
Depois
da Ira
Cristovam
Buarque
Professor
da UnB, ex-governador do DD, pelo PT.
Autor
do livro Admirável Mundo Atual.
Artigo
publicado em O Globo de 08 de outubro de 2001
Em
?????t??????º?? Dezembro de 1941, os EUA foram tomados por uma espantosa e justa
ira contra os japoneses, que atacaram a base militar de Peari
Harbor. Ira que se repete hoje, nem menor nem menos justificável,
agora causada por um grupo de terroristas que assassinou milhares
de pessoas, a maior parte norte-americanos, em Nova York.
A
ira provocada por aquele ataque precipitou a entrada dos EUA na
guerra, e foi causa das explosões de duas bombas atômicas que
mataram centenas de milhares de japoneses e até da ocupação
política e militar do Japão. Mas, passada a ira, os EUA ajudaram
o Japão a se recuperar, o povo japonês demonstrou sua capacidade
de recuperação, tornando-se um forte aliado dos norte-americanos
na construção da globalização.
O
terror em Nova York ainda vai continuar provocando muita ira nos
BUA e no resto do mundo. Com o apoio de muitos governos, os EUA vão
fazer uma guerra contra os terroristas e o governo dos talibãs.
Passadas as ações militares e jurídicas, certamente haverá
um novo mundo depois da ira. E ele poderá ser pior ou melhor do
que é agora.
Será
pior se os atos terroristas provocarem ou forem
usados para justificar estados autoritários. Será
uma grande ironia se, depois de 50 anos de guerra
fria contra o modo soviético de intervenção do
estado na sociedade, tivermos semelhante atuação
do estado capitalista. Será, também, um mundo
pior se houver uma consolidação dos preconceitos
contra os estrangeiros. Seria outra grande ironia
que no momento da globalização do mundo, os países
ricos caminhassem para a xenofobia contra os povos
pobres, especialmente árabes e muçulmanos.
No
entanto, o mundo poderá ser melhor se os ricos entenderem que não
vale a pena recorrer novamente aos regimes autoritários, nem
quebrar o entrelaçamento mundial construído nas últimas duas décadas
e, no lugar de financiar o isolamento, investirem na integração
social. Seria um mundo melhor depois da ira, se a população rica
e assustada do mundo perceber que ela também tem a ganhar com um
programa pela erradicação do terror social no mundo inteiro. E
se a guerra for declarada contra todo tipo de terror: daquele que
soterra inocentes nos escombros de prédios norte-americanos e do
que soterra inocentes nos escombros da pobreza no resto do mundo.
O mundo será melhor se a riqueza usada para atacar terroristas
escondidos nas montanhas do Afeganistão for usada também para
atacar a miséria nas savanas africanas.
Meio
século atrás, terminada uma dura guerra contra
o nazismo e o fascismo, depois da ira, os EUA
executaram o Plano Marshall de reconstrução da
Europa. Em poucos anos, 17 países europeus saíram
dos escombros e se fizeram fortes e ricos, Os
EUA foram vistos não apenas como vitoriosos militares
de uma guerra, mas também na posição de liderança
na luta pela erradicação da pobreza na Europa.
Naquele momento isso foi feito em razão da estratégia
de brecar o avanço do comunismo que caminhava
sobre o terreno fértil da pobreza, da falta de
esperança e de mística.
É
possível que a possibilidade do comunismo esteja superada no
futuro imediato, mas nada mudou no que se refere á pobreza, à
exclusão, à discriminação, ao desemprego, à falta esperança
e mística para a juventude. Tudo isso seria um solo fértil
para uma utopia, mas também, enquanto não surge essa utopia,
pode ser o terreno propício para a propagação de movimentos
terroristas desesperados.
Diante
dos EUA e das demais lideranças mundiais está
o desafio de escolher o que fazer depois da ira:
assumir como definitiva a desigualdade e a exclusão
no mundo, implantar a apartação mundial protegendo
os ricos com mecanismos crescentemente mais fortes
de repressão e segregação política e social;
ou criar mecanismos sociais que façam a globalização
sem exclusão, garantindo a todos os habitantes
do mundo acesso à alimentação, à educação, à
saúde e à moradia com água própria para consumo,
coleta de lixo e esgoto.
A
primeira alternativa é tecnicamente possível, mas eticamente
vergonhosa. A segunda é eticamente correta e tecnicamente possível.
Os EUA gastaram US$ 100 bilhões nos investimentos europeus do
Plano Marshall, em termos de dólares atuais, mais do que seria
necessário investirem agora em um programa internacional que
cuidasse de todas as crianças pobres do mundo, alimentando,
educando, tratando e construindo cidadãos de um mundo melhor,
depois da ira natural que hoje é sentida.
Pena
que as escolhas aparentemente não serão feitas por estadistas
capazes de convencer o povo a fazer escolhas sem ira, olhando o
longo prazo e as vantagens da solidariedade, parece que serão
feitas por políticos mais preocupados com a próxima eleição
do que com a próxima geração, acostumados a manipular a opinião
pública, inclusive sua ira, para ganhar votos. E esses votos
tendem mais facilmente para o pensar de curto prazo e para a
glorificação da ira. Por isso, a ira do povo pode durar mais
tempo, a serviço de políticos sem visão nem compromisso futuro
e menos ainda com a humanidade.
Talvez,
o verdadeiro terror não esteja dentro de aviões
carregados de combustível, mas dentro de nós,
incapazes de administrar com ética e estadismo
a monumental força técnica da civilização que
adquirimos ao longo do século XX. Civilização
cheia de maravilhas da técnica e de horrendas
desigualdades sociais, habitada por terroristas
fanáticos manipulando a mágoa dos povos pobres
e por políticos deslumbrados com a ira dos povos
ricos, lideres com as armas modernas e maldade
antiga - em suas mãos, bombas atômicas e em seus
corações, pesquisas de opinião.
Talvez
o depois da ira esteja muito longe. E talvez venhamos a ter
saudades dela. A única certeza é a de que não sabemos ainda
como será o mundo depois da ira.
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