
Ética, Pessoa e Sociedade
APRESENTAÇÃO
O
documento "Ética: Pessoa e Sociedade", objeto de sucessivas
redações, foi discutido e aprovado pela 31' Assembléia Geral
da CNBB como inadiável tomada de posição e proposta de diálogo.
Ele expressa posicionamentos fundamentais da Igreja Católica
no amplo debate que vai hoje tomando corpo no sentido de resgatar
os valores éticos em todos os níveis da vida nacional.
O
tema da ética, na vida pessoal e na sociedade, pertence a todos.
Sua importância e amplidão questionam todos os cristãos e pessoas
de boa vontade, bem como as instituições e organizaçôes da sociedade
civil.
A
Assembléia Geral da CNBB oferece sua reflexâo e permanece aberta
a toda colaboração que lhe possibilite precisar melhor ou enriquecer
o presente texto.
Itaici,
6 de maio de 1993
+
Luciano Mendes de Almeida
+
Serafim Fernandes de Araújo
+
Antônio Celso de Queiroz
1.
Nós, Bispos da Igreja Católica do Brasil, reunidos na 31a
Assembléia Geral, queremos manifestar nossa solidariedade
com tantas pessoas que "têm fome e sede de justiça"
(Ml 5,6) e procuram corajosamente ser fiéis aos valores humanos
e evangélicos, mas sofrem pela crise ética da nossa sociedade.
Os sinais desta crise são evidentes, e a opinião pública os
aponta. Falta honradez na vida política, profissional e particular.
Impressionantes são os níveis de violência, discriminação social,
abuso do poder, corrupção, permissivismo, cinismo e impunidade.
Chega-se à deformação das consciências, que aceitam como "normal"
ou "inevitável" o que não tem nenhuma justificativa
ética.
2.
Em nosso nome de pastores e em nome de todos que se angustiam
com a crise ética atual, apresentamos este documento para incentivar
a busca de novos padrôes éticos, que levem a comportamentos
moralmente corretos e socialmente construtivos, e para trazer
a contribuição da ética cristã, em consonância com o Magistério
da Igreja universal, para uma renovação da consciência pessoal
e pública.
3.
Sem a superação da crise ética, as atuais mudanças sociais e
culturais não poderão conduzir a uma sociedade justa e digna.
Ao contrário, poderá haver uma ulterior degradação das relações
sociais e um aumento da injustiça, da violência e da insensatez.
4.
Por isso, esta reflexão, sem fugir de um posicionamento sobre
alguns problemas mais urgentes (parte I, pretende abordar a
questão com amplitude, buscando indicar, após uma introdução
(I), as raízes da crise (II) e os caminhos de sua superação
(III).
I
- CAMINHOS DA ÉTICA 1 - A origem
5.
O termo ética, com o qual indicamos a reflexâo ou o saber sobre
o "ethos", tem origem grega. Aristóteles, que o introduziu
na filosofia ocidental, julgava desnecessário demonstrar a existência
do "ethos". Ela é evidente. O ser se manifesta não
apenas na natureza, mas também na ação ou práxis humana: no
ethos - hábitos, costumes, instituições - produzidos pela sociedade.
O "ethos" se refere à "morada" e à organização
de um povo ou de toda a sociedade.
6.
Diferentemente da natureza, caracterizada pela necessidade e
pela repetição do mesmo, o "ethos" é espaço de liberdade,
de diferença. Na concepção clássica, depois assumida pelo cristianismo,
a liberdade não é meramente subjetiva. Toda pessoa humana busca
sua felicidade. Não apenas Aristóteles e outros pensadores antigos,
mas também o Salmista o reconheciam:
"Qual
o homem que não ama sua vida, procurando ser feliz todos os
dias ?" (SI 34,13).
7.
A felicidade nâo consiste apenas em fazer o próprio gosto, arbitrariamente,
mas em buscar a própria realização; logo, o que é bom, o que
é conforme à natureza humana. Como o indivíduo pode discernir
o que é bom, o que o tornará verdadeiramente feliz? Num primeiro
momento, é o próprio "ethos" da sociedade em que vive
(seus
costumes, suas leis, suas instituições) que aponta o que
é "bom".
8.
Isto é verdade especialmente da cidade grega, que pensava
suas leis como expressão da natureza e da ordem cósmica; portanto,
como encarnação da justiça. Também o antigo Israel estava convencido
de que suas leis e instituições eram justas por essência, pois
tinham como fundamento a santidade de Deus. Na Idade Média cristã,
pensamento grego e pensamento bïtlico convergem na convicção
de que o Criador do mundo é também Aquele que ordena, mediante
as leis morais, a convivência humana. Em muitas outras civilizações
e tradições religiosas, predomina uma concepção semelhante,
que dá fundamento religioso ao "ethos" e às instituições
sociais e políticas que o exprimem.
9.
Por outro lado, não escapa a ninguém que as instituições humanas
podem evoluir ou decair. Podem expressar uma visão insuficiente
ou falha da realização humana; podem ser reformadas em nome
de uma nova "ética", ou seja, de valores mais elevados
e dos direitos/deveres correspondentes.
10.
Já os gregos tinham consciência de que, para além dos costumes
da sociedade e de suas leis escritas, havia uma "lei"
não escrita, eterna, ideal, que poderia exigir a transgressão
ou a reforma das leis humanas. Antígona, na tragédia
do mesmo nome, rejeita a ordem do rei Creon: "Não pensei
que tua proibição fosse suficientemente forte para permitir
que um mortal transgredisse as leis não escritas, inabaláveis,
dos deuses. Essas não são datáveis, nem de hoje,
nem de ontem, e ninguém sabe quando
apareceram...:'.
Os cristãos afirmaram ainda com mais vigor a mesma convicção:
"É preciso obedecer antes a Deus do que aos homens"
(At 5,29). E por ela resistiram até ao martírio.
11.
Mas como discernir esta "lei" divina? Por que resistir
à opinião comum e às leis do Estado? O próprio Sócrates recusara
fugir da prisão por respeito às leis da sua cidade, as quais
lhe tinham dado a vida (of. Platão, Críton). A pessoa humana
é dotada de razão e consciência. É isto que lhe permite discernir
o que é verdadeiramente bom e justo. A filosofia antiga e a
tradição cristã ensinam que a consciência distingue o justo
e o injusto e que a pessoa só se realiza na "pólis",
na ordem social.
12.
A questão, porém, nâo é tão simples. Entre a concepção grega
e a visão cristã já existe uma tensão. Para os gregos, se a
pessoa humana conhece o bem, tende a fazêlo. Um forte realismo
domina o pensamento cristão sobre a natureza humana, desde Paulo
(of. Rm 7,19: "não faço 0 bem que quero, mas pratico o
mal que não quero"). O mal não é, contudo, a última palavra,
pois prevalecem a graça e a liberdade dos filhos de Deus (of.
Rm 5,20; Gl 5,1).
2
- Os avanços
13.
O caminho da ética na civilização ocidental e nos primeiros
séculos cristãos conheceu desdobramentos que convém ressaltar:
a
- O primeiro é que a dimensão ética é a dimensão propriamente
humana da existência. A pessoa humana
não
vive sem a natureza, nem sem o trabalho e a técnica, com que
configura a seus fins a matéria. Mas é no agir livre, em busca
de sua realização pessoal e social, que o ser humano expressa
o que Ihe é próprio e exclusivo, o que constitui sua dignidade
e o sentido de sua vida.
14.
b - Toda cultura é permeada pela dimensão ética. Disso resulta
evidente que a práxis humana não se limita a reproduzir a natureza,
ou a produzir obras e comportamentos "naturais", mas
cria valores e símbolos. Neles a humanidade expressa não apenas
o que é, mas o que deve ser.
15.
c - A dimensão ética da cultura, sempre presente, tem sido explicitada
e formulada de várias maneiras. Entre as mais antigas expressões
da ética estão o mito e a crença. Recolhem as evidências éticas
de um povo, sua tradição e sabedoria de vida, e as recobrem
do prestígio do sagrado, de um poder divino legislador e julgador,
que garante a objetividade e a força das normas. Todos os povos
expressam, de alguma forma, sua concepção ética e é certamente
a religião a forma mais comum e de maior autoridade, que legitima
e conserva o "ethos".
16.
d - A ética, contudo, caminhou para a autonomia, distinguindo-se
do religioso e do sagrado, especialmente na época moderna. Este
processo de secularização representou uma grave crise da ética
tradicional, ainda não resolvida.
17.
e - Este esforço de reflexâo crítica vai esbarrar, desde cedo,
com o conflito entre a exigência da universalidade da razão
e a descoberta da diversidade e relativida
de
das culturas e instituições. Como reconduzir costumes diferentes
aos mesmos princípios racionais e universais? 18. f -
O problema torna-se ainda mais visível se considerarmos
a distinção de dois aspectos da ética. Considerando a ética
como ciência da ação (ou práxis) individual, o problema maior
é o da razão que deve iluminar a liberdade do indivíduo e levá-lo
à sua realização plena, à sua perfeição ou felicidade. Este
primeiro aspecto da ética é designado por alguns como "moral"
ou como problema da "moralidade". Num segundo aspecto,
considerando a ética como ciência da ação comunitária, ou da
ação política, o problema maior é o de mostrar racionalmente
a lei ou a ordem social que possa ser aceita livremente e reconhecida
por todos como justa.
II
- CRISE OU REARTICULAÇÃO .
DA
ETICA?
19.
Não há dúvida de que vivemos hoje numa crise ética e da ética.
O problema é, antes de tudo, compreender as raízes da crise
(1), que afeta a sociedade moderna em geral (2) e, especificamente,
a sociedade brasileira (3). Nessa situação, contudo, é possível
reconhecer também os sinais de uma nova busca da ética (4).
t
- As raízes de crise
1.l
-A crise dos princípios éticos
20.
A crise da ética, no mundo ocidental, está ligada a
um longo processo histórico. Sem seguir rigorosamente a
ordem cronológica, podemos indicar momentos deste processo,
os quais muitas vezes se sobrepõem. Eles manifestam, porém,
os problemas reais que a ética encontra na época moderna.
21.
Na Idade Média, ética e religião estão estreitamente associadas
e a Igreja se torna guardiã da moral, exercendo um controle
rigoroso sobre a conduta dos cidadãos, associada ao poder civil.
As guerras de religião dos séculos XVI e XVII, acentuando as
divergências entre as Igrejas cristãs, contribuem para despertar
a busca de uma moral "natural" ou "puramente
racional", que estivesse acima das diferenças confessionais.
22.
A ética não saiu reforçada dessa separação: a ela se segue
uma crise, especialmente da convicção iluminista e idealista
da universalidade da razão. As descobertas da etnologia
e da antropologia põem em relevo a existência de culturas diversas.
O relativismo se afirma, ao menos no nível teórico. A própria
filosofia parece renunciar a uma reflexão ética para deixar
lugar a uma "sociologia dos costumes", a uma mera
descrição dos comportamentos éticos, sem valor normativo.
23.
