Djalma
Maranhão – Memorial Online
Exílio
e Morte no Uruguai
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Djalma
Maranhão – Exílio e
Morte no Uruguai
Djalma
Maranhão, Morte e Paixão
Celso da Silveira
Para
atender a um convênio com a Prefeitura
Municipal de Natal, o Instituto de Pesquisas
Sociais Juvenal Lamartine, da Fundação
José Augusto, me solicitou um depoimento
sobre o homem público Djalma Maranhão,
que foi prefeito de Natal de fevereiro de
1956 a dezembro de 1958 (nomeado pelo governador)
e de novembro de 1960 a 2 de março
de 1964 (prefeito eleito). Deposto pela
Revolução de 31-03-64, foi
preso e deportado para Fernando de Noronha.
Djalma Maranhão
Eis
a seguir o que posso afirmar com certeza,
por conhecimento próprio, porque
fui seu auxiliar na administração,
servindo nos cargos de chefe de Gabinete,
diretor da Fiscalização, diretor
do Ensino (ele instalou o Ginásio
Municipal João XXIII e a Escola Municipal
de Comércio), diretor da Secretaria
de Negócios Internos e Jurídicos,
oficial de Gabinete, diarista de obras e
assessor de divulgação, além
de permanente e assíduo companheiro
em suas vilegiaturas diárias a todos
os pontos da cidade.
Djalma
Maranhão foi um apaixonado pela sua
Cidade do Natal. Foi esse grande amor maior
que lhe deu inspiração para
superar a si mesmo como administrador.
Com
recursos limitados patenteou o pioneirismo
administrativo em vários setores:
introduziu o ensino não convencional
com programa “De Pé no Chão
Também se Aprende a Ler” (cujo
nome surgiu por acaso, dentro do seu Gabinete,
quando se discutia a estrutura e o modus
faciendi das escolinhas, por palpite do
jornalista Expedito Silva, que trabalhava
no jornal de Djalma (Folha da Tarde).
Restaurou
as manifestações da cultura
popular, prestigiando os folguedos tradicionais
e foi o doador do terreno da sede da Sociedade
Araruna de Danças Antigas nas Rocas,
cuja solenidade de lançamento da
pedra fundamental eu o representei.
Construiu
a Concha Acústica, a Galeria de Arte
e a Biblioteca Pública, que funcionaram
na Praça André de Albuquerque;
estimulou o teatro popular fazendo encenar
na mesma praça o Auto da Cidade do
Natal (cantorias de Frei Marcelino de Santana,
do Convento Santo. Antônio).
No
elenco estavam Edson Lyra, Wilson Maux e
eu. Deu ênfase à cultura, realizando
feiras de livros, congressos de escritores,
instalando a Diretoria de Documentação
e Cultura, por onde se aposentou como Diretor.
Quando
Natal ia só até a Av. Alexandrino
de Alencar, ele já estendia a ação
da Prefeitura à periferia, ajudando
a instalação da Clínica
Pedagógica Heitor Carrilho e, depois
instituindo a Semana do Excepcional, através
de decreto.
Criou
a Sociedade Amigos dos Bairros (seria o
precursor dos atuais Conselhos Comunitários).
O primeiro asfalto lançado numa rua
da cidade foi em sua administração.
Restaurou praças, dotando-as de fontes
luminosas (muito antes de Jayme Lerner dotar
Curitiba deste equipamento). Foram seus
os primeiros passos para a construção
do Machadão e a ele se deve o primeiro
ginásio coberto - o Palácio
dos Esportes Djalma Maranhão, e o
primeiro Terminal Rodoviário da cidade
no bairro da Ribeira.
Djalma
Maranhão
Fez
as galerias pluviais da Av. Afonso Pena,
construiu os primeiros metros de muro de
arrimo da Avenida do Contorno. Começou
o revestimento à pedra do Canal do
Baldo e deu início à Via Costeira,
criando um acesso à Praia de Miami
(final de Areia Preta). Deu todo o apoio
à formação do Horto
Florestal e criou as primeiras hortas municipais.
Como ‘ecologista’ (não
havia essa nomenclatura) encetou a campanha‘Um
coqueiro em cada casa’, incentivando
o plantio de árvores pela população.
Foi
Djalma Maranhão que, com sua criatividade,
botou na rua um trator com caçambas
atreladas, para coletar o lixo, antes dos
carros kukas e dos basculantes.
