Djalma
Maranhão – Memorial Online
Exílio
e Morte no Uruguai
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Djalma
Maranhão – Exílio e
Morte no Uruguai
Um
Encontro com Djalma Maranhão
Geraldo Queiroz
Dispondo
apenas da informação, colhida
a partir de uma reportagem sobre exilados
políticos, de que Djalma Maranhão
estaria residindo nas proximidades do centro
de Montevidéu, o então jornalista
e deputado estadual Geraldo Queiroz, regressando
de uma viagem ao Equador, resolveu testar
seus conhecimentos sobre investigação
jornalística. Era o ano de 1968,
as comunicações eram deficientes
e o Brasil vivia o auge da ditadura militar,
essa foi uma verdadeira missão na
capital do Uruguai que o ex-reitor da UFRN
revela agora com fotos e fatos inéditos,
em depoimento publicado na primeira pessoa.
A missão seria encontrar o ex-prefeito
de Natal, e juntos tentarem achar a resposta
para o grande enigma: "Até quando?"
A saudade de cada cidadão natalense,
uma cidade apaixonada pelo seu prefeito
que lhe ensinara que "De pé
no chão também se aprende
a ler", mostrando o sentido da cooperação,
a força da solidariedade e o poder
das manifestações populares,
impulsionara-lhe a isso. Geraldo Queiroz
contou com a sorte, pois encontrou no meio
do caminho um Cangaceiro. Lá, ele
encontrou o seu direcionamento. Os detalhes
dessa viagem e o reencontro com ex-prefeito,
que "ornamentava" o seu pequeno
apartamento do exílio em Montevidéu
com jornais de Natal, você vai conhecer
agora.
***
Outubro de 1968. Fazia dois meses que estava
em Quito, participando de um curso de aperfeiçoamento
no Centro Internacional de Estudos Superiores
de Jornalismo para a América Latina
(CIESPAL). O curso terminara no dia 11,
era o momento da volta, mas não pretendia
vir imediatamente ao Brasil. Ao contrário
do que fizera na ida, viajando por Belém,
desejava voltar pelo sul do país,
passando pelo Chile, Argentina e Uruguai.
Além de conhecer esses países,
seria uma boa oportunidade para tentar descobrir,
em Montevidéu, o ex-prefeito Djalma
Maranhão. Não dispunha do
seu endereço, mas tinha para me animar
toda a disposição de vê-lo.
Até Buenos Aires viajei em companhia
de Nelly de Camargo, professora da Escola
de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo, colega
de curso no CIESPAL. Para Montevidéu
fiz sozinho o roteiro, no qual incluíra
um encontro com Djalma. Lembrava-me que
antes de sair de Natal lera uma matéria
sobre exilados políticos na revista
REALIDADE, que se reportava ao ex-prefeito
de Natal e informava ser nas proximidades
do centro da cidade o local onde ele vivia
na capital uruguaia. Era o único
dado de que dispunha para começar
minha pesquisa e descobri-lo naquela cidade.
Seria uma boa oportunidade para aplicar
estratégias e técnicas de
investigação estudadas no
curso realizado no Equador.
Cheguei a Montevidéu no final da
tarde. Do táxi que nos conduziu do
aeroporto ao centro, ia vendo a cidade se
descortinar através de avenidas,
ruas e praças, admirando seu traçado
urbanístico, seus tipos humanos.
Nessa primeira visão, a cidade me
parecia familiar. E mais familiar ainda
me pareceu quando em uma de suas avenidas
avistei o restaurante O Cangaceiro. Tive
a imediata sensação de que
ali poderia encontrar novos dados para a
investigação que iria proceder.
Fui ao hotel, guardei a bagagem e, como
se aproximava da hora do jantar, tomei outro
táxi e indiquei ao motorista o destino:
O Cangaceiro.
Minha previsão não falhara.
Ao chegar, me deparo com a figura do ex-Ministro
do Trabalho e Previdência Social do
governo João Goulart, o amazonense
- com raízes familiares no Rio Grande
do Norte - Almino Afonso. Também
no exílio, ele assumia a gerência
daquele restaurante especializado em comida
brasileira. Apresentei-me e após
comunicar-lhe o motivo que havia me levado
até ali, pedi que me informasse,
se dispusesse, o endereço de Djalma
Maranhão. Com toda gentileza, e num
gesto solidário, ele ligou imediatamente,
falou com Djalma e passou o telefone para
que eu o cumprimentasse. Mantivemos uma
rápida conversa e acertamos que no
dia seguinte, pela manhã, eu iria
à sua casa.
Quando cheguei ao apartamento, Djalma já
me esperava na porta. Conduziu-me à
sala, onde uma pilha de revistas e jornais
brasileiros ajudava a compor o ambiente
de sua morada e de seu mundo no Uruguai.