Contemporaneamente surge uma crítica vigorosa das instituições
sociais. Aos olhos de muitos críticos elas aparecem como expressão
de interesses das classes dominantes, justificados por ideologias,
as quais encobrem a verdadeira natureza das instituições.
24.
Mais recentemente, a própria consciência é posta em dúvida.
Enquanto na visão tradicional ela é o lugar onde a exigência
ética se manifesta com mais evidência e vigor, indicando o que
é bom e exigindo uma ação coerente, para alguns pensadores
contemporâneos ela nada mais é do que uma forma de censura da
liberdade.
25.
As críticas modernas à ética tradicional não são meramente negativas.
Elas carregam o anseio de uma ética nova, que contribua para
uma mais efetiva emancipação do ser humano.
1.2
-A mudança da sociedade
26.
Enquanto se desenrolava a crítica dos princípios éticos, amadurecia
uma outra transformação, conexa com
a
evolução da economia moderna, o capitalismo, e particularmente
com o peso crescente que ela adquiriu na sociedade.
27.
Ao longo do processo histórico, as esferas da sociedade, como
a política, a religião, a arte, a ciência, vão adquirindo sua
própria autonomia. Já nesta fase a ética e a religiâo perdem
a hegemonia, que exerciam sobre a sociedade tradicional. Mais
radicalmente, com o avançar do processo, a economia assume papel
dominante e subordina a seus interesses as outras esferas sociais,
inclusive a ética.
28.
A única regra é a procura do "melhor" produto, no
sentido do mais eficiente do ponto de vista estritamente econômico;
em resumo: o que dá mais lucro. Não o "melhor" produto
com relação a valores humanos (logo, éticos) ou com relaçâo
a um tipo de sociedade. É a supressão prática da ética.
29.
Em síntese, a tendência inscrita nessa sociedade é a de organizar
e administrar a vida social segundo regras meramente técnicas,
de acordo com os interesses do sistema econômico, reduzindo
o ser humano a algo "fabricado" por esse mesmo sistema.
A pessoa, muitas vezes, não percebe claramente o controle exercido
sobre ela, enquanto o sistema lhe garante bem-estar e uma "liberdade"
aparente no âmbito privado.
30.
Hoje, na grande maioria dos Países, nem mesmo um mínimo de bem-estar
é garantido e o sistema econômico mundial lhes reserva um papel
subalterno ou simplesmente a exclusâo e a miséria para grande
parte de
suas
populações. Assim aparecem ainda mais claras as trágicas contradições
da civilização técnico-científica, nesta forma de sua realização.
Ela enfrenta o extremo perigo que, paradoxalmente, nasce de
suas próprias conquistas: imagina ter chegado perto do domínio
da história, mas arrisca ser dominada por um processo totalitário,
que ameaça eliminar toda e qualquer ação do ser humano, que
se tornaria apenas objeto e produto do sistema. O mais grave
é que todo este avanço tecnológico possui as condições reais
de eliminar a fome e a miséria, e não 0 faz.
2
- Pluralismo e conflitos éticos da sociedade atual
31. A sociedade técnico-científica pretende impor a lógica
da economia e da técnica como sucedâneo da ética e da religião.
Em oposição, manifesta-se a resistência de pessoas, comunidades
e movimentos sociais, que continuam mantendo viva a exigência
ética, seja propondo novos valores a partir de uma nova sensibilidade,
seja redescobrindo a tradição cristã e valorizando tradições
não-ocidentais.
32.
A situação da ética, nas sociedades "modernas", difere,
porém, profundamente daquela das sociedades tradicionais, nas
quais as instituições, ao menos em certa medida, representavam
e reforçavam o "ethos" predominante. A situação
é caracterizada pelo pluralismo dos comportamentos e dos valores.
Não há mais um "ethos", mas vários; não uma ética
e sim muitas. Nesse contexto, duas atitudes predominantes tendem
a se firmar, ambas moralmente criticáveis.
33.
A primeira é a atitude do apego à ética tradicional, mesmo
nos aspectos que se revelam claramente inadequados ou anacrônicos.
Esta atitude é geralmente denominada tradicionalismo ou fundamentalismo.
A
segunda atitude é a do individualismo. É certamente a mais difundida,
porque estimulada pela dinâmica da sociedade atual. Individualismo
significa colocar o acento sobre as opções ou decisões do indivíduo
("você decide!"). Diante do pluralismo de comportamentos
e de teorias éticas que pretendem legitimá-los, cada um é solicitado
a fazer sua escolha, segundo um critério ou um "gosto"
pessoal. Desacreditando na possibilidade de discernir normas
éticas objetivas ou valores universais, muitos tendem a realizar
suas ações e a construir seus valores única ou predominantemente
a partir da experiência individual. O fato é mais evidente na
esfera da vida privada ou particular, onde a sociedade moderna
tende a conceder uma liberdade ilimitada em troca da sujeição
ao sistema econômico e político.
34.
Esta liberdade individual é apoiada por uma ideologia que sustenta
o direito de o homem e de a mulher disporem arbitrariamente
do próprio corpo e do próprio "tempo livre" e decidirem,
com critérios meramente pessoais, sobre o consumo dos bens e
o relacionamento pessoal. Mesmo na relação com o outro (por
exemplo no relacionamento amoroso no casamento), muitos pensam
que tudo é lícito, se o outro, companheiro ou cônjuge, estiver
de acordo. Embora se reconheça que deve ser respeitado no outro
o mesmo direito que alguém reivindica para si, de fato muitas
vezes um comportamento resvala para um individualismo tão
acentuado que tudo é pensado pelo indivíduo em função de si
mesmo, numa atitude que não deixa espaço a uma verdadeira
relação de intercâmbio, comunhão, fraternidade com o outro.
35.
Mesmo onde se procura uma ética pública mais coerente, reconhecida
efetivamente pelo conjunto dos cidadãos, muitas vezes o problema
da ética ou moralidade individual é esquecido ou colocado entre
parênteses, como se fosse possível construir uma ética social
sólida sem uma ética pessoal adequada. Não faltam interpretaçôes
da democracia, como forma de organização da sociedade, em que
todos aceitam regras convencionais de convivência em troca do
máximo de "liberdade".
36.
Entre as formas de subjetivismo ético, a mentalidade técnico-científica
acentua a "ética do projeto", como extensão a toda
a existência humana da atitude que caracteriza a tecnologia
moderna. Nela o ser humano impõe sua vontade à natureza, às
coisas, às pessoas; procura tudo transformar e moldar segundo
um projeto bem definido. Mais ainda: o homem da era tecnológica
transforma-se a si mesmo num projeto a ser realizado a partir
das próprias escolhas. O político forja a sociedade, não a partir
de utopias ideais, mas pela força de suas próprias decisões;
o empresário tudo orienta para a afirmação de seus próprios
produtos; a pessoa tudo investe na criação do próprio prestígio
e na exaltação do próprio nome. Estas atitudes buscam uma justificação
teórica no "pragmatismo".
37.
Há pessoas, porém, que longe de assumirem e de manterem, de
forma duradoura, uma atitude coerente,
tendem
a modificar freqüentemente seu comportamento. Tendo perdido
as raízes, são facilmente expostas às pressões contraditórias
da sociedade. Não chegam a formular um "projeto" e
buscam constantemente novas experiências. Misturam ou alternam
atitudes inspiradas em éticas diferentes, em concepções até
opostas. Não raro, tendências radicais defendem formas de vida
infra-humanas, mas incoerentemente aceitam a supressão do feto
ou o aborto. Não raro, donos de jornais e emissoras televisivas
defendem a verdade e a honestidade na política, mas permitem
a pornografia e, mais grave, incentivam o relativismo e o subjetivismo
no plano da moral pessoal. Assim o homem moderno, que para certos
ideólogos seria o ser humano autônomo e maduro, liberto de preconceitos
e submissões, na realidade aparece - aos observadores perspicazes
- como um ser inseguro e inconstante, com uma identidade fraca,
com atitudes narcisistas ou egocêntricas, características de
uma psique mais infantil do que adulta. 3 - A crise
ética da sociedade brasileira
3.1
-Raízes da crise
38.
A modernização do Brasil é relativamente recente, mas foi realizada
de um modo muito acelerado. São significativas as mudanças dos
últimos 40 anos, quando se passou de uma sociedade quase exclusivamente
rural para uma sociedade industrializada e urbana. Fase intensa
nesta modernização se deu sem participação popular, aumentando,
assim, a distância entre a cultura do povo e os novos modelos
culturais impostos e, freqüentemente, importados (1964-1985).
39.
O rápido crescimento da população urbana (de pouco mais de dez
milhões, em 1950, para cerca de cento e dez milhões hoje)
fez com que grande parte de uma geração nascida no campo entrasse
em contacto com o mundo urbano, com o conseqüente impacto quanto
a antigos valores e padrões éticos da população. Hoje a influência
da cidade atinge, através dos diversos meios de comunicação,
também o interior e difunde a concepção "moderna"
da vida, atraindo especialmente a juventude. 40. A sociedade
brasileira ficou decididamente marcada pela desigualdade e
por diversidade étnica, geradoras de um dualismo ético. Há uma
elite dominante, que explora o trabalho, usa da violência,
ostenta luxo, despreza e oprime as culturas indígena e africana.
Há os domínados, com sua ética popular, com seu jeito próprio
de sobrevivência e conservando a alegria, mesmo nas mais duras
condíções de vida.
41.
A economia escravagista deixou como herança um "ethos"
da Casa-Grande, com sua "arrogância do poder". Esse
"ethos" atribui aos poderosos privilégios e mordomias.
Ignora o princípio moderno da "igualdade perante a lei".
"Quem pode, pode". É a constatação resignada ou complacente
do povo. "Quem pode" no plano econômico ou politico,
"pode" também no plano moral. O poderoso teria direito
a tirar proveito do seu poder, independentemente de critérios
da lei e da justiça, mesmo se isto comportar que a coisa pública
seja reduzida a propriedade quase privada, subordinada aos interesses
partículares. Infelizmente, esta privatização do público continua
hoje particularmente forte.
42.
De outro lado, entre o povo, há aqueles que praticam a
ética da esperteza, do "jeitinho" e mesmo da malandragem.
Para muitos, a contravenção se torna coisa normal. Valoriza-se
por demais a sorte como caminho para a riqueza (jogos de azar
e loterias). Outro caminho muito procurado é o pistolão e, também,
o apadrinhamento por parte de ricos, poderosos e políticos,
com benefícios - em troca de favores, num sistema de clientelismo.
43.
Estas breves afirmações não querem desconhecer outros fatos
e tendências. Não podemos, por exemplo, esquecer que, entre
os dois extremos, foram se introduzindo novos comportamentos,
com o suporte de novas condições sociais. Assim, por exemplo,
a colonização baseada em pequenas propriedades conservou uma
forte marca religíosa, regendo o comportamento ético. Mais recentemente,
a formação de novas classes médias leva, repetidas vezes, a
manifestações de indignação e de protesto por parte destas
contra o comportamento dos poderosos.
44.
