Djalma
Maranhão – Memorial Online
Exílio
e Morte no Uruguai
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Djalma
Maranhão – Exílio e
Morte no Uruguai
Os
que não sobreviveram – Djalma
Maranhão
Mailde Pinto Galvão - 1964. Aconteceu
em Abril, Edições Clima 1994
Aos
que não sobreviveram ao sofrimento
e crueldade da ditadura militar de 1964,
particularmente aos companheiros do Rio
Grande do Norte, apresento aqui a minha
comovida homenagem e o respeito o mais profundo.
Djalma Maranhão
Esportista, funcionário municipal,
professor do Atheneu Norte-Rio-Grandense
e primeiro prefeito eleito de Natal, morreu
no exílio em Montevidéu, no
dia 30 de julho de 1971. É comum,
nas três mortes, o isolamento da família,
dos amigos e a solidão. Suportou
com dignidade e coragem todo o sofrimento
e humilhação que lhe impuseram
nas prisões da ditadura mas sucumbiu
ao isolamento e solidão do exílio.
Entre os companheiros das prisões
por onde esteve, deixou a marca da sua liderança,
coerência política e resistência
moral. De acordo com o testemunho deles,
entre os quais o jornalista Raimundo Ubirajara
de Macedo e o empresário Carlos Lima,
causava admiração o equilíbrio
de humor com que ele administrava a tensão
emocional da pressão que sofria.
Em alguns momentos, brincava com os companheiros
e levantava a força moral dos demais
prisioneiros.
Omar Pimenta, que se encontrava preso no
quartel do Regimento de Obuses, foi surpreendido,
um dia, pela chegada do ex-prefeito que
para lá fora levado para prestar
mais um depoimento. Entrou no alojamento
sorrindo, cumprimentando a todos e repetindo:
Vai passar...vai passar..." Os oficiais
retiraram-no, rapidamente. Ubirajara lembra
apenas um momento em que Djalma entristeceu:
aconteceu quando o próprio Ubirajara,
que fora libertado dias antes pelo capitão
Lacerda, foi novamente preso pelo simples
fato de haver passado no Grande Ponto, para
comprar jornais. Denunciaram-no como se
estivesse participando de conversas políticas.
Sua liberdade havia levantado o ânimo
dos demais presos; a nova prisão
trouxe o desânimo e a confirmação
do endurecimento do regime. No reencontro,
a decepção dos presos foi
geral e Djalma, com ansiedade, cobriu-lhe
de perguntas sobre a situação
do país. Informado de que continuavam
as prisões em todo o território
nacional, não escondeu a tristeza
e depressão.
Outras lembranças de Djalma Maranhão
são relatadas pelo seu filho Marcos,
que não o acompanhou ao exílio
mas visitou-o quatro vezes, com passagens
oferecidas pelo então senador Dinarte
Mariz. Marcos recorda a enorme saudade que
ele sentia e a ansiedade com que aguardava
o fim da ditadura. Cada ano esperava que
fosse o último; o tempo passava e
a ditadura continuava. Para ele, nunca acabou.
O empresário José Pacheco
e sua esposa Nenen guardam recordações
desde quando o conheceram como professor
de Educação Física
no Atheneu, ainda jovem e esportista, e
já entusiasmado pelo nacionalismo
puro, com o qual defendia soluções
brasileiras para os problemas brasileiros.
À fidelidade e a amizade resistiram
a toda a perseguição, calúnias
e perseguição vividas em 1964.
Pacheco e Nenen visitaram Djalma em todas
as prisões por onde esteve, inclusive
na embaixada do Uruguai, no Rio de Janeiro,
exceção para Fernando de Noronha.
No quartel do 16° RI receberam de Djalma
um pedido para que divulgassem que ele estava
sofrendo ameaça de tortura física.
Não explicou quem ameaçava
nem as condições em que o
fizeram. Pacheco tentou, então, fazer
um “abaixo-assinado”, pedindo
transferência do clero, para que os
comandantes militares concedessem-lhe um
tratamento mais humanitário. Entre
os supostos amigos, pessoas de prestígio
social a quem procurou, conseguiu apenas
uma assinatura: a do escritor Veríssimo
de Melo.
Não conseguindo assinaturas para
o “abaixo-assinado”, Pacheco
recorreu à Assembleia Legislativa
e encontrou receptividade no deputado Erivan
França, filho de um amigo do ex-prefeito.
O deputado apresentou denúncia em
plenário e, talvez, evitou a consumação
da tortura.
A última lembrança do casal
Pacheco vem do último encontro no
exílio de Montevidéu, em 1967.
Encontraram-se no local onde Djalma cumpria
a obrigação de se apresentar
diariamente, na condição de
exilado. Abatido e emocionado, Djalma os
abraçou e chorou; não conseguiu
conter a explosão dos sentimentos.
Passaram juntos quinze dias, até
se acabarem os recursos e serem obrigados
a voltar. No momento da despedida, o ex-prefeito
propõe voltar com eles e entrar,
clandestinamente, no Brasil. Pacheco fez-lhe
várias advertências sobre o
risco de voltar e ser novamente preso; mas
ele estava cheio de vontade e desespero.
Finalmente, despediram-se; e despediram-se
pela última vez.
Outro casal que visitou Djalma Maranhão
no exílio de Montevidéu foi
seu ex-auxiliar e companheiro de prisão
Josemá Azevedo com a esposa Joana
d’Arc.
Eles falam da saudade imensa que Djalma
sentia. Nos três dias que passaram
juntos, Djalma procurava disfarçar
a emoção mas se traía
nas indagações sobre os amigos,
os conhecidos e sobre a cidade que amava
muito. Josemá é enfático
e incisivo em afirmar: “Djalma Maranhão
morreu de saudades.”
O mais longo convívio no exílio,
com amigos de Natal, Djalma teve com o médico
Leônidas Ferreira e esposa, quando
o mesmo fazia especialização
no Hospital Pereira Roussel, de Montevidéu.
Leônidas, que era amigo pessoal do
prefeito, com ele dividiu todos os momentos
disponíveis daqueles oito meses.
Em alguns dias em que era obrigado a permanecer
no hospital, Djalma o procurava, quase sempre
angustiado e tenso. Leônidas, dispondo
de carro próprio, levava-o sempre
a passeios para ver o mar. Ele falava do
sonho de voltar ao Brasil e residir na praia
de Ponta Negra.
Como ocupação, Djalma mantinha
uma pequena representação
de revistas e turismo, instalada na casa
comercial de um judeu, com quem fez amizade.
O comércio com revistas não
apresentava lucro real mas lhe impunha uma
obrigação diária.
Permanentemente ávido por notícias
do Brasil e de Natal, inquietava-se quando
não as recebia nos dias previstos.
Mantinha bom relacionamento e constante
convívio com os outros exilados políticos
e com alguns comemorava, em seu pequeno
apartamento, as datas cívicas brasileiras.
Na distância do tempo, Leônidas
analisa a luta intensa que Djalma desenvolvia
para adaptar-se ao exílio sem, portanto,
conseguir vencer a angústia, solidão
e saudade.
Algumas pessoas podem surpreender-se com
a sensibilidade de Djalma Maranhão,
mas, quem o conheceu de fato, quem assistiu
a seus transbordamentos emocionais nos momentos
de luta, de agressividade, generosidade
e afeto para com os amigos, sabe bem que
escondia uma sensibilidade profunda.
Quase sempre só no exílio,
porque a esposa não se adaptava ao
clima de Montevideo, a saudade que sentiu
foi devastadora. A ditadura durou vinte
anos; ele resistiu a apenas seis.
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