto porque poucos tinham
esperanças de ser libertados. Os que não
esperavam ter essa sorte, desejavam pela menos
tirar sua cadeia, grande ou pequena, em sossego.
Todavia,
lá fora as coisas não andavam muito
tranqüilas. A segunda guerra mundial começou.
O nazismo iniciou a invasão dos países
da Europa, no seu sonho de dominar o mundo. A
cartada fora lançada. Qual seria a posição
do Brasil nessa luta decisiva? Era essa a pergunta
que todos faziam.
^
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“A
SOLITÁRIA”
Mais de um ano passamos no inferno da Política
Central, num ambiente de torturas, vilania, gritos,
choros, insegurança, desespero, pressões,
ameaças, crueldades, pavor, morte, suicídio.
Toda essa avalanche de agonia e sofrimento que
desabou sobre nós e nossa gente e que procuramos
palavras para exprimir e não encontramos,
tudo que dizemos parece sem sentido, confuso e
distante da realidade.
Entretanto
repentinamente a situação lá
fora começou a mudar o rumo da ditadura.
Os navios da marinha mercante brasileira começaram
a ser torpedeados pelos submarinos alemães,
sob o pretexto de que transportavam mantimentos
para os aliados. O povo, em grandes manifestações
de rua, exigia que o Brasil participasse da guerra
ao lado das Nações Unidas.
Sob
pressão interna e externa, o governo de
Getúlio Vargas teve que se definir e a
guerra contra o eixo acabou sendo declarada. A
ilha de Fernando de Noronha – ponto estratégico
avançado no Atlântico – teve
que ser evacuada às pressas. Os presos
políticos que lá estavam, na sua
maioria militares da Revolução de
35, foram trazidos para o Rio e alojados na Casa
de Correção. Em seguida também
fomos transferidos para lá.
Desta
forma, em decorrência da guerra e das grandes
transformações que se operava na
vida dos povos de todo o mundo, a máquina
da repressão no Brasil começou a
perder o seu ímpeto, como se uma mão
invisível tentasse travar as suas engrenagens.
Estava findo o período tenebroso para os
presos que estavam na Polícia Central.
A mim
e ao Matias estava reservada mais uma surpresa.
Em vez de nos colocarem juntos com os demais presos
políticos, nos puseram isolados numa solitária,
sem qualquer justificativa, em frente ao cubículo
em que estava Ari Berger. Este companheiro ficou
louco pelas torturas que sofreu e pela morte de
sua esposa. Ela e Olga Benário Prestes,
foram entregues aos carrascos de Hitler pela polícia
de Felinto Müller. Ambas foram assassinadas
nos campos de concentração da Alemanha
nazista.
Ari
Berger passava dias e noites gritando, ficamos
impossibilitados de dormir durante muito tempo,
até que aos poucos fomos nos acostumando.
O cárcere onde estava Berger não
podia ser comparado a nenhuma jaula. A jaula do
animal mais feroz permite o contato visual entre
a fera e o mundo exterior. No antro em que estava
Berger, nem isto era possível.
Tratava-se
de um cômodo com apenas um vão alto,
com grade de ferro que não permitia ver
seu interior, mesmo de longe. Havia uma área
ao lado, cercada por muros elevados, intransponíveis,
com um portão de ferro, única entrada
para os guardas. Embora nossa solitária
ficasse bem em frente e nos banhos de sol pudéssemos,
às vezes, chegar até o pé
do paredão, jamais pudemos ver sequer a
sua sombra. Podíamos acompanhar seus passos
pelos ruídos. Mas vê-lo, nunca!
Durante
todo o tempo que estivemos na solitária
ou seja, durante muitos meses, nunca vimos entrar
na prisão de Berger nenhum médico
ou enfermeiro. Somente os guardas e faxineiros
entravam lá, uma vez por outra, para limpeza.
Quando terminou a guerra, em 1945, Berger foi
anistiado, junto com todos os presos políticos
e seguiu para a Alemanha Oriental. Lá foi
submetido a longo tratamento de saúde.
Depois soubemos de sua morte.
Do
outro lado, por trás de nossa cela, ficava
o pavilhão onde estavam alojados os demais
companheiros. Nas horas de recreio eles jogavam
futebol e sua algazarra chegava aos nossos ouvidos,
nós ficávamos um pouco mais animados.