Deveriam também ser lembradas aqui as relações entre ética e
religião na sociedade brasileira. Especialmente nos tempos
da Colônia e do Império, o catolicismo procurou afirmar os princípios
de uma ética de inspiração cristã, fortemente marcada, contudo,
pelo contexto histórico. I,egitimou-se uma ordem hierárquica
na sociedade desigual, que atribuïa direitos e deveres diferentes
a senhores e escravos, ricos e pobres, homens e mulheres.
Nas
últimas décadas, com a maior difusão do pluralismo religioso,
é possível observar, além da moral católica, duas correntes
nitidamente distintas no plano êti
to.
Uma difunde uma ética de tipo puritano, que tem como pressupostos
a rigorosa observância da lei, tanto eclesiástica quanto civil,
considerada expressão da vontade de Deus, e a promessa do prêmio,
nesta e na outra vida, ao comportamento eticamente correto.
Outra procura o bem do indivíduo. Seu pressuposto não é Deus
que rege o universo, mas a existência de forças em competição,
contra as quais é necessário assegurar a proteção. Note-se que
hoje há ressurgimento da magia e do esoterismo, manifestando
desconfiança na ciência e na razão.
.2
-A situa ão atual: diversas ates da mesma crise 3 ç Ï
46.
Os fatores da crise ética da nossa sociedade têm gerado a falta
de honestidade, a corrupção, o abuso do poder, a exploração
institucionalizada e a violência, mas também a deformação e
a incerteza das consciências.
47.
Há, na verdade, uma ruptura entre o indivíduo, que se fecha
sobre si mesmo, e a vida pública e os valores comuns, sobre
os quais se ergue a sociedade. A dimensão comunitária
é enfraquecida, e prevalece a visão do ser humano como "indivíduo
consumiste". Hoje, a consciência das pessoas se sente,
muitas vezes, confusa, fragmentada, manipulada e submetida
aos impulsos do momento, por falta de uma visão mais consistente
e objetiva de uma ética partilhada pela sociedade toda ou, ao
menos, por uma comunidade definida. A sociedade parece
não apenas pluralista, mas desagregada, marcada por formas
extremas de segregação ("apartheid") social, descrédito
da ação política, falta de solidariedade.
4g,
Evitando generalizações na análise de uma situação tão
complexa, deve-se notar, especialmente, a contradição
que marcou a história do País e que a modernidade vem reforçar.
49.
De um lado, temos uma parcela da população que se beneficiou
com o desenvolvimento e as transformações recentes e cujo
poder e riqueza nâo cessam de aumentar, acentuando ainda
mais as desigualdades. Esta faixa mais avantajada da população
tende a agir de acordo com interesses individuais, guiada por
valores utilitários, a partir de uma concepção que justifica
a desigualdade. Esta não inclui a preocupação com o bem-estar
dos outros cidadãos. Prevalecem os princípios "cada um
por si e Deus por todos" e "levar vantagem em tudo".
Por isso, um sociólogo brasileiro propôs defini-Ia como sociedade
"pósética". Ela se situa além da ética que deixou
para trás.
50.
De outro lado, temos a parcela da população (a maioria!) que
foi excluída do processo de modernização ou foi prejudicada
por ele. Não lhe foram dadas vantagens materiais, nem efetivas
possibilidades de participação política. Sente-se, de fato,
"fora" da sociedade moderna. Para boa parte dela
vale o "salve-se quem puder". Está numa situação "pré-ética",
que a leva a recorrer mais à magia e ao maravilhoso do que às
formas religiosas com claro conteúdo ético. Ela também não consegue
reconhecer o que é "público", pois não se sente vinculada
à s iedade como um todo mas está em busca da sobreviv
cia, da solução de
problemas imediatos e inadiáveis.
í
também, muitas vezes descuido e até vandalismo da ,
parte
da população com os bens públicos.
51.
A tendência crescente à concentração da renda, de um lado, e
ao empobrecimento da maioria, de outro, foi constatada, mais
uma vez, num recente documento do IPEA (Brasil: Indicadores
Sociais, 1992): "O segmento do 1% mais rico mantinha,
em 1981, 13% da renda total, parcela pouco inferior ao total
apropriado pela metade mais pobre da população (13,4%). Em 1990,
o segmento 1% mais rico aumentou a sua participação para 14,6%,
e os 50% mais pobres tiveram a sua cota de renda diminuída para
11,2%, aprofundando a diferença entre a maioria pobre e a minoria
rica".
52.
Entre essas duas faixas de população, existe uma terceira faixa,
onde é mais nítida a reação a essas tendências e se manifestam
os sinais do reencontro com a ética e da consequente promoção
do bem comum. Não se trata de uma área homogênea, nem social
nem culturalmente. Ela é caracterizada pela presença tanto de
motivações intelectuais, que têm como suporte setores ligados
à modernização e que mantêm vivo o ideal democrático de uma
sociedade aberta à participação de todos, quanto de motivações
religiosas, particularmente do catolicismo que acentua a "doutrina
social", e a necessidade de não reduzir a prática religiosa
ao emocionalismo e ao intimismo, em detrimento da solidariedade
e da participação política.
Nesta
área também se encontra a aspiração a conciliar valores fundamentais
da ética tradicional, desvestidos de formulações históricas
de outras épocas, com as exigências modernas de racionalidade
e liberdade, numa abertura ao diálogo com todos os que buscam
a edificação
de
uma sociedade mais justa. Dessas aspiraçôes participam também
as massas pobres conscientizadas e organizadas.
4
- Em busca de uma rearticulaçáo
53.
Os historiadores têm observado que as épocas de crise da civilização
têm despertado uma reflexão mais ampla e vivaz sobre ética.
Algo semelhante parece acontecer hoje, em muitas sociedades
e no Brasil.
54.
Entre os sinais dessa reflexão e, ainda antes, de uma reação
da opinião pública - intelectuais, classes médias, jovens e,
em muitos casos, de movimentos populares -, podemos citar:
55.
- o questionamento do comportamento de políticos profissionais
que distanciam seus interesses das aspirações dos eleitores,
mostram pouca transparência no seu agir e se envolvem sistematicamente
na corrupção e no abuso de poder;
56.
- os questionamentos levantados ao redor da formulação de novas
leis, regulamentando problemas de forte relevância ética, como
as leis sobre família, aborto, experimentação biológica e genética,
eutanásia, drogas...; 57. - a discussão sobre ética e economia,
seja em termos mais amplos (a que está conduzindo a economia
atual, com suas rápidas mudanças, geradoras de vantagens para
poucos e de infelicidade e penúria para as grandes massas?),
seja em termos mais restritos e específicos (ética dos negócios
ou ética da empresa);
58.
- as pesquisas de bioética, que, há vários anos, acompanham
o impressionante avanço da biologia e da genética e de suas
efetivas ou possíveis aplicações às pessoas humanas, inclusive
com o risco da manipulação do patrimônio genético da humanidade.
Deve-se prestar atenção à pressão que a mentalidade científica
e técnica exerce sobre a reflexão, às vezes desconsiderando
as razões éticas em favor de uma ilimitada ânsia de pesquisa
e experimentação;
59.
- os questionamentos mais amplos surgidos de certas aplicações
ou conseqüências do progresso técnicocientífico, que são percebidas
como ameaça para a própria existência da humanidade. A questâo
se pôs, antes de tudo, em face do multiplicar-se de armas atômicas
ou nucleares, capazes de destruir muitas vezes a vida no planeta
Terra, e, depois, de armas químicas e biológicas, de controle
incerto; mais recentemente, cresce a consciência das ameaças
ao equilíbrio ecológico, pela crescente poluição de ar, água
e terra, pela destruiçâo da camada de ozônio, pelo "efeito
estufa" etc.
60.
- o interrogativo ético que surge do contraste entre a abundância
de recursos econômicos e técnicos, de uma parte, e a fome e
a miséria, que destroem vidas humanas, de outra. As interrogações
se aprofundam na medida em que se percebe que fome e miséria
sâo fruto de injusta distribuição, desorganização e corrupção
dos órgãos governamentais, guerras etc.
61.
Para essa reflexão, a Igreja Católica tem contribuído muito
ativamente, por meio de pronunciamentos pontificios e episcopais,
especialmente no campo da ética
social
e em defesa da vida, assumindo uma abordagem sempre mais indutiva
e concreta (Paulo VI, Octogesima Adveniens, 1971; João
Paulo II, Laborem Exercens, 1981; Sollicitudo Rei
Socialis, 1987; Centesimus Annus, 1991; CNBB,
Exigências cristãs de uma ordem política, 1977; Por
uma nova ordem constitucional, 1986; Exigências éticas
da ordem democrática, 1989).
62.
Não é exagerado concluir que nunca a humanidade teve tanta responsabilidade
para com o seu próprio futuro! Nunca precisou tanto de uma
ética que ultrapasse os interesses imediatos dos indivíduos
e abra as perspectivas do futuro para a humanidade inteira.
63.
Esta preocupação inspira os recentes debates dos intelectuais
e se manifesta nas reações espontâneas das diversas classes
sociais. Citamos, por exemplo, as muitas manifestações de solidariedade
popular que contrastam com o individualismo moderno; o idealismo
da juventude que reencontrou recentemente a capacidade de se
manifestar e de defender publicamente valores morais irrenunciáveis;
a indignação de movimentos contra a malversação da coisa pública;
a informação e a denúncia por parte da imprensa e de outros
meios de comunicação, buscando a almejada transparência da administração
pública, dos três poderes constituídos e da vida política em
geral.
64.
A recriação da ética pelos novos movimentos sociais está apontando
para novos estilos de vida. Há, hoje, a emergência de um anseio
profundo de liberdade na esfera da realização da pessoa, a partir
do mundo das aspirações e dos desejos; um senso muito profundo
do direito à dife
tença,
à alteridade; um sentido novo das experiências comunitárias
em tensão entre o planetário (procura de universalização) e
o pequeno (emergência e reconhecimento do pluralismo social
e cultural); a redescoberta do sentido do prazer, da gratuidade,
da celebração e da fantasia, que inclusive questiona a ética
moderna do trabalho
e
a relação do homem com a natureza; a abertura de ; novos espaços
para a experiência do sagrado na vida humana.
III
- CAMINHOS .
DE
UMA NOVA ETICA
65.
Prevalece freqüentemente, hoje, a opinião de que a sociedade
está tão mudada que, em todos os campos, inclusive no da ética,
as orientações do passado estão superadas. É preciso procurar
novos caminhos.
66.
De outro lado, nem a tradiçâo cultural, nem a própria ciência,
com seu saber de tipo cumulativo, ensinam a desconsiderar o
passado. Pelo contrário, desconhecê-1o importa no risco de repeti-1o,
nâo de superá-1o. Comporta o risco de "inventar novamente
a roda". Os novos caminhos da ética serão proveitosos
e nos permitirão alcançar o avanço de que necessitamos, se forem
prosseguimento do que está vivo na tradição, em seus valores
éticos fundamentais.
67.
No contexto atual, no campo da ética, teoria e prática esbarram
em duas tendências opostas. Uma tendência é a das éticas que
pretendem enfatizar o aspecto da normatividade. Procuram,
antes de tudo, normas a partir da natureza, da religião, de
uma interpretação da realidade. Outra tendência é a das
éticas de tipo subjetivista. Elas valorizam unilateralmente
a decisão da pessoa. Nâo fogem, porém, de concepções acanhadas
e reducionistas da liberdade e da responsabilidade.