Criou
o Coral da Cidade do Natal - 1º do
gênero aqui surgido (regência
do maestro Garibaldi Romano). Criou o serviço
de documentação, que foi o
embrião de um museu da cidade, onde
locou um acervo numeroso de peças
de Chico Santeiro (o artesão era
visitado freqüentemente por Djalma
Maranhão em sua casa de Areia Preta
e foi Djalma que construiu e doou uma casa
ao saudoso Chico). Prestigiou Zé
Menininho (sanfoneiro, autor da música
‘Caixão de Gás’)
e Caldas Moreira, que dominava os arraiás
folclóricos da cidade com pastoris,
bambelôs (os mais famosos eram o de
Guedes e o de Calixto) e cuidou do Ciclo
Natalino, instituindo concursos de vitrine,
melhor árvore de Natal, além
de exibição em palanques de
Bumba-Meu-Boi, Congos de saiotes e de calçolas
e a famosa Festa de Iemanjá, com
a participação dos terreiros
de umbanda. No São João ia
a todas as quadrilhas.
Comparecia
à da Vila Teixeira (a mais famosa
da época) e as das ruas Antônio
China, Aristides Lobo e Clóvis Beviláqua,
em Lagoa Seca, onde ia dançar no
meio do povo. Prestigiava o Carnaval, realizando
bailes populares (no Teatro Carlos Gomes,
depois no Palácio dos Esportes),
acompanhando o Rei Morno (Paulo Maux, Severino
Galvão, Luizinho e Zé Areia),
organizando comissões julgadoras
e a Federação Carnavalesca
(Joaquim Victor de Holanda foi um dos mais
atuantes presidentes com a sua experiência
de ex-presidente do Brasil Clube) e comparecendo
ao Baile dos Cronistas Carnavalescos (ex-presidente:
eu, Berilo Wanderley, Benivaldo Azevedo,
indo ao palanque para ver o desfile de índios,
escolas de samba, sociedades Jardim de Infância,
Os Cafajestes, Sputnik).
Todos
os anos ia à Taba dos Guaranis beber
‘cauim’ com o Cacique Bum-Bum.
No seu Gabinete da Prefeitura se fundou
a Associação dos Cronistas
Carnavalescos, comigo, Berilo, Woden, Adalberto,
Chagas, Paulinho Oliveira, Serquiz Farkatt,
Benivaldo Azevedo, Expedito Silva, a quem
cabia escolher a Rainha do Carnaval (Socorro
Gurgel, ex-miss RN foi uma delas) e realizar
o Baile dos Cronistas, no aeroclube, todos
os anos, sendo esta festa a abertura oficial
da temporada carnavalesca da cidade.
Sua
presença se fazia sempre ativa nas
Cheganças, Fandangos (apresentados
nas Festas dos Santos Reis, na Limpa), Bambelôs,
Pastoris, Danças Antigas (Araruna,
Jararaca, Caranguejo). Resgatou o Forte
dos Reis Magos, relegado ao abandono, realizando
um festival com a presença do beneditino
D. Nigris, especialista de histórias
das fortificações portuguesas
no Brasil, e Câmara Cascudo.
Nesses
eventos havia sempre a presença de
alguém com renome nacional, como
Jorge Amado, Eneida Morais, José
Condé, Ênio da Silveira, Dinah
Silveira de Queiroz, Waldemar Cavalcanti,
Milton Pedroza, Ascenço Ferreira,
Mauro Motta, Marli Motta, Waldemar de Oliveira,
teatrólogo Isaac Gondim Filho e vários
outros.
Seu
pioneirismo se manifestou em todas as frentes:
realizou o Festival da Lagoa Manoel Felipe,
iniciou o teatrinho do Alecrim, instalou
o primeiro telefone público, no bairro
das Rocas, largo da feira; abriu uma Feira
de Livros na Praça Kennedy, então
Praça da Imprensa, e reuniu cantores
de viola num Festival de Violeiros, no Teatro
Alberto Maranhão, no qual o violeiro
José de Souza, adolescente, estreou
com 17 anos de idade. Em sua administração
surgiram os bairros Alto da Aparecida, atual
Mãe Luíza, e Brasília
Teimosa, que tomou o lugar de um loteamento
que o prefeito tinha marcado e foi proibido
pela Lei de Servidão do Forte. Também
é do seu tempo, as demarches para
construção do Cemitério
Bom Pastor, do Canal e Centro Comercial
das Rocas, acesso à igrejinha do
bairro.
