
A DIMENSÃO E A FÚRIA
DA
VIOLÊNCIA MAPEADA
Itaércio
Porpino
Natal sediará,
nesta terça-feira, o Seminário que discutirá o Projeto do Plano
Nacional de Direitos Humanos, que está sendo coordenado pelo
professor Associado do Departamento de Ciência Política e
diretor do Núcleo de Estudos da Violência da USP, Paulo Sérgio
Pinheiro.
A exemplo de
outro encontros realizados no ano passado, no caso, em São Paulo
e Rio de Janeiro, para se discutir a violação dos Direitos
Humanos nesses dois centros, o Seminário, que acontece na Assembléia
Legislativa a partir de 8h30 da manhã, reunirá entidades e
grupos ligados aos Movimentos de Direitos Humanos e Ação Popular
de todo o Rio Grande do Norte e de outros Estados do Nordeste.
O Caderno de
Encartes conversou, na terça-feira passada, com Luiz Gonzaga, 45,
do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular do RN, que está
organizando o Seminário.
Luiz Gonzaga
explicou que a idéia de trazer para Natal esse seminário surgiu
no ano passado quando o Centro de Direitos Humanos e Memória
Popular participava de uma oficina realizada em Recife, em
dezembro de 95. “Nós sugerimos ao professor Paulo Sérgio
Pinheiro que a discussão que estava acontecendo no Rio de janeiro
e São Paulo, fosse feita a nível de Nordeste e pedimos que ela
fosse trazida para cá, onde outras entidades de Direitos Humanos
e também de Movimentos Populares pudessem participar, colocando
os principais problemas da região”, diz ele.
Luiz Gonzaga
conta que a idéia é que as entidades falem pela sua região.
Exponham as dificuldades em relação à questão fundiária, da
discriminação da mulher, das minorias, das crianças e
adolescentes, enfim, que se coloquem os principais problemas e
sugestões em relação ao que diz respeito a violação dos
Direitos Humanos no Estado e no Nordeste. Ele lembra que o Brasil
é, atualmente, um dos campeões em desrespeito aos Direitos
Humanos.
“Há muito
tempo que as entidades de Direitos Humanos do Brasil vêm
martelando em cima do autoritarismo do Estado em relação aos
direitos das pessoas, principalmente daquelas que pertencem às
camadas menos favorecidas da sociedade, que sofrem ainda mais pela
falta de informação”, relata.
Ele conta que a
origem desse Plano Nacional de Direitos Humanos se deu pela pressão
que o Governo brasileiro vem sofrendo, principalmente a partir do
ano passado por causa da crescente violência institucional contra
a população.
“O Governo
Fernando Henrique Cardoso, nas andanças por outros países,
sofreu muitas pressões de organismos internacionais como a
Anistia Internacional e a Corte Interamericana dos Direitos
Humanos, entre outros, que começaram a fazer pressão em vista da
violência que era exposta lá fora”.
E prossegue: “A
cobrança foi muito grande, o que obrigou o Governo a encomendar
ao Ministério da Justiça em Plano sobre a questão dos Direitos
Humanos no Brasil, que é o que estaremos discutindo amanhã. Então
o Ministério da Justiça, em reunião, solicitou formalmente à
Universidade de São Paulo, USP, através do Núcleo de Estudos da
Violência, NEV, coordenado pelo Professor Paulo Sérgio Pinheiro,
que ficasse responsável pelo projeto.
Para esse
encontro em Natal, que servirá para serem expostos os principais
problemas da violência contra os Direitos Humanos no Estado e
Nordeste, estarão presentes o Conselho Estadual de Direitos da
Pessoa, da Paraíba; a Comissão de Direitos Humanos, do Ceará; o
Centro de Defesa dos Direitos Humanos, da Arquidiocese de
Fortaleza; o Gabinete de Assessoria Jurídica Organizações
Populares, de Recife, que coordenou a oficina em Recife no ano
passado, entre outras.
“O Centro de
Direitos Humanos e Memória Popular vai coordenar o encontro e
apresentar a parte que toca na Segurança Pública e Violência
Institucional no Estado. Eu vejo de grande importância esses
Movimentos Sociais e Movimentos de Direitos Humanos no sentido de
buscar um controle do Estado. Por que não é o Estado que deve
controlar a sociedade, como tem sido nos 500 anos de história do
Brasil, mas sim, a sociedade é que tem que controlar o Estado”,
coloca Luiz Gonzaga.
Ele diz que o
Centro de Direitos Humanos e Memória Popular do RN vai apresentar
propostas e entregar um projeto na área de Segurança Pública e
Violência Institucional, pegando como tema a Chacina de Mãe
Luiza, que completou em 5 de março um ano.
“Nós do Centro
de Direitos Humanos é quem denunciamos e descobrimos a existência
de um grupo de extermínio dentro da Secretaria Pública do
Estado. São 40 homicídios, segundo depoimentos de testemunhos,
praticados por essa polícia. Tudo isso vai ser colocado amanhã,
além de outras discussões como a impunidade para policiais que
é uma coisa também muito séria aqui no Estado”, concluiu Luiz
Gonzaga.
Jornal
de Natal – Caderno de Encartes – 1ª Pág. – 18.03.1996
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