Além
dessas alternativas, vislumbra-se um horizonte mais abrangente.
1
- Por uma "ética da solidariedade"
68.
O ponto de partida correto é a análise da própria experiência
ética e, sobretudo, do ato ético. Examinaremos primeiro sua
forma ou estrutura, depois seu conteúdo, acrescentando o ponto
de vista especificamente cristão e discutindo a relação entre
ética e religião.
1.1
-A estrutura da experiência ética
69.
A experiência ética é uma experiência que toda pessoa humana,
que chegue ao desenvolvimento de suas faculdades, faz e não
pode deixar de fazer. Todo ser humano, no momento de agir (ou
seja, não simplesmente de fazer, de manipular objetos ou de
executar rotinas, mas de exercer sua liberdade na sociedade
humana e na relação com os outros e de visar conscientemente
a um fim, imediato ou transcendente) coloca-se a questão: o
que é bem e o que é mal? o que é lícito e o que é ilícito?
70.
Repare-se que aqui "bem" ou "mal" tem um
sentido preciso, ético ou moral, não um sentido qualquer. Muitas
coisas podem ser "más"; os motivos, porém, são diversos.
Há um mal físico, conseqüência de eventos naturais: doença,
tremor de terra, enchente... Suscita em nós a reação da dor,
da tristeza, da consternação, dirigidas sobretudo às vítimas.
Há um mal moral, quando está ligado à intencionalidade, à decisão
livre (por exemplo, um homicídio premeditado). Nossa reação
é, então, de indignação, raiva, condenação. Dirige-se ao autor
do ato, ao agressor. Em outros termos, o mal físico pode provocar
em nós uma frustração; o mal moral suscita sentimento
de
culpa. Inversamente, o bem físico suscita em nós prazer,
gozo. O bem moral suscita em nós aprovação, segurança,
certeza do agir reto, mesmo quando esse agir pode nos custar
sacrifícios tremendos, dor, fadiga.
71.
A consciência moral introduz na pessoa humana outro nível de
avaliação da realidade, um novo significado para acontecimentos
e ações. Este nível se apresenta como intransponível ou último.
Ele julga todo o resto e não pode ser submetido ou sacrificado
a outro ponto de vista da consciência. Neste sentido, a consciência
moral transcende todos os níveis de consciência ou de intencionalidade
do ser humano. É só pela descoberta mais profunda e mais completa
da verdade que a consciência pode ser iluminada e corrigida,
sem com isto sofrer violência. A consciência se apresenta -
na linguagem que tenta expressar simbolicamente sua experiência
como uma "voz" ou uma "luz". As religiões,
inclusive a cristâ, dirão: a voz de Deus, a luz de Deus. Porque
o imperativo moral manifesta-se à pessoa como algo que está
no ser humano, mas que não é dele, não se reduz à sua vontade.
O ser humano se descobre não como dono do mundo e dos outros,
mas como responsável perante eles (responsável = chamado a dar
resposta à voz ou ao apelo da consciência). O ser humano descobre
o que revela a imensa dignidade de que é portador.
72.
Na experiência ética o ser humano se manifesta propriamente
como pessoa, como sujeito livre, capaz de relação com outros
seres, num plano de inter-subjetividade, de reconhecimento
mútuo. Esse relacionamento social e comunitário tem uma dimensão
histórica que, sem
anular
o caráter último da consciência, condiciona seus atos, seus
juízos sobre as situações concretas. Antes, porém, de analisar
os atos concretos da pessoa, em solidariedade com os seus semelhantes,
convém aprofundar brevemente a relação da consciência moral
com a liberdade e a verdade.
73.
O termo "liberdade" é usado freqüentemente com sentidos
diversos. Daí, em certa medida, as atitudes opostas da cultura
contemporânea perante a liberdade: da negação (o ser humano
é apenas produto do meio, das estruturas) até a mitização (a
liberdade humana é absoluta; o ser humano se identifica com
a sua liberdade).
74.
É relevante, para a questão ética, compreender corretamente
as diversas faces da liberdade humana. A vocação à liberdade
é um dado antropológico fundamental, que se exprime mediante
escolhas e atos determinados por mim e nâo por outrem. Nem todos
os atos que eu faço são plenamente meus. Podem ser determinados
por fatores que eu não quis e não consigo controlar. Os atos
realmente meus são os que manifestam minha liberdade, minha
escolha, como escolha moral, ou seja, consciente e consentida,
querida. Logo, eu sou livre porque sou moralmente responsável.
O apelo moral, sempre iluminado pela percepção da verdade, é
fundamento e norma da liberdade, que é suscitada por
ele, e a liberdade é a condição de minha resposta ao
apelo moral. A liberdade humana não é absoluta: ela dispõe livremente
das condições reais em que a pessoa se encontra. Segundo uma
conhecida fórmula, a liberdade é "o que eu faço daquilo
que os outros fizeram de mim". Por isso, a liberdade
é tanto um dado
quanto
uma tarefa, uma resposta crescente aos apelos éticos que emergem
na história. A pessoa humana não é absolutamente livre, mas
é livre de tornar-se livre ou de renunciar à sua liberdade.
75.
Iiá dois modos principais de renunciar à liberdade: a submissão
e a alienação. Do ponto de vista ético, há freqüentemente na
modernidade um equívoco: o de pensar a liberdade como simples
autonomia da pessoa, que não se sujeitaria a ninguém. Na
realidade, a pessoa humana se torna livre enquanto não está
submetida a outro indivíduo humano, mas principalmente enquanto
aceita a voz da consciência, o apelo a uma vida ética, em que
são reconhecidos direitos e deveres de todos (não apenas os
meus). Além disso, se é verdade que a liberdade humana é uma
liberdade a ser realizada, que pode e deve crescer, ela exige
o empenho permanente da libertação, a luta contra a "alienação",
contra a situação de quem está sendo impedido de realizar suas
possibilidades. A liberdade se realiza plenamente no amor ablativo.
76.
A questão maior, hoje, talvez seja não a da liberdade, mas
a da verdade da consciência. É ela realmente a voz que nos manda
fazer o bem, ou é apenas uma ilusão? Apesar de aceita por muitos,
tal opinião não se baseia sobre uma análise rigorosa. Confunde
certos conteúdos contingentes da consciência com a sua
estrutura. Esta não se apresenta como obrigando em nome
de uma autoridade humana, mas como apelo a buscar e fazer o
bem no convívio responsável com os outros. Não há dúvida, isto
exige uma reflexão mais séria e atenta sobre o conteúdo da
consciência moral.
1.2
- O conteúdo da exigência ética
77.
Deve-se distinguir aqui entre um conteúdo fundamental, que
pode ser formulado em termos gerais como 0 imperativo "faça
o bem!", e os desdobramentos e as aplicações desse conteúdo
numa infinidade de normas e orientações de comportamento. Partindo
dessas últimas, podese ter a impressão não apenas de uma imensa
variedade, mas até de relativismo cultural: cada cultura tem
suas normas éticas, que seriam válidas em relação ao respectivo
contexto.
78.
Partindo, porém, da busca de um conteúdo universal ou fundamental,
chega-se à constatação de que "fazer o bem" é, antes
de tudo, dar prioridade efetiva às exigências do ser humano.
Estas não são apenas as necessidades materiais, relativas à
sobrevivência, mas também as aspirações profundas, voltadas
para a realização da dignidade e do destino transcendente das
pessoas. Isto parece constatado historicamente, na medida em
que a extensão dos grupos humanos e de sua organização política
fez crescer também a consciência de que "agir bem"
é procurar o bem de todos os seres humanos em todas as suas
dimensôes. Certamente esta é a convicção das sociedades ocidentais,
sob a influência da tradição bíblica e cristã. Não somente pela
estrutura, mas também pelo conteúdo, podese falar em "ética
da solidariedade".
79.
Por esta razão o ser humano só conquista a sua realização onde,
em liberdade e responsabilidade, as pessoas reconhecem mutuamente
sua dignidade, constituindo uma comunidade igualitária: é pela
mediação dos outros que cada homem se constitui sujeito livre
e responsá
vel,
de tal modo que qualquer forma de dominação do homem sobre o
homem frustra o processo histórico de conquista da humanidade
do homem. A liberdade humana só se efetiva quando não
se reduz à interioridade subjetiva, mas se realiza nas
leis, nos costumes e nas instituiçôes, que configuram a vida
concreta das pessoas.
1.3
-A ética numa perspectiva bc7lica
80.
Para nós cristãos, é claro que só por Jesus Cristo "temos
acesso à verdade sobre Deus, sobre o homem, e a possibilidade
da vida verdadeira" (João Paulo II, Discurso Inaugural,
DSD, 6.3) e que esse dom de Jesus Cristo nâo violenta nossa
liberdade, mas, ao contrário, a completa e planifica. Para compreender
a realidade de Jesus Cristo, partimos da Bíblia, que nós cristãos
aceitamos como norma de fé e ação. Ela atesta uma experiência
religiosa única, em que o povo de Israel e o novo "povo
de Deus"
,
a Igreja, sentem-se convocados pela iniciativa de um Deus pessoal
que os escolhe gratuitamente. Esta experiência da bondade de
Deus gera exigências éticas.
81.
No Antigo Testamento a relação entre Deus e seu povo
gera a "moral da Aliança". "Sede santos, porque
eu sou santo" (Lv 11,45; 19,2 etc.). Expressão fundamental
dessa moral é o Decálogo (Ex 20,2-17 e Dt 5,6-21). Ele é fundado
sobre a Aliança entre Deus e o povo, que ele libertou do Egito.
Exprime as exigências incondicionais e, num certo sentido, mínimas
para que o povo permaneça em comunhão com o seu Deus. Afastar-se
do Decálogo seria cessar de ser povo de Deus. Seria a maldição,
a desgraça, a recusa da liberdade recebida. Todos os man
damentos,
portanto, brotam do primeiro. Porque pertence a Deus, o povo
israelita deve rejeitar a idolatria, repousar no sábado, honrar
os pais, evitar homicídio, adultério, furto, falso depoimento...
82.
É significativo que a fidelidade ao Deus Javé se expresse mais
na observância das exigências éticas do Decálogo do que em atos
de culto. É o que, de muitas formas, enfatizam os profetas de
Israel (of. Is 1,10-20; 58,1-12; Am 5,21-27; Os 6,6; Mq 6,5-8
etc.). Eles revelam que Deus tem para seu povo uma missão, que
se manifesta sempre mais como universal. Por isso, a conduta
ética de Israel - mesmo em assuntos como falsificar os pesos
ou deixar de cumprir um rito - assume um alcance extraordinário.
Dela depende a salvação ou a ruína de povos inteiros (of. Am
1,3 - 2,16; 8,4-8). Nunca decisôes éticas limitadas e circunscritas
foram investidas de tanta responsabilidade. Diante das fraquezas
de Israel, os profetas prevêem uma "nova Aliança",
em que Deus escreverá sua Lei no próprio coração do povo (Jr
31,31-34; Ez 36,22-32), perdoando todos os pecados dele e renovando
seus dons com mais generosidade ainda.