Mas depois que eles silenciavam, a nossa solidão
voltava mais depressiva.
Havia
uma promessa de que nossa isolamento injustificável
iria terminar, que breve seríamos colocados
juntos aos demais companheiros mas o tempo corria
e nada acontecia.
Os
dias de visita constituíam uma pausa na
monotonia das nossas vidas de isolamento na solitária.
Nessa época eu não tinha visitas,
minha família continuava no norte. Mas
ficava contente só em ver a alegria do
Matias, quando vinha alguém visitá-lo,
de São Paulo, onde estavam morando sua
companheira e sua filha.
Num
desses dias como sempre, ele preparou-se, feliz,
na expectativa desse encontro reanimador. A visita
não veio mas veio uma carta. Uma carta
não é o mesmo que uma visita, mas
sempre trás notícias, palavras de
carinho e de alento.
Ele
abriu o envelope com sofreguidão, tirou
o papel e começou a ler. Sua fisionomia
foi se transtornando, ele foi ficando pálido
e trêmulo, pensei que ia desmaiar. Na expectativa
de mais uma desgraça, perguntei ansioso,
o que tinha acontecido. Ele não disse uma
palavra. Entregou-me a carta e caiu no pranto.
A carta dizia que a sua esposa tinha se suicidado.
Fora encontrada morta no banheiro. Que mais posso
escrever neste capítulo? Qualquer coisa
que eu acrescente me parece inútil.
O fim
do nosso isolamento na solitária chegou,
afinal. Fomos transferidos para o pavilhão
em que estavam os outros companheiros e recebidos
com o regozijo comum entre velhos amigos nessas
ocasiões. Agora podíamos praticar
esportes, ler, estudar, conversar, ter informações
mais amplas do que se passava por esse mundo afora.
E toda essa terapia seria utilizada por nós,
avidamente, para restaurar o físico e a
mente, abalados pelas torturas e pelo longo período
de isolamento. Aconteceu nessa época um
caso curioso, que não podemos deixar de
registrar: Depois de nossa vinda para a Casa de
Correção, trouxeram também
os “quintas colunas – espiões
nazistas apanhados em flagrante, quando indicavam,
por meio de estações de rádio
clandestinas, o roteiro dos navios mercantes brasileiros
para que os submarinos alemães levassem-nos
a pique, matando milhares de compatriotas e causando
grandes prejuízos à nação.
Esses
espiões e sabotadores nazistas ocupavam
uma ala de um pavilhão, com o maior conforto.
Cheios de dinheiro, conseguiam móveis,
geladeiras, rádios e tudo mais que desejassem.
Pareciam verdadeiros marajás. A cozinha
do presídio lhes servia, com horário
especial, no refeitório, uma comida de
superior qualidade, verdadeiros banquetes, comparada
com a bóia chinfrim que era servida aos
presos políticos brasileiros, nacionalistas,
comunistas e os próprios guardas.
A
disparidade era tão chocante, que foi tirada
uma comissão para ir falar com o diretor
do presídio e pedir que pelo menos, nos
fosse servida uma comida igual a que era servida
aos “quinta colunas”. O nosso pedido
foi imediatamente atendido e passamos a ter um
tipo de refeição que eles chamavam
de “dieta” e que muitos dos nossos
jamais tiveram, mesmo quando estavam lá
fora.
^
Subir
“A
ILHA GRANDE”
Fomos avisados da nossa ida para a Ilha Grande.
A Ilha Grande, como presídio, tinha uma
pavorosa fama. Em capítulo anterior destas
memórias fizemos ligeiras referências
ao pavor que a Ilha Grande inspirava aos presos
comuns. Quanto aos presos políticos, meus
irmãos Jonas Reginaldo da Rocha e Antônio
Reginaldo Sobrinho lá estiveram por dois
anos, quando vieram deportados do Rio Grande do
Norte, juntamente com centenas de outros companheiros,
após a revolução de 1935.
Era
diretor do presídio naquela época,
o famoso Canepa, que celebrizou-se pelas crueldade
que infligia os presos em geral, que tinham a
infelicidade de cair sob sua guarda. Presos comuns
e presos políticos viviam sob regime forçado,
obrigados a carregar vigas perigosamente pelas
montanhas, sem ter em conta a constituição
física e a saúde de cada um.