Naquela coleção desalinhada
de periódicos - alguns atuais, outros
não muito - vi todos os jornais de
Natal. Exemplares e mais exemplares, talvez
a grande maioria, naquele monte de notícias
do Brasil. Só não estava lá
o seu Folha da Tarde, atingido como ele
pelo golpe militar de abril de 64, quando
foi desativado. No seu refúgio, o
acesso ao noticiário impresso (ou
radiofônico) era a forma que ele encontrava
de estar mais perto do Brasil, de reduzir
a distância que o separava de Natal,
da família e dos amigos. E de minimizar
a saudade, tão presente, tão
sofrida. Lá fora, os versos de uma
música do compositor uruguaio Daniel
Viglietti davam realce ao cenário,
motivando uma reflexão sobre a América
Latina e o futuro do nosso Brasil:
"Que lejos está mi tierra
y, sin embargo, que cerca…"
Até quando a distância? Até
quando a separação? Até
quando o impedimento de ir e vir? Apesar
de não pronunciadas, eram indagações
presentes a marcar toda a nossa conversa.
Como vinha de Quito, as notícias
que eu trazia do Brasil e sobre Natal talvez
não tivessem a atualidade necessária
aos seus questionamentos. Mesmo assim, ele
demonstrava atenção a tudo.
Perguntou sobre Roberto Furtado, seu Secretário
de Finanças na Prefeitura de Natal,
à época companheiro nosso
na Assembléia Legislativa do Rio
Grande do Norte, onde exercíamos
o mandato de Deputado Estadual pelo MDB
(Movimento Democrático Brasileiro).
Roberto era nosso líder na bancada
oposicionista, uma minúscula bancada
que - diziam - cabia num fusquinha. Numa
assembléia de 40 deputados, onde
37 pertenciam à ARENA, dividindo-se
entre as cores verde e vermelha da política
local, éramos ainda conhecidos naquele
período legislativo - 1966 a 1970
- como os três mosqueteiros. Pedro
Lucena Dias completava o trio.
Perguntou por Carlos Lima, seu Assessor
de Imprensa na prefeitura, nosso colega
na então Faculdade de Jornalismo
Eloy de Souza, atingido também pelo
golpe militar de 1964 e impedido, por isso,
de concluir conosco na primeira turma formada
pela faculdade em 1965. Penalizado com mais
de dez meses de prisão, onde foi
companheiro de Djalma mais uma vez, somente
no ano seguinte pôde concluir o curso
de jornalismo. Depois dos traumas que o
golpe lhe provocara, Carlos começava
em Natal uma inovadora experiência
de trabalho no campo gráfico-editorial,
que terminou dando-lhe reconhecimento anos
depois, como editor de importantes trabalhos
sobre a realidade e a cultura do Rio Grande
do Norte. Sobre a sua experiência
na Folha da Tarde, certa vez o vi afirmar:
"foi ali que começou a minha
amizade com Djalma Maranhão... Djalma
era um jornalista de mão cheia; foi
ele quem mais me ensinou sobre jornalismo".
A conversa ia longe, já passava de
meio-dia, quando Djalma sugeriu irmos à
feira de Tristán Narvaja ali perto.
Realizada aos domingos, ele sempre a visitava.
Talvez a semelhança com a nossa feira
do Alecrim fazia deste um dos seus programas
favoritos.
Em geral, as feiras exercem um grande fascínio
sobre as pessoas. O número de transeuntes,
as cores, os tipos exóticos, os pregões,
a variedade de ofertas, a diversidade de
opções, o convite ao diálogo,
tudo faz da feira um espaço de possibilidades.
Não apenas de compra e venda, de
consumo; mas de compartilhamento, de encontro,
de vida. Assim, Tristán Narvaja talvez
significasse para Djalma a possibilidade
de rememorar os tipos e as manifestações
populares com os quais tanto se identificava.
E romper a distância e a separação,
como nos versos do poeta uruguaio:
"Yo quiero romper mi mapa
formar el mapa de todos
mestizos, negros y blancos
trazarlo codo con codo".
Na prática, seu trabalho na Prefeitura
de Natal, que tinha como alicerce a participação
da população, caminhara nessa
perspectiva, mostrando com os seus resultados
a força da solidariedade e o poder
da cooperação.
Após o almoço, ainda caminhamos
um pouco e nos despedimos. Uma pergunta
ficava conosco, sem resposta. Até
quando o exílio?
Voltei ao hotel com duas encomendas enviadas
por Djalma. Uma para Dona Dária,
sua esposa, e um bilhete para Afonso Laurentino
Ramos, então secretário da
Associação Norte-rio-grandense
de Imprensa, entregues logo que cheguei
a Natal.
Dois meses depois, no dia 13 de dezembro,
o Presidente Costa e Silva decretava o Ato
Institucional n°. 5, considerado o mais
cruel dos atos estabelecidos pelo governo
militar. Com ele e com as ações
que o sucederam se escancarava o caráter
ditatorial do regime.
Com mais dificuldade de se prever e arriscar
qualquer resposta, ficava no ar a pergunta.
Até quando?
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