83.
O Novo Testamento descreve a nova Aliança realizada em Jesus
de Nazaré, o Cristo ou Messias, especialmente em sua morte
e ressurreição. Em Jesus, os discípulos reconhecem a encarnação
do Filho de Deus na humanidade e o ápice insuperável da história
da salvação. O Novo Testamento atesta, portanto, em primeiro
lugar, um acontecimento, um dom de Deus, a maior expressão da
sua graça. Cristo é o Evangelho vivo do Pai, portanto, a "boa-nova"
da realização da nova Aliança e da nova rela
ção
que Deus estabelece com o seu povo. Ela é designada como "Reino"
ou "governo" de Deus, como exercício amoroso da sua
soberania, como presença fiel e definitiva ao lado do seu povo,
na pessoa de Jesus: "Eu estou convosco todos os dias,
até o fim do mundo" (Ml 28,20). É uma promessa feita a
todos os que se dispõem a segui-1o, em primeiro lugar aos pequenos
e pobres.
84.
O anúncio da aproximação e inauguração do Reino por parte de
Jesus comporta, antes de tudo, o anúncio profético da conversão
de todos os homens a Deus, porque o tempo se cumpriu. É sobretudo
proclamação de felicidade para os pobres e oprimidos: "Felizes
vós, os pobres... os que tendes fome... os que chorais..."
(Lc 6,2021). Mas este anúncio se transforma em exigência ética
na "moral das bem-aventuranças". Feliz é também aquele
que escolhe ser pobre, que torna humilde e confiante em Deus
o seu coração (Ml 5,3). Feliz é aquele que tem fome e sede de
justiça (Ml 5,6). Feliz é aquele que não se limita a chorar,
mas tem (como Deus!) um coração misericordioso e pratica as
obras de misericórdia (of. Ml 5,7; Lc 6,36; Mt 25,31ss). Feliz
é aquele que promove a paz e o bem (Ml 5,9). Feliz é aquele
que imita Jesus (Ml 11,29). 85. No Reino de Deus já presente,
a Lei antiga não é abolida, mas aperfeiçoada (of. Ml 5,17-20).
O Decálogo é conservado e radicalizado (of. Ml 5,21-48; 19,16-22;
Mc 10,17-22). As disposições antigas, que faziam concessões
à "dureza de coração" são revogadas (Ml 19,1-9; Mc
10,112). Faz parte dessa busca de perfeiçâo a insistência de
Jesus sobre a interiorização da Lei (of. Mc 7,18-23), retomando
uma exigência dos profetas. Eles colocam o acen
to
sobre as grandes atitudes éticas mais do que sobre as minúcias
de preceitos particulares (of. Ml 23,23, que alude aos grandes
profetas, ou Mt 9,13, que cita Os 6,6). Daí também a concentração
da Lei nos mandamentos do amor, a Deus e ao próximo, que tendem
a se fundir num só, na busca do núcleo gerador da multiplicidade
das prescrições (613, numa conhecida interpretação dos rabinos).
Em Mt 22,37-40, o primeiro mandamento é tirado de Dt 6,4: "Amarás
o Senhor teu Deus de todo o teu ooraçâo, com toda a tua alma,
com toda a tua mente". Como no Antigo Testamento, é aqui
que toda a "Lei" encontra o seu fundamento. Pois Deus
não exige apenas atos, mas a entrega ou o amor da pessoa enquanto
tal (of. Mc 12,17: "Dai a Deus o que é de Deus").
Característica
de Jesus é a relevância atribuída ao segundo mandamento, "semelhante"
ao primeiro: "Amarás o teu próximo como a tí mesmo"
(Ml 22,39). Na formulação de Lucas, a articulação dos dois
mandamentos é ainda mais clara (of. Lc 10,25-28). Em João, o
mandamento se torna um sô: "Amai-vos uns aos outros como
eu vos amei" (Jo 13,24). O amor de Deus se manífesta em
Jesus, na sua doação até o fim (13,1), que coroa uma vida fada
transcorrida "fazendo o bem" (At 10,38), curando,
perdoando, servindo, manifestando uma inversâo radical dos valores
e revelando novo rosto do Pai. Jesus se torna o modelo vivente
da existência cristã segundo a vontade de Deus. Cristo é a nossa
Lei (of. ICor 9,21; Rm 10,4; Gl 2,19-20; Fl 1,21).
86.
Se o primeiro mandamento era o fundamento de tudo, o segundo
mandamento - o amor ao próximo - é
como
a regra prática, que indica, em sïntese, o que fazer: "Tudo
o que desejais que os outros vos façam, fazei-o vós mesmos a
eles" (of. a regra áurea de Mt 7,12). Esta regra já aparecia
em Lv 19,18, mas o "próximo" era tomado em sentido
restritivo: o concidadão, o parente, o amigo. Jesus adota a
interpretação radical: todo ser humano pode ser o meu próximo;
eu posso tornar-me próximo de qualquer um, inclusíve do meu
inimigo (of. Lc I0,29-37; 6,27-35; Mt 5,43-48). Confirma-se,
assim, a universalidade do mandamento de Jesus e a dimensão
ética inelimínável de uma existência religiosa, onde a fidelídade
a Deus passa pelo amor aos irmãos (of. também IJo 4,20; Rm 13,8-10;
lCor 13).
87.
A ética de Jesus revela assim seu radicalismo, que não é utopia
irrealizável, mas capacidade de descer às raízes do agir verdadeiramente
bom e justo (of. o Sermão da Montanha, particularmente
Mt 5,20-47). A ética de Jesus tem um caráter dinâmico. Consegue
ser fermento que lentamente faz crescer a massa (of. Ml 13,33).
Tem um caráter libertador, que o apóstolo Paulo ressaltará (of.
G1 5,1-13; lCor 7,22; 2Cor 3,17) e que as primeiras
gerações cristãs procurarão viver com entusiasmo, apesar do
contexto muitas vezes adverso. Conduz até o cristão a se superar,
sob o influxo da graça, para optar por uma atitude ainda mais
perfeita diante do que já é eticamente bom (of. Ml 19,12). Ou
a praticar renúncias em vista de uma realização em Cristo, na
dimensâo de vitôrïa da Cruz.
,
88. Viver radicalmente a moral do Reino nas condições presentes,
ainda marcadas pela presença do mal, que se mistura qual joio
ao trigo (of. Ml 13,30), exige dos dis
cípulos
de Jesus capacidade de discernimento e de opçâo (of. Ml 6,24).
O próprio Jesus deu indicaçôes concretas a respeito do tempo
atual, em que subsistem instituiçôes deformadas pela injustiça
e o pecado. Nelas o cristão deve estar presente, sem ceder à
tentação da fuga, de um "êxodo" fora deste mundo (of.
Jo 17,15). O cristão busca o que a própria sociedade pagã
considera bom (F1 4,8), mas recusa o que é incompatível com
a vontade de Deus, mesmo que isto lhe custe a perseguição e
a cruz, a exemplo do Mestre (of. Ml 10,16-39; 1Pd 2,20; 3,13-17).
89.
Os apóstolos e discípulos de Jesus desenvolvem o discernimento
e a prática de uma ética cristã, em contacto com o mundo judaico
e com o helenismo. Paulo vê, no dom do Espírito Santo, o dinamismo
que conduz os cristãos a viver "em Cristo" (of. Rm
6,3-4; 8,5-6). O Espírito é a "Lei" nova, que substitui
a antiga. Ela está inscrita "não em tábuas de pedra, mas
em corações de carne" (2Cor 3,3). Ela liberta para uma
liberdade que não é libertinagem, mas chamado à solidariedade
e ao serviço (of. G1 5,13). O próprio apóstolo dá o exemplo:
"Livre como era, eu me fiz servo de todos" (lCor 9,19).
A comunidade apostólica de Jerusalém pratica o amor fraterno,
a predileção pelos pobres, a comunhão de bens, o serviço aos
mais necessitados, no respeito da diversidade das culturas (of.
At 2-6).
90.
Sem desprezar as indicações da ética do seu tempo, Paulo e os
outros autores do Novo Testamento explicitam ulteriormente as
orientações da vida cristâ na situação histórica concreta: com
relação à comunidade eclesial (ICor 12; F1 2,1-5; Ef
4,25-32; Cl 3,12-17); com relação
à
família e à vida conjugal (ITs 4,3-4; lCor 7,lss;
Ef 5,21-32); com relação aos deveres cívicos e políticos (Rm
13,1-5; 1 Pd 2,13-17). Uma confrontação cuidadosa com textos
aparentemente semelhantes do judaísmo e do helenismo mostra
que as orientações cristãs divergem não apenas na motivação
(religiosa e cristológica), mas também
em certos conteúdos. Os cristãos não perdem a consciência da
incompatibilidade ética entre suas convicções e determinados
comportamentos, entre o Evangelho e o mundo, entre as obras
do Espírito e as obras da carne (of. Rm 12,1-2; GI 5). Sobretudo,
perante as pretensões totalitárias e idolátricas do poder político,
identificado com a Besta, movido por um projeto satânico (Ap
13,1-2), os cristãos se dispõem à resistência até ao martírio.
91.
A moral do Novo Testamento revela, hoje, sua atualidade sob
diversos enfoques. Enquanto voltada para uma perspectiva que
valoriza integralmente a pessoa em sua solidariedade com o "próximo"
e em sua imersão na história, responde às exigências da ética
que hoje se faz necessária. Enquanto concentrada ao redor de
um forte núcleo inspirador, ela pode renovar-se continuamente,
questionando as determinaçôes e aplicações secundárias, geradas
ao longo da história, no embate com as diferentes situações
culturais e sociais, ainda resistentes aos valores evangélicos.
Enquanto inspirada não apenas por um ideal utópico, mas sustentada
e motivada pela esperança viva do Reino de Deus, manifestado
na presença histórica de Jesus Cristo, a ética cristã encontra
sempre novo dinamismo na busca de um efetivo reconhecimento
da dignidade das pessoas e de sua solidariedade universal, sem
exclusão de ninguém. Enquanto interioriza a lei, a ética cristã
responde
à valorização do sujeito humano e ao mesmo tempo questiona o
ser humano e a sociedade acerca das raízes de atitudes e comportamentos.
1.4-Ética
e religião , 92. Depois de ter examinado, em sua estrutura
e conteúdo, a experiência ética, invocamos a perspectiva bíblica
e cristã. Queremos, agora, retomar brevemente a questão das
relações entre ética e religião.
93.
A análise do ato ético, do agir humano consciente e responsável,
mostra que a exigência ética se impõe a todo ser humano, independentemente
ou antes de uma interpretação religiosa explícita.
A tradição cristã desde cedo reconheceu, retomando uma
afirmação bïblica, que também o pagão podia, pela sua consciência,
reconhecer a lei moral, distinguir o bem ou o mal (of. Rm
1,24-32). O j próprio Jesus, quando apresenta sua ínterpretação
do amor ao próximo, por meio de parábolas, descreve o agír do
samaritano (Lc 10,25-37) e do pagão (Ml 25,31-46) como um agir
que não é ditado, diretamente, pela fé ou pelo amor a Deus.