Jonas,
com um pouco mais de resistência, conseguiu
subsistir aos maus tratos. Toínho mais
fraco, não resistiu e chegou a ser carregado
nas costas pelo conterrâneo Epifânio
Guilhermino que demonstrou na hora da aflição,
o seu elevado espírito de solidariedade,
o que fez reforçar a estima e o apreço
que sempre tivemos por ele.
Toínho
voltou da Ilha Grande com os nervos abalados,
nunca mais recuperou a saúde, acabando
seus dias tristemente, num hospício em
Natal.
Entretanto,
o mundo dá muitas voltas. A nossa ida agora
para a Ilha Grande, já não inspirava
pavor. O Brasil, como já foi dito, entrou
na guerra ao lado das Nações Democráticas
para combater o nazi-fascismo. Seria difícil
prever qual a reação do nosso povo
e dos pracinhas, após a vitória,
diante da existência da ditadura do Estado
Novo, com seus cárceres apinhados, com
seus crimes e atrocidades. Não seria fácil
fazer o povo entender essa contradição.
Enquanto ele sacrificava sua vida para derrotar
o nazismo na Europa, aqui mesmo em nosso país,
se mantinha de pé uma ditadura implantada
nos mesmos moldes nazistas. Além disto,
as ruas das cidades estavam cheias de inscrições
pedindo anistia e nas manifestações
populares de todo o país, era esse o clamor
das multidões.
O governo
de Getúlio sentiu que chegara a hora de
recuar. Transferiu os presos políticos
para a Ilha Grande e entregou a direção
do presídio ao Coronel Nestor Veríssimo,
caudilho gaúcho, ex-participante da Coluna
Prestes, o elemento indicado para abrir caminho
à transformação democrática
e à anistia.
Um
transporte da Marinha nos levou à Ilha
Grande. Ao desembarcar em Dois Rios, fomos recebidos
na praia, por funcionários do presídio,
que ali mesmo procederam a nossa identificação.
Horas depois estávamos instalados nos alojamentos
a nós reservados.
No
dia seguinte, depois do café, os portões
foram abertos e pudemos sair, ir à praia,
passear pelas ruas. Só não podíamos
sair da vila sem permissão.
Nos
primeiros passeios ficamos conhecendo a figura
curiosa do Coronel Nestor Veríssimo. Ele
andava montado numa burra, pachorrento, e foi
assim que o vi pela primeira vez. Gordo, estrábico,
fala mansa, costumava quebrar a seriedade de algumas
conversas com um palavrão chistoso. Diziam
que tinha o corpo cheio de marcas de perfurações
por balas. Era um tipo patriarcal, com fama de
corajoso e justiceiro.
Os
presos políticos da Ilha Grande (nacionalistas,
socialistas e comunistas) se consultaram e tomaram
uma resolução com referência
a guerra que o Brasil estava enfrentando, sob
a bandeira das Nações Unidas, contra
o nazi-fascismo. De acordo com a resolução
nós os presos políticos mencionados,
nos colocávamos à disposição
do governo brasileiro a fim de seguirmos, voluntariamente,
para o front da guerra contra o eixo nazi-fascista.
Finda a guerra, voltaríamos dispostos a
cumprir normalmente, até o fim, as penas
a que fôramos condenados.
O nosso
oferecimento formal representava apenas uma tomada
de posição, pois não tínhamos
ilusões quanto a sua aceitação,
não só pela absoluta falta de bases
jurídicas, mas também por motivos
discriminatórias de caráter ideológico,
fáceis de imaginar.
A nossa
decisão foi encaminhada através
da direção do presídio. Entretanto,
nenhuma resposta chegou até nós.
Como fora previsto, a nossa proposta não
foi sequer tomada em consideração.
Entre
os “quinta colunas” presos na Ilha
Grande havia um rapaz, brasileiro, tipão
forte, carrancudo, que chamava a atenção
pelos motivos de sua prisão. Ele tinha
sido convocado para as fileiras do Exército
e incluído no Corpo Expedicionário
Brasileiro. Quando se aproximou a hora de embarcar
para o front da Itália, ele deu um tiro
no próprio pé, para fugir do seu
dever. E de fato não embarcou, mas foi
preso e processado. E se vangloriava do seu ato
vergonhoso.