Foi
ele quem restaurou o policiamento ostensivo
denominado Guarda Montada Joca do Pará,
cujas armas - espadas e lanças acham-se
no almoxarifado da PMN, algumas ornamentando
o Gabinete do prefeito. Prestigiou pintores,
poetas, seresteiros, folcloristas, cantores
da velha guarda e associações
de estudantes - Centro Estudantil (presidido
pelo jornalista Serquiz Farkatt) e a Associação
Norte-rio-grandense de Estudantes (presidida
por Érico de Souza Hackradt).
Djalma
Maranhão foi um homem múltiplo
e sempre presente.
Como
político foi deputado estadual e
como tal, autor do projeto de autonomia
política da capital (no seu Gabinete
havia uma placa com os dizeres: "Aqui
vencemos a batalha da autonomia").
Depois de deputado e prefeito eleito, foi
deputado federal, com reconhecida atuação
nacionalista, tendo abordado, em seus discursos
parlamentares, questões do algodão,
pesca, sal, minérios e da invasão
das multinacionais na economia brasileira.
Fez
campanha, ao lado de Edna Lott, pela eleição
do general Henrique Dufles Teixeira Lott,
ex-ministro da Guerra do conterrâneo
e correligionário Café Filho,
que sucedeu Getúlio Vargas na presidência
da República.
Teve
posições patrióticas
na votação do caso do Vidro
Plano, que foi um dos grandes escândalos
deste país na época. Ele votou
contra o monopólio do Vidro Plano
que se queria entregar ao então deputado-empresário
e multimilionário Sebastião
Paes de Almeida, representante de Minas
Gerais (o projeto visava colocar nas mãos
do deputado mineiro o monopólio do
fornecimento de vidros para construção
de Brasília, o que levantou suspeitas
de uma negociata memorável). Neste
caso, Djalma rejeitou uma proposta de suborno
por alta quantia que lhe foi oferecida por
intermédio de um parlamentar potiguar,
no apartamento do Rex Hotel, onde se hospedava
no Rio de Janeiro, episódio que testemunhei
e sei a quantia oferecida, o mandante e
o ofertante (que por sinal ainda é
vivo e atuante na política do Estado).
Como
jornalista, DM era virulento, corajoso.
Foi diretor do Jornal de Natal, fundado
por João Café Filho, e da
Folha da Tarde e um dos fundadores do Diário
de Natal. No jornalismo e no corpo-a-corpo
era combativo e forte, pois fora lutador
de boxe e professor de educação
física do velho Atheneu Norte-Rio-grandense.
Como boxeur foi o segundo no ranking estadual,
só perdendo para Manu Celestino,
do Açu, que lhe quebrou o pau da
venta numa luta no Cine Teatro Pedro Amorim,
naquela cidade. Ficaram célebres
suas brigas corporais com Romildo Gurgel
e Erivan França e sua rusga com D.
Eugênio Sales, arcebispo metropolitano.
Não
posso deixar de registrar que foi no Rex
Hotel que DM me apresentou ao seu amigo
Aparício Torelli - o Barão
de Itararé - antigo diretor do jornal
humorístico A Manhã, que já
não existia ao tempo do meu conhecimento
com ele.
Djalma
Maranhão sempre fez as coisas com
paixão pelas coisas. Foi sempre mais
um amador, do que um profissional. Fazia,
pelo gosto de fazer. Não pensava
em glória, nem em ficar na história,
para a qual entraria no futuro, sem favor
nenhum. Era um voluntarioso, quando se convencia
da sua verdade. Nunca se submeteu ao poder
autoritário de ninguém.
Sem
canivete no bolso, sem sequer uma espátula
dessas de abrir folhas de livros, teve coragem
de desafiar o comando geral da Revolução
de 64, instalando o seu QG da Resistência
na Prefeitura, e disso deu ciência
ao coronel Mendonça Lima, que substituía
o general Omar Emir, comandante da ID7 e
Guarnição de Natal, no momento
gozando férias.
Pode
ter sido um clown chapliniano, mas nunca
um funâmbulo. Resistir, resistiu.
Resistiu como pôde: não se
acovardando, não aderindo, não
abrindo as pernas.
Morreu
no exílio, sustentando o estandarte
de suas bandeiras.
Morreu
de muito sofrer, de saudades, não
de outros padecimentos.
Nisso
ele converteu a sua cidade - em sua paixão
e morte.
Publicado
na Revista do Instituto Histórico
e Geográfico do Rio Grande do Norte,
Volume LXXXVII, Anos1994-95-96, Natal-RN,
2001, págs. 19-23.
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