94.
Estas constatações nos levam a concluir que a re gião
e, em particular, a religião cristã não anula a autonomia
da ética.
95.
Mas a religião não deixa de ter com a ética uma relaçâo mais
ampla. Salientamos três aspectos.
Em
primeiro lugar, nossa análise do ato ético procurou mostrar
que ele sempre constítui uma abertura à transcendência. O apelo
para "agir bem", que se apresen
ta
à conscìência de cada ser humano, surge como a voz de
alguém que nos ultrapassa, não como a simples vontade do nosso
eu.
Num
segundo passo, surge a interrogação: de quem é esta voz? que
relaçâo existe entre minha experiência ética e a interpretação
religiosa da realidade? De fato
,
existem religiões que atribuem extrema importância á ética.
É o caso das religiões "universais", que se de;víncularam
dos laços de uma tradiÇão cultural particular, para abrir-se,
em princípio, a toda a humanidade. É o caso da religião bíblica,
que interpreta a própria fé como responsabilidade diante de
Deus. E, em nome da Bíblia, surgiram muitas vezes "seitas"
e movimentos reivindicando, com rigor, uma conduta ética que
a massa dos fiéis cristãos teria perdido. Mas há também religiões
que dão à ética uma ênfase menor. Hoje ressurgem ou emergem
formas de re(ígíosídade que podem constituir uma fuga, talvez
inconsciente, das responsabilidades éticas.
96.
Enfim, o agir eticamente correto, o comportamento justo, não
garante a felicidade. O lívro de Jó e outros textos bi'blicos
refletem sobre a provação do justo. Na tradição cristã, o justo
por excelência passa pelo martírio da cruz, como tantos outros
mártires de uma causa justa. Só a religião pode responder à
pergunta sobre o futuro; pode nos dizer o que esperar. Só Deus
pode suscitar a esperança (cf. H6 11,1). É a fé religiosa -
não apenas católica, mas também moldada pelas tradições indígenas
e africanas - que, de fato, tem sustentado a esperança de vida
do nosso povo e lhe tem dado ânimo para assumir suas responsabilídades
éticas mesmo em condições extre '
mamente
adversas de opressão e sofrimento.
2
Critérios para a aS.ão
Estabelecidos
os fundamentos e os conteúdos pri97.
melros
e universais da ética, é preciso ainda explicitar algumas indicaçôes
básicas, que ajudem a pessoa a passar dos princípios à ação.
2.1
- Consciência e normas éticas
moral
revela dois aspec9g, A análise da consciência
tos
da sua atuaçâo, que na história foram indicados com denominações
distintas. A consciência, qt s eepailzer fundamental, discerne
os princípios é larmente, aquele imperativo que existe em toda
pessoa: "faça o bem!" A consciência, porém, encontra,
num segundo momento, na hora de decidir os atos concretos a
exigência de julgar qual é, em determinadas circunstâncias,
o ato reto (correto ou cao)
99.
É evidente que, pela variedade das circunstâncias e a novidade
que podem apresentar, a decisão final acerca de um ato concreto
pode ser difícil. A pessoa, retamente intencionada, que sinceramente
procura o bem, deve fazer um esforço proporcional para discernir
e realizar o ato eticamente correto. Sem dúvida, isso lhe será
mais fácil se nela já estiver amadurecida uma atitude (hábito
ou virtude) voltada para o bem e se a prática do discernimento
e da reta formaçâo da consciência for permanente.
erspe
, o cristã afirma o valor 100. Nessa p cliva a tradiçã "
" da consciência a partir de Jesus, que fala do coração
. Paulo afirma que a consciência deve ser respeitada, seja no
cristâo conduzido pelo Espínto (Rm 9,1; 2Cor 1,12),
seja
no pagâo (Rm 2,15), seja quando ela estiver no erro (Rm 14,1-15;
ICor 8). Santo Agostinho chega a dizer que na consciência está
a única "morada de Deus": "Aquele que não é contido
em lugar nenhum, tem por morada a consciência dos justos"
(Enar. m Ps. 45: PL 36, 520). O recente Catecismo da Igreja
Católica (nQ 1778) cita um texto de J. H. Newman:
"A
consciência é uma lei do nosso espírito, mas que o supera, que
nos dá ordens, que indica responsabilidade e dever, temor e
esperança... a mensagem daquele que, no mundo da natureza como
no da graça, nos fala verdadeiramente, nos instrui e nos guia.
A consciência é o primeiro de todos os vigários de Cristo"
(Carta ao Duque de Norfolk, 5). Também a Gaudium
et Spes (nQ 16) fala da consciência como "o centro
mais íntimo e secreto do ser humano, o santuário onde ele está
sozinho com Deus e onde escuta a sua voz".
101.
Igualmente forte é, na tradição cristã, a insistência sobre
a formaçâo da consciência e sua docilidade à "lei"
ou vontade de Deus. Na Igreja primitiva, contudo, houve uma
polêmica acerca do valor da lei de Deus, por um conllito entre
cristãos ligados à concepção predominante no judaísmo e a interpretação
mais radical de Paulo (of. GI 2,15-21; Rm 7). Na doutrina de
Paulo, a lei antiga não salva, mas revela o pecado. A "lei
nova", a de Cristo, é o próprio Espírito Santo (Rm 8,2),
que conduz interiormente o cristão (of. Rm 15,13. 19; Gl 5,16.
18; ICor 2,lOss.; 3,16; Ef 1,17-18 etc.). Esse "Espírito
de vida" não se impôe externamente, como "letra que
mata" (2Cor 3,6).
102.
Comenta, porém, São Joâo Crisóstomo: "Nossa vida deveria
ser tão pura que não precisasse de escrito nenhum: a graça
do Espírito Santo deveria substituir os livros. E, como estes
estâo escritos com tinta, assim os nossos corações deveriam
ser escritos pelo Espírito Santo. Somente porque perdemos essa
graça, devemos utilizar os escritos. Mas quanto melhor era
o primeiro modo! Deus nos mostrou claramente (...). Aos discípulos,
Jesus não deixou nada por escrito, mas prometeu-lhes a graça
do Espírito Santo: "Ele - disse - ensinar-vos-á todas as
coisas" (...). A nossa vida, logo, deveria ser pura, de
forma que, sem ter necessidade dos escritos, os nossos corações
ficassem sempre abertos à guia do Éspírito Santo... Pois é o
Espírito Santo que desceu do céu quanto foi proclamada a nova
lei, e as tábuas que ele gravou nessa ocasião são muito superiores
às primeiras: porque os apóstolos não desceram do monte trazendo
nas mãos, como Moisés, tábuas de pedra; mas vieram trazendo
0 Espíríto Santo em seus corações; que se tornaram - me
.,
diante a sua graça - uma lei e um livro vivos" (In Matth
Hom
1, n. 1: PG 57,13-15).
103.
Em outras palavras, o cristão que é dócil ao Espírito não precisa
de lei "externa". Mas, em razão da sua fragilidade,
para a grande maioria das pessoas, mesmo cristãs, as leis são
um meio pedagógico necessário para formar sua consciência, orientar
sua ação, aprender a discernir concretamente o bem. São um dom
de Deus, oferecido, como gesto de amor, para capacitar a viver
plenamente a vocação. Entre as leis, pode-se distinguir uma
hierarquia: a primeira de todas as leis (fundada no amor a Deus)
é a do amor universal, imparcial e concreto
para
com todas as pessoas humanas. Os mandamentos do decálogo (não
matar, não cometer adultério, não furtar...) são expressões
fundamentais desta mesma lei. A consciência das pessoas
- tanto no Estado como na Igreja será regulada também por outras
leis, de caráter mais provisório, que devem ser reformadas com
a evolução dos tempos, para que sejam melhor expressos - em
novos contextos - os valores fundamentais (sobre a lei, of.
Catecismo da Igreja Católica, 1950-1986).
104.
A confrontação da lei moral com situações específicas, especialmente
com casos novos e inéditos, e, mais do que isso, a atenção
a novos desafios éticos, que esperam de indivíduos e comunidades
uma resposta crïtica, exigem por parte de cada qual um trabalho
de discernimento. Na crise ética atual, a necessidade de discernimento
é urgente. A pessoa honesta, o cidadão responsável, o cristão
convício, que querem agir coerentemente, na busca da solidariedade
com a família humana, não podem simplesmente remeter suas decisões
à ciência ou à técnica (que, como vimos, tendem a prescindir
da ética), nem à opinião pública, dominada pela incerteza, pelo
relativismo e pelo subjetivismo. Ao contrário, a sociedade
precisa, hoje, de indivíduos capazes de ir contra a corrente;
que defendam, em nome da ética, normas e práticas autênticas;
que superem o oportunismo, o utilitarismo e o egocentrismo mesquinho;
que estabeleçam relações mais humanas; que optem pelo interesse
de todos.
105.
A pessoa comum, para buscar o agir reto nessas condições, valer-se-á
não apenas da reta intenção, mas de sua própria experiência
de vida, na qual procurará discernir
entre
positivo e negativo, entre fidelidade ao ideal ético e eventuais
fraquezas. Contará também com sua relação com a comunidade,
em seus diversos níveis, acolhendo criticamente as tradições
de sua cultura, as leis da sociedade, as orientações de sua
religião, as decisões das autoridades. Discernir e avaliar
significa, antes de tudo, procurar compreender e articular
a própria experiência com a situação comunitária e os desafios
do futuro. Muitos fatores contribuem para uma avaliação prudente,
que pondere os diversos elementos em jogo, inclusive os apelos
à mudança e à ação que estão inscritos no presente e apontam
para um futuro novo.
106.
As condições do nosso tempo exigem novas atitudes também no
campo do discernimento ético. Quanto mais crescem os vínculos
de solidariedade entre pessoas e povos, quanto mais os atos
humanos repercutem sobre a convivência e o meio ambiente, exercendo
um peso determinante sobre o futuro do planeta Terra, tanto
mais o discernimento ético supõe uma pesquisa séria das conseqüências
sociais e ecológicas dos próprios atos. Isso pode e deve ser
realizado, especialmente, no âmbito das diversas profissões
e nas áreas técnico-científicas. Estas podem contribuir grandemente
para o verdadeiro progresso humano, se não se limitarem à busca
da utilidade instrumental de suas conquistas, sem medir-lhes
as conseqüências éticas em todas as dimensões do humano.
107.
A situação histórica em que cada pessoa se encontra inserida
nâo constitui apenas um condicionamento, mas um apelo. Os cristãos
dizem um "kairós", isto é, um tempo decisivo, que
abre uma oportunidade única de rea
lização.
Trata-se de um apelo não apenas a reconhecer algo que é bom
para a pessoa e a sociedade, mas a agir corajosa e criativamente.
Não é apenas luz para a inteligência; é chamado à decisão,
à determinação da liberdade.
108.