O Coronel
Nestor Veríssimo, diretor do presídio,
abriu a possibilidade de trabalho aos presos políticos.
Os que voluntariamente quisessem, poderiam trabalhar,
recebendo uma pequena remuneração.
Essas frentes de trabalho constavam de serviços
de pedreiro (construção de casas
residenciais, sendo uma para hospedagem das visitas
dos próprios presos políticos),
carpintaria (construção de uma lancha
no estaleiro existente), pintura, fabrico de carvão
na mata próxima etc.
O trabalho
remunerado era importante, especialmente para
os que tinham família e não recebiam
“montepio” ou qualquer outro rendimento.
O trabalho em si permitia também, uma mudança
para melhor no sistema de vida seguido até
então, pois a maioria dos presos políticos
vivia encerrada nos cubículos, fabricando
quinquilharias, dormindo ou passando o tempo com
jogos e bate-papos quase sempre inúteis.
Com
o novo trabalho proposto, os presos passariam
a ter uma vida mais sadia, ao ar livre, alguns
teriam oportunidade de aprender uma profissão,
outros de exercitar a que já possuíam.
Aconteceu que certos líderes presumidos,
que não tinham grande necessidades de dinheiro
nem estavam muito habituados ao trabalho profissional,
deram o contra. Muitos estranharam que alguém
pudesse ser contra o trabalho. Uma coisa tão
normal, tão necessária e mesmo imprescindível
à vida do operário. Conjecturas
surgidas daqui e dali atribuíam a ciúmes
dos tais líderes, receio infundado de perderem
o controle de seus liderados, que iam se afastar
de sua proteção.
Foi
convocada uma assembléia do coletivo para
resolver o assunto. Nos debates, os inimigos do
trabalho declararam finalmente, as razões
de sua atitude. Segundo eles o trabalho proposto
pelo diretor oferecia o seríssimo perigo
de corromper alguns companheiros mais fracos.
Por isso estavam contra. Esse conceito de fragilidade
essa suspeitosa acusação lançada
no ar desta maneira, indiscriminadamente, era
vexatória e desconcertante.
O argumento
em si era frágil demais e não foi
difícil e réplica dos favoráveis
ao trabalho. Disseram estes que trabalhar é
um direito pelo qual lutam os povos em todo o
mundo e que qualquer tentativa de impedir o exercício
desse direito era uma violência. Mais grave
ainda, era essa violência, quando partia
de quem justamente devia defender e apoiar essa
justa causa. Disseram mais, que o trabalho nunca
foi meio de corrupção para o trabalhador
e sim de subsistência. E sendo um meio de
subsistência, tentar impedí-lo é
mais do que uma violência, é uma
ação desumana.
Quanto
à corrupção, corrompe-se
aquele que é corruptível e o corrupto,
na sociedade capitalista, encontrará sempre
meios de se corromper, quando bem o desejar. Se
o trabalho fosse um fator de corrupção,
que seria da classe operária, que vive
do trabalho, seu único meio de vida? A
discussão prosseguiu horas e horas a fio.
Depois de três dias seguidos de calorosos
debates a mesa teve que submeter o caso a votação.
A maioria votou pelo trabalho. Os inimigos do
trabalho não se conformaram com a derrota.
Abandonaram o coletivo, mudaram-se para outra
galeria e formaram um novo coletivo minoritário.
Realizaram a cisão sem fundamento, desnecessária
e ridícula.
Uma
vez que não conseguiram “acaudilhar”
a todos os companheiros, conformaram-se em ser
chefes de uma minoria.
Trabalhou
quem quis. Quem não quis não trabalhou.
Porque ninguém foi obrigado a nada. E ninguém
se corrompeu nem se desonrou para desespero dos
falsos profetas. Quando houve a anistia, vi “trabalhista
e não trabalhista” abraçados,
na maior alegria. E mais tarde em liberdade, estavam
novamente irmanados na mesma luta. As pequenas
querelas desaparecem, sempre que há um
ideal mais forte.
