
QUE
FIZESTE DA VIDA, TRISTÃO?
AMEI
— Tive filhos e netos — Escrevi livros — Fui professor —
Tive amigos e inimigos — Rezei — Já tive pior memória e
vista melhor do que hoje — Aprendi, nos Estados Unidos, a ajudar
minha mulher nos serviços domésticos — Atravessei a nado da
Urca ao Morro da Viúva — Conversei 10 horas seguidas com
Maritain — Fui amigo do Cardeal Leme, Jackson de Fiqueiredo e
Wagner Dutra — Gostei de andar à pé — Detestei ouvir rádio
— Escrevo a lápis — Gostei muito de música— Não fumei —
Só usei gravata preta — Adorei a Deus — Pequei — Visitei várias
vezes a Europa — Fui professor nos Estados Unidos — Tive
remorsos — Fui crítico literário — Ensinei da Sorbonne —
Detestei meus tempos de ginásio — Estudei música com Alberto
Nepomuceno — Levarei para o túmulo um vício inveterado que, em
jovem, me fez abandonar a advocacia: não faço uma afirmação
sem sentir logo o protesto abafado das negações que ela implica
— Fui sempre um aluno medíocre — Nunca fui profissional de
nada — Sentei-me, provavelmente, ao lado de Péguy nos cursos de
Bergson em 1913 e 1914, sem o saber — A grande e a grata
surpresa da vida: os homens são melhores do que pensamos —
Guiei automóvel de Quebec à capital do México — Mas hesitei
dois meses em guiar no Rio — Entreguei pessoalmente meu livro Mensagem
de Roma ao Papa — Nunca conversei com meu barbeiro —
Discuti com Bernanos — Conversei 3 horas com Thomas Merton —
Atravessei os Andes a cavalo — Fui presidente da Ação Católica
— Nunca estive em escola primária — Recebi as primeiras
letras de minha mãe e desse coxo João Kopke, o maior educador
brasileiro — A virtude que mais admiro é a naturalidade — O vício
que mais detesto, o farisaísmo — Desde os três anos tenho
horror às roupas apertadas — De tudo quanto tenho escrito só
reli, com prazer, a evocação da casa em que nasci — Considero
a crítica uma experiência pendular entre a grande dignidade e a
grande vaidade literária — À medida que nos aproximamos do fim
da vida, fatalmente temos de escolher entre a humildade e a
estupidez — Faço este ano sessenta anos. Que surpresa e,
olhando para trás, que deserto — Morrerei quando Deus quiser.
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