Concluindo, pode-se afirmar que a educação cristã da consciência
será, antes de tudo, educação para a docilidade ao Espírito
e educação para o amor, alma e síntese de toda a lei moral.
Também pode-se dizer que será educação para as virtudes (of.
Catecismo da Igreja Católica, 1803-1829), para as "atitudes
firmes e estáveis" na procura do bem, mais do que procura
escrupulosa de determinar regras e preceitos para todo e qualquer
caso. Finalmente, será educação para o discernimento prudente
e criativo, que colhe a oportunidade de contribuir para a realização
de uma nova sociedade.
2.2
- Comportamento individual e ética social
109.
Na perspectiva cristã, não há separação entre conversâo individual
e reforma das estruturas sóciopolíticas, entre moralidade pessoal
e ética social (of. Catecismo da Igreja Católica, 1888;
Doc. de Puebla, nQ 1155, 1221). O pensamento cristão
julga impossível construir uma sociedade bem ordenada, que
conjugue liberdade e solidariedade, sem que os indivíduos procurem
inspirar seu comportamento em critérios éticos.
110.
No mesmo sentido, faz parte da busca de uma nova ética a crítica
da concepção liberal da democracia, que se baseia apenas na
aceitação das "regras do jogo". Procura
se,
ao contrário, encontrar um consenso substancial quanto aos
valores que devem reger a sociedade atual, indispensáveis para
o efetivo reconhecimento da dignidade da pessoa humana.
111.
Se, como vimos, ético é o comportamento que tem por princípio
a realização de todos, não haverá comportamento ético no
indivíduo sem uma dimensão política. A relaçâo com o
outro necessita da mediação de canais de informação e participação
nas decisões, de instituiçôes e estruturas adequadas, que reduzam
as desigualdades sociais.
112.
Inversamente, uma sociedade dominada por um sistema econômico
e político a-ético desestimula a moral individual e exige do
cidadão consciente uma atitude crítica perspicaz e uma firmeza
corajosa, quando não heróica, para inverter a tendência e permanecer
fiel à honestidade e à justiça.
113.
Coloca-se, de qualquer forma, o problema de um possível conflito
entre a consciência do indivíduo e a vontade do Estado, seja ele
autoritário, seja democrático e respeitoso dos direitos individuais.
O conflito pode ter origem nas convicções religiosas do indivíduo.
A Igreja Católica deseja que a liberdade religiosa seja
respeitada pelo Estado, sem outras restrições que não aquelas
absolutamente necessárias, como no caso em que certas práticas
religiosas implicassem conseqüências negativas para outras
pessoas ou estabelecessem formas de discriminação, o que negaria
a uns o direito exigido por outros (of. Concílio Vaticano II,
Dignitatis Humanae, 7). 114.
O Estado não pode forçar alguém a agir contra a sua consciência;
só pode impedi-Io de realizar ações prejudiciais ao bem comum
ou à ordem pública. Em geral, o uso da força é lícito somente
em último caso, depois de ter tentado outros recursos, quando
uma pessoa ou grupo se recusam a abandonar um comportamento
mau e injusto ou a praticar ações a que estão moral e legalmente
obrigados. Este princípio deve ser lembrado porque, em nossa
sociedade, não apenas a autoridade recorre com demasiada facilidade
ao uso da violência, provocando freqüentemente vítimas inocentes,
mas até grupos privados generalizam o uso da violência, para
encobrir ou impor atividades criminosas, e outros grupos recorrem
a outras formas de agressão e de manipulação cultural.
115.
Mais amplamente ainda, devemos nos perguntar se, ao contrário
da propalada convivência pacífica entre os cidadãos e da solidariedade
nos meios populares, cidades e regiões do nosso país não estão
se transformando em terreno de um "bellum omnium contra
omnes", uma espécie de guerra de todos contra todos, não
somente pelo freqüente uso da violência física, mas também por
um espírito de agressividade mútua, de competição e de individualismo
exacerbado.
116.
Neste momento de crise da sociedade e de desagregação de muitas
das antigas formas de solidariedade, que deixam lugar à defesa
a qualquer preço dos interesses particulares ou corporativos,
somente uma redescoberta de uma ética verdadeiramente universal
poderá contribuir à reconstrução de uma sociedade reconciliada.
Aos cristãos e a todas as pessoas de boa vontade renovamos
o apelo para que sejam "construtores de paz" (of.
Ml 5,9).
5i
2.3
-A pessoa entre fracasso e realização
117.
A violência e a injustiça sâo, hoje, o sinal mais evídente
do fracasso da nossa sociedade no plano ético. Além de uma leitura
sociológíca das causas dessa situação, como cristãos fazemos
uma leitura teológica. Uma ênfase excessiva sobre o pecado individual,
de um lado, mesmo no meio da tradição católica, e a recusa moderna
da noção de culpa, por outro lado, têm contribuído para a "perda
do sentido do pecado", percebida e denuncìada pelo Magistério.
Ela manifesta não apenas uma menor sensibílídade religiosa,
enquanto o sentido do pecado está intrinsecamente ligado à responsabílidade
perante Deus, mas também uma menor sensibilidade moral, que
afeta a todos, mesmo aqueles que não queiram fazer uma explícita
profissão de fé.
118.
Convém frisar como os pecados individuais geram "estruturas
de pecado" chamadas também, por analogia, "pecados
sociais" (of. Catecismo da Igreja Católica, 1846187b).
É significativo que já o Apóstolo Paulo usasse quase exclusivamente
o termo "pecado" no singular, para indicar uma força
personificada, que exerce uma tirania sobre a vida das pessoas
humanas, reduzídas, assim, a uma condição de alienação ou
de escravidão (of. Rm 5,1221; 6,17-20; lCor 15,21; Ef
2,3; Gl 5,17,21). O Apóstolo - e com ele a Igreja - acredita,
porém, que Cristo venceu o pecado. A plenitude da salvaçâo vem
da graça de Cristo, como dom gratuito de Deus, acessível a toda
pessoa humana, libertando-a do pecado e do império da injustiça
e da íniquidade (tf Rm 5,20). Esta libertação nâo é apenas dom
ou perdão. Ela suscita a necessidade de
uma
resposta, que corresponda ao amor do Deus libertador. O cristão
é chamado a se empenhar no caminho de sua libertação e da
libertação da humanidade, fazendo do dom recebido também uma
tarefa permanente, um empenho cotidiano, que inspira toda a
sua vida.
119.
Devemos reconhecer que o espírito de Deus age entre todos os
seres humanos, suscitando em sua consciência a busca do bem
e a participação na gigantesca luta pela justiça e pela libertação
do pecado, que atravessa toda a história humana. Nela, todas
as pessoas humanas, cristãs ou não, são solidârias: tanto no
sofrimento que a injustiça traz, quanto no empenho pela libertação.
Sobre esta solidariedade se apóia o diálogo entre a Igreja e
a sociedade, na busca de um futuro que corresponda aos anseios
de paz e à esperança de justiça da humanidade (of. Gaudium
et Spes, 40-44).
2.4-Igreja
e educação moral
120.
A Igreja católica sente-se responsável, perante Deus, não somente
por anunciar a mensagem evangélica, mensagem de graça e esperança,
mas também por indicar princípios e normas morais, tanto no
plano individual quanto na ordem social, na medida em que os
considera necessários à salvação que anuncia e ligados a direitos
fundamentais das pessoas (of. Catecismo da Igreja
Católica, 2032).
121.
Na sociedade brasileira, nas últimas décadas, o Episcopado tem-se
esforçado especialmente para expressar as "exigências
cristãs de uma ordem política" e as
"exigências
éticas da ordem democrática" (of. Documentos da CNBB,
nQ 10, 1977, e n 42, 1989). Em geral, seu ensinamento e
sua atuação parecem contar com a aprovação e a confiança
da grande maioria dos brasileiros, o que torna ainda maior a
nossa responsabilidade perante a questão ética.
122.
A Igreja contribui para a formação das consciências não apenas
através de pronunciamentos ou documentos magisteriais. Os princípios
morais e sociais são, em tese, acessíveis ao conhecimento humano,
mesmo sem iluminação religiosa ou evangélica. A Igreja crê,
contudo, que a prática correta e generosa da moral individual
ou da ética social precisa da solidariedade da comunidade eclesial
e das diversas formas com que ela procura educar a fé e fomentar
a caridade, levando ao seguimento de Cristo, bem como elevar
seu louvor a Deus e promover a santificação dos fiéis, por meio
da celebração dos sacramentos. Entre eles contribui eficazmente
à formação da consciência moral o sacramento da penitência,
junto com as outras expressões de conversão, penitência e reconciliação,
que querem ajudar as pessoas a renovar continuamente uma vida
moral voltada para a santidade. Também a direção espiritual
e as outras formas de educação da consciência, individuais ou
comunitárias (como a revisão de vida, a reflexão bíblica em
pequenos grupos, o diálogo fraterno sobre o compromisso na sociedade)
contribuem para manter o cristão vigilante e disposto à renovação
e ao crescimento.
123.
A importância que a Igreja católica e, em geral, toda
a tradição bíblico-cristã atribuem à dimensão ética
se
toma evidente na identificação da santidade com a oferta da
própria vida, como "hóstia viva, santa, agradável a Deus"
(Rm 12,1). Todos os fiéis são chamados a exercer juntos,
em Cristo e na Igreja, este sacerdócio, marcado pela fé e a
entrega a Deus, segundo o exemplo do próprio Cristo, mas cuja
substância é constituída precisamente pelos atos morais, pela
atuação livre da pessoa, pela sua prática da justiça e do amor
(of. Lumen Gentium, 10; Catecismo da Igreja Católica,
2031).
124.
Na sua história, porém, a Igreja faz também experiência da
"distância que separa a mensagem que ela revela e a fraqueza
humana daqueles aos quais o Evangelho é coo lado" (Gaudium
et Spes, 43, par. 6).
12S.
A recente Conferência Geral do Episcopado latinoamericano,
realizada em Santo Domingo (1992), constatava a "realidade
de um Continente no qual se dá um divórcio entre fé e vida ao
ponto de produzir clamorosas situações de injustiça, desigualdade
social e violência" (Conclusões, 24). Muitos se perguntam
por que um Continente, que se diz cristão, apresenta situações
de desigualdade entre as mais extremas e trágicas do mundo.
A resposta envolve, sem dúvida, dados históricos, políticos,
econômicos, sociais e culturais. Mas é preciso reconhecer também
o "divórcio entre fé e vida". Uma das causas desse
divórcio está na separação que se criou, até hoje, entre leigos
e clero, ficando esse último com a responsabilidade da reflexão
teológica e ética, enquanto o povo cristâo se alimentava mais
de devoções do que de uma espiritualidade de atuaçâo cristã
na família, na profissão, na economia, na política, na cultura...
126.