Um
grupo de presos políticos em abaixo assinado,
requereu ao Coronel Nestor Veríssimo permissão
para que todo aquele que assim desejasse, pudesse
morar com sua família na Ilha Grande. O
requerimento baseava-se na existência de
um antigo projeto de criação de
colônias agrícolas para presidiários,
no qual esta permissão estava incluída.
Segundo nos informaram, o diretor do presídio
levou o oficio diretamente ao presidente Vargas,
tendo sido por este despachado favoravelmente.
Em
vista desse atendimento, todos os presos políticos
passaram a ter direito de mandar buscar suas famílias
para a Ilha, com casa de graça para morar,
podendo retirar semanalmente os gêneros
alimentícios em espécie, correspondente
à etapa a que um tinha direito como detendo.
Viveriam fora do presídio, tendo apenas
que se apresentar na portaria pela manhã
e à tarde. E seus filhos podiam freqüentar
a Escola Pública existente na vila.
Como
já havia o direito ao trabalho parcialmente
remunerado, ficariam assim com a subsistência
garantida, modesta mais suficiente. O ofício
solicitando a nossa moradia na Ilha foi assinado
(se não me falha a memória) por
Mauro, Brás, Azevedo, Bonfim, Epifânio
Guilhermino, eu e outros.
Na
margem do rio havia um velho edifício abandonado,
que noutros tempos fora hospital. Nós mesmos,
os futuros moradores, restauramos, pintamos e
dividimos o casarão em apartamentos, cada
qual escolheu o seu. O tenente França tomou
posse de uma casinha desabitada que havia próximo
à praia e, caprichosamente, transformou-a
nem pequeno “bangalô”.
Antes
desses preparativos eu já tinha consultado,
por carta, minha família sobre sua vinda
para a Ilha. A resposta afirmativa veio rápida
e decidida. Agora era só aguardar.
Quanto
aos recursos financeiros para a viagem, ficou
por conta da “campanha de ajuda aos presos
políticos e suas famílias”,
que funcionava no Rio e nos Estados. Graças
ao trabalho formidável de solidariedade
encabeçado pelos abnegados companheiros
Jorge da Silveira Martins, Fernando Lacerda e
muitos outros, a importância suficiente
foi arrecadada e enviada ao Rio Grande do Norte.
O difícil,
para minha família era realizar essa viagem
por terra, já que a vinda por mar era impossível,
devido aos freqüentes torpedeamentos dos
navios brasileiros pelos submarinos alemães.
Estradas de rodagem, praticamente não existiam
e uma viagem como essa na época, era uma
verdadeira temeridade.
Minha
mulher, com as três crianças, resolveu
enfrentá-la. Arrumou a trouxa e se pôs
na estrada. O filho mais velho tinha 6 anos de
idade, o menor 5 e a menina 4.
Para
se ter uma idéia do feito, vamos descrever
o roteiro. Essa viagem, nos dias atuais, é
uma viagem comum, de ônibus, e leva 4 ou
5 dias. Naquele tempo ela foi realizada da seguinte
maneira: de Mossoró a Natal, em caminhão
do Correio; de Natal a Recife de trem; de Recife
a Petrolina num jipão do Exército;
de Petrolina a Juazeiro na Bahia de barca; de
juazeiro a Pirapora em Minas, pelo Rio São
Francisco de gaiola; de Pirapora a Belo Horizonte
ao Rio Janeiro de trem, idem; do Rio a Mangaratiba
de trem; de Mangaratiba a Abraão (Ilha
Grande), de Lancha (a balalaika); de Abraão
a Dois Rios de ônibus.
Com
mais de 2 meses de viagem, chegaram ao presídio
da Ilha Grande, a mulher e os três filhos.
Magros e queimados de sol, de fazer dó.
Mas chegaram. Ainda com saúde, alegres
e felizes.
A minha
família, da mesma forma como as outras
que iam chegando, já encontrou a casa pronta,
com móveis improvisados e utensílios
domésticos indispensáveis. Para
isto favoreceu o espírito de solidariedade
e ajuda mútua e também o fato de
que muitos ali eram operários especializados.
Tínhamos, de boa qualidade, marceneiros,
pedreiros, pintores, mecânicos, ferramenteiros,
além daqueles que tudo fazem e de tudo
entendem um pouco e que são utilíssimos
nessas horas. Tudo de graça, pelo sistema
do cooperativismo.
Para
garantir e reforçar a alimentação,
já havíamos iniciado a criação
de galinhas, patos e cabritos. Tínhamos
ao lado da casa o rio que dava alguns robalos
e bem perto estava a praia, onde a pescaria de
arrastão nos fornecia peixes fresquinhos,
quase sempre com fartura. O leite e as verduras
vinham da vacaria e da horta do presídio.
Aos domingos havia uma feirinha dos caipiras,
onde podíamos nos abastecer por bons preços,
de frutas e algo mais que nos faltasse.
As
crianças se recuperaram rapidamente da
longa viagem, ficaram fortes e foram entrando
para a escola, à media que iam atingindo
a idade. E assim ia transcorrendo a nossa vida
de presidiários, agora amenizada com as
novas medidas humanizadoras.
Entretanto,
à tarde, quando parávamos de trabalhar,
quando o sol começava a se esconder no
horizonte, é que a gente fazia esforço
para afugentar a tristeza e evitar a depressão.
É que, por mais que procurássemos
nos convencer de que tudo ia bem, não conseguíamos
sufocar os nossos anseios de liberdade.
Não
estávamos com nenhuma corrente nos pés
(também pudera!), os “quadrados”,
as “as salas de detidos” e as “solitárias”
ficaram para trás. Mas estávamos
numa ilha-Prisão.
Tudo
corria normalmente. No Cassino dos Guardas realizou-se
uma festa dos funcionários do presídio.
O Coronel Nestor Veríssimo esteve presente.
Depois que tudo terminou ele sentiu-se mal. Disseram
que houve qualquer complicação relacionada
com seus antigos ferimentos. A doença agravou-se
rapidamente. Alguns dias depois estava morto.
Em
substituição ao falecido, assumiu
a direção do presídio o Major
Coimbra, também gaúcho. O novo diretor
manteve todas as regalias instituídas pelo
seu antecessor, demonstrando boa vontade no tratamento
com os presos políticos. Decididamente
uma aura aprazível estava amenizando nossas
penas. Sá faltava a anistia. Estávamos
certos de que ela não tardaria a chegar.
Nas
frentes de combate da grande guerra, começou
a derrocada das tropas do “eixo”.
No
campo decisivo da Europa, pelo leste, a fina flor
do Exército nazista era tangida de roldão
pelo Exército Vermelho. Pelo oeste, com
a abertura da segunda frente pelos aliados, a
fuga dos outrora orgulhosos representantes da
pretensa raça superior era em sentido contrário,
em direção a Berlim. No sul, no
front da Itália, onde combatia a valorosa
Força Expedicionária Brasileira,
fechava-se o grandioso cerco. Só restava
às feras nazistas o seu próprio
covil, onde seriam definitivamente dizimadas.
19
de abril de 1945. Foi decretada a anistia ampla
para todos os presos políticos no Brasil.
Quando a notícia chegou ao presídio
da Ilha Grande, embora já fosse esperada,
a primeira reação que nos causou
foi de perplexidade. Depois a realidade foi se
formando aos poucos em cada um, até se
transformar numa alegria geral, transbordante,
incontida. Alegria de quem se sente renascer para
uma nova vida. A festa espontânea, cada
qual festejou ao seu modo, sem limites de tempo
ou de programação. Um transporte
da Marinha foi posto á disposição
do diretor do presídio, para nos levar
para o continente.
A situação
de Adauta, esperando o bebê para aqueles
próximos dias, nos tirou a chance de viajarmos
todos juntos para a liberdade. Combinamos, então,
que eu iria na frente, com todos os demais anistiados,
a fim de providenciar o arranjo de nossa nova
residência no Rio e dar os primeiros passos
na procura de trabalho. Ela continuara por uns
dias na Ilha com as crianças aguardando
minha volta que seria breve. Assim combinado embarquei
com todos para a grande cidade.
Quando
desembarcamos no Cais do Porto, uma multidão
festiva nos aguardava. Os que tinham família
no Rio, foram recebidos e conduzidos por seus
parentes. Os que não tinham, como era o
meu caso, encontraram amigos e correligionários
prontos para ajudar.
À
minha espera e também do jovem nordestino
Ademar, estava o saudoso Saul, companheiro de
lutas dos velhos tempos. Ele nos recebeu com grande
alegria e, depois de palavras animadoras, nos
levou até o seu carro, a sua famosa baratinha.
Dentro em pouco estávamos em sua confortável
residência.
A minha
maior dificuldade era para alugar uma casa. Naquele
tempo, os proprietários, de imóveis
exigiam altas luvas por um contrato de locação
e eu como é fácil de se deduzir,
saíra da prisão sem um níquel
no bolso.
Mas
o Saul tinha uma agradável surpresa para
mim. Nos terrenos de sua mansão havia uma
casa vazia, com dois cômodos, e ele a pôs
à minha disposição até
que eu pudesse me arranjar. Nela fiquei por dois
anos, quando consegui mudar para uma casa própria,
adquirida com muito trabalho e muito esforço.
Quanto
ao emprego, o meu plano era recorrer a uma de
minhas habilidades profissionais (desenhista,
tipógrafo etc.), quando fui informado por
um amigo de que havia uma oficina de maquetes
na Av. Venezuela, de propriedade de Zanini. Este
trabalho, dizia o amigo, seria o recomendado para
mim, em vista da minha facilidade em assimilar
esse tipo de atividade.
Fui
no dia seguinte e fiquei conhecendo Zanini –
essa figura humana excepcional, esse artista e
arquiteto nato, no dizer de Lúcio Costa.
No fim de um ligeiro papo eu já estava
empregado. A oficina era bem montada, com uns
30 operários, dividida em setores especializados:
desenho, pintura, corte armação
e acabamento. Comecei como desenhista, realizando
tarefas. Três meses depois passei a desenhar
e a dirigir a confecção das primeiras
maquetes. Um ano depois, eu era o encarregado
de toda a oficina. Após dois anos, quando
Zanini mudou-se para S. Paulo, montei meu próprio
estúdio de maquetes.
Quanto
voltei à Ilha Grande alguns dias depois
da Anistia, já encontrei meu novo filho
que nascera no dia 1º de maio. Na primeira
lancha embarcamos para o Rio, eu e toda a família.
Aí
começou tudo de novo. Fomos morar na casa
que o Saul nos emprestara. É claro que
não havia nada dentro dela, precisávamos
de móveis, utensílios domésticos,
roupas e alimentos.
Eu
tinha diante de mim um desafio. E passei a trabalhar
com denodo e entusiasmo, dia, noite, domingos
e feriados: e me sentia feliz, como se as próprias
dificuldades me empurrassem para frente e me encorajassem.
O meu esforço visava apenas criar os meios
suficientes para educar os filhos e manter a família
dentro de uma padrão de vida razoável
e digno. Com o decorrer do tempo eu ia conseguindo
o meu propósito, a custa do meu próprio
esforço.
O Partido
estava agora com nova direção, numa
fase de franco desenvolvimento, facilitado pela
legalidade e pela euforia criada com derrota do
nazi-fascismo e pelo surgimento de novos Estados
Socialistas e novas democracias. Eu tinha a impressão
de que eu não estava fazendo falta ao Partido,
pelo menos não me tinham procurado, até
então, para as “grandes tarefas”.
Pelo
sim, pelo não, procurei estabelecer contatos
com alguns dos novos dirigentes a fim de “oferecer
os meus préstimos” e saber se eu
podia ser útil em alguma coisa. Mas, encontrava
sempre grande dificuldade em falar com esses companheiros,
estavam sempre muito ocupados, num entra-e-sai
apressado dos seus gabinetes de trabalho nas sedes
legais do curto período de legalidade do
partido. Tinham sempre reuniões, encontros
e tarefas muito importantes, pediam para aparecer
noutra ocasião.
Com
receio de que pudesse estar importunando, não
mãos os procurei. Aproveitei a folga que
esses “mui ativos” companheiros bondosa
e tacitamente me concediam e continuei o meu trabalho
de organização partindo das bases,
nos bairros, que já havia começado.
Aqui
começa um novo capítulo dessa história
que terá desenvolvimento no segundo volume
destas memórias.
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