Essa situação nos impõe, hoje, uma revisão de atitudes do passado
e a criação de novas atitudes, como, por exemplo:
-
a superação da distância entre clérigos e leigos, hierarquia
e povo, intensificando a comunicação e o intercâmbio, fazendo
participar ativamente os cristâos, engajados nas "realidades
terrestres", da elaboração de orientações éticas adequadas
à sociedade presente e futura;
-
a revisão de alguns aspectos da moral tradicional, que foram
utilizados para justificar a escravidão, o racismo, o machismo,
a desigualdade, a violência, e hoje exercem influência negativa
na avaliação do corpo, da sexualidade, da dignidade da mulher,
da dívida da sociedade para com os discriminados de ontem e
de hoje;
-
a revisâo de uma moral individualista, demasiadamente centrada
nas questões pessoais ou privadas, em detrimento de uma ética
social e política, que se torne alma de uma atuação corajosa
e lúcida dos cristãos na edificação da sociedade e da cultura;
-
a busca sempre renovada dos ideais e valores evangélicos, para
não se deixar subjugar pelo sistema econômico e político.
127.
Para continuar e aprofundar a reflexão sobre este tema, com
a colaboração vinda dos fiéis leigos e de sua vivência cristã,
estamos oferecendo o presente documento.
IV
- ORIENTAÇÕES PRÁTICAS 128. Tanto uma ética plenamente
humana quanto as exigências éticas do Evangelho nos impelem
a dar passos indispensáveis à renovação ética da sociedade e
da pessoa. Nessa tarefa, é fundamental superar a distância
entre ética pública, que define a responsabilidade de todos
e de cada um na busca do bem comum, e ética privada, que define
o caminho da realização da pessoa. Essas duas áreas não devem
ser separadas como se fossem dois caminhos, duas éticas; ao
contrário, visam a um único projeto de renovação pessoal e
social.
1
- Ética pública
129.
A ética pública diz respeito à condução da "coisa pública",
ou seja, à responsabilidade do cidadão, dos grupos ou instituições
da sociedade pelo bem comum. Exige uma proposta ética e um projeto
político, com suas estratégias, que, iluminados pelos princípios
de solidariedade e subsidiariedade, orientem pessoas e instituições
no exercício de seus direitos e deveres.
130.
Só assim a sociedade terá condições de lutar contra os seus
males mais evidentes, tais como a violência e o desprezo pela
vida, a tortura, a droga, os seqüestras, o excessos
do poder policial, a corrupção e a sonegaçâo fiscal, o desvio
do dinheiro e a malversação dos bens públicos, o abuso do poder
econômico e político, o poder discricionário dos meios de comunicaçâo
social.
131.
Não se trata de um moralismo fácil, reivindicando, de forma
genérica, "honestidade" na vida pública, mas sim,
da busca de um projeto comum de sociedade eticamente regulada.
Isso exigirá dos vários setores que servem à sociedade não
o engodo de promessas que suscitam expectativas irreais e provocam,
depois, decepção e indignação, mas programas e projetos que
respondam às reais necessidades do povo.
1.1
-Área da política e do serviFo público
132.
Impõe-se, como primeiro passo, restabelecer uma correta relação
entre o que é público e o que é particular, para que a esfera
pública nâo seja administrada predominantemente em função de
interesses particulares, mas seja organizada por instituições
que permitam efetivamente a participação democrática e a distinção
entre o público e o privado.
133.
O debate político e a vida pública devem reencontrar
a dignidade da política como edificação da "pólis",
ou seja, da cidade humana, onde todos encontram oportunidade
de realização pessoal e de comunhão solidária. Não se trata
apenas de distribuição de recursos e de satisfazer a grupos
de pressão. A mera negociação de interesses, dentro
de uma visão da política como mera técnica de poder, não é capaz
de gerar, por exemplo, o "pacto social" que tantos
julgam imprescindível a nosso País. Assim, a ética pública é
condiçâo para a solução até mesmo de problemas estritamente
econômicos, como a inflação.
134.
A política é, por essência, ética, pois se refere sempre
à liberdade e, essencialmente, à justiça. Não é mera arte
ou técnica de exercer o poder, mas o exercício da justiça
pública. Santo Agostinho, muito oportunamente, declarou: "Removida
a justiça, o que são os reinos senão um bando de ladrões?"
("Remota itaque justitia, quid sunt regna nisi magna latrocinia?"
De Civ. Dei, 1. IV, 4). Pois "é sobre a justiça
que o trono se firma" (Prov 16,12). Sem essa base,
instala-se a opressão, como a história não se cansa de mostrar.
135.
Lembramos ainda que, na política, duas forças devem ser unidas
e, quanto possível, conciliadas: a força do poder e a força
da razão e dajustiça. Ambas são necessárias. Mas a força ideal
da justiça deve guiar a força bruta do poder. Como dizia Pascal:
"A justiça sem a força é impotente; a força sem a justiça
é tirânica. É preciso juntar a justiça e a força; para consegui-Io,
é preciso fazer com que o que é justo seja forte e o que é forte
seja justo".
136.
Recupera-se o espírito público, seja na administraçâo, seja
na vida política, não apenas combatendo abusos e desvios, nem
apelando para a boa vontade dos sujeitos, mas adotando estruturas
e instituições adequadas. Para isso é necessário tomar medidas
objetivas de descentralização do poder, de informação e transparência,
de participação nos diversos níveis, de promoção das instituições
da sociedade civil - como associações profissionais, sindicatos,
escolas, organizações não-governamentais (ONGs), Igrejas etc.
-, que garantam o exercício da responsabilidade cívica e controle
do poder político.
Entre
essas medidas deve ser vedado a qualquer organismo do poder
público a faculdade de estabelecer, de modo independente, a
remuneração de seus membros. A remuneração dos representantes
do povo deve obedecer a critérios de justiça social, de modo
a diminuir a distância entre os salários mais altos e o salário
mírumo. 137. A recuperaçâo da política passa pela formação e
pela moralização dos políticos. Se existe, hoje, um descrédito
da atividade política e da administração pública em todos os
níveis (federal, estadual e municipal), é que há maus políticos.
Eles são os maiores responsáveis pelas imoralidades que acabam
por desmoralizar a política. Im
orta,
pois, encorajar os políticos bem intencionados para que atuem
como fermento de uma "nova prática política". Que
sejam verdadeiros "homens de Estado" compenetrados
de sua alta vocação ética, magnânimos e não omissos ou coniventes
com os "negociantes do poder", enredados em jogadas
pessoais e mesquinhas.
138.
Recuperar a lei como instrumento de justiça. Existe, no Brasil,
a mentalidade de que a lei se aplica aos inimigos e o benefício
aos amigos. Os pobres e pequenos são condenados; os ricos e
poderosos gozam, na prática, de im unidade. Há uma constatação
de que o legal fre
P
" qüentemente nâo coincide com o legítimo. A floresta
de leis nâo resolve os problemas essenciais. Para questôes
mais graves nota-se um vazio legislativo, deixado ao capricho
dos mais fortes, como, por exemplo, a demora da aprovaçâo de
leis complementares. É também exigência ética uma atuação menos
morosa e mais eficaz do Poder Judiciário, de modo que não deixe
impunes os
grandes
crimes e procure efetivamente defender os direitos dos mais
fracos.
139.
Romper o laço que une a política aos negócios. O processo
político democrático administra o "negócio" de todo
o povo e não os negócios privados, segundo 0 viés patrimonialista
do Estado brasileiro. Enquanto a força do poder econômico determinar
a política, através do financiamento de campanhas, lobbies,
relações privilegiadas, poder de barganha de grupos junto ao
governo etc., a política será fonte de corrupção, injustiça
e instabilidade social.
140.
Transparência do discurso dos homens públicos. É preciso também
superar o costume de políticos, técnicos, admirostradores, magistrados
e, inclusive, eclesiásticos, falarem numa linguagem complicada,
obscura, difícil. Hoje, mais do que nunca, é necessário repropor
a ética evangélica do "sim sim, não não".
141.
Chamamos a atenção para a questão da veracidade. Pois a mentira,
na vida pública, tornou-se uma prática tão habitual em nosso
mundo que se pode falar num verdadeiro vício, tornando a política
sinônimo de mentira.
142.
Ética dos serviços públicos. Quem não se revolta
com o descaso no atendimento aos usuários dos serviços públicos,
a morosidade, a irresponsabilidade, o parasitismo, a falta de
compaixão com o sofrimento dos pobres no INSS, nas escolas,
hospitais, fóruns, delegacias e outros órgãos de atendimento
ao grande público? As filas intermináveis dos aposentados,
dos doentes e outras categorias humildes são o sinal mais claro
da insensibilidade so
ciai
e do descuido de muitos de nossos servidores. Ora, os serviços
públicos, para serem éticos, hão de ter também estas qualidades:
serem acessíveis, eficientes e rápidos. Mas para isso, além
de uma adequada remuneração, é importante a formação permanente
dos funcionários para o espírito público, para o "senso
do serviço" ao povo necessitado.
143.
Como não denunciar a grande criminalidade dos que desviam, em
proveito pessoal, enormes somas dos órgãos públicos, provocando
escândalo e revolta, muitas vezes impotentes, da parte dos humildes,
a quem estavam destinados esses bens? Como não solicitar que
os crimes mais graves sejam punidos e que a lei não seja severa
apenas com os pequenos infratores, sem jamais atingir os poderosos
e espertos? Como tolerar que a um grande número de denúncias
comprovadas de corrupção e prejuízos dos cofres públicos não
corresponda igual número de punições e ressarcimento? A impunidade
é um incentivo constante para novos crimes e novas violências.
1.2
-Área da economia
144.
O modelo econômico neoliberal se caracteriza pela separação
entre economia e ética (of. Diretrizes Gerais da
Ação Pastoral 1991-1994, nQ 154). Cria-se, desta forma,
"um sistema onde a liberdade no setor da economia não se
enquadra num sólido contexto jurídico que a coloque a serviço
da liberdade humana integral e a considere como uma particular
dimensão dessa liberdade, cujo centro seja ético e religioso"
(CentesimusAnnus 42). O mo
delo
neoliberal tende a prevalecer não apenas no Brasil, mas também
nas relações internacionais. Prejudica especialmente os mais
pobres (of. DSD 181). Em particular, são eticamente injustas
e questionáveis as condições da dívida externa dos países do
terceiro mundo. Os juros cobrados constituem, às vezes, uma
forma de usura, tantas vezes condenada pela Igreja.
145.
A economia de mercado, em nosso País, visa muito pouco o bem
da pessoa humana. Pelo contrário, esta é reduzida a uma mercadoria
em vista do lucro. Para que a economia se enquadre eticamente,
é necessário que se criem normas e se organizem instituições
destinadas a situar a liberdade econômica dentro do contexto
das demais liberdades sociais. A regulação através do mercado
não pode ser a única e nem mesmo a principal forma de conciliar
o privado e o público. A política (entendida como acima vimos)
e a própria história e cultura de um povo impõem que a sociedade
se dote de estruturas sociais capazes de fazer valer os fatores
humanos e morais (of. CentesimusAnnus, 35) e de garantir
o controle democrático sobre os meios de produção. É tarefa
do Estado "prover a defesa e a tutela de certos bens coletivos,
como o ambiente natural e o ambiente humano, cuja salvaguarda
não pode ser garantida por simples mecanismos de mercado"
(Centesimus Annus, 40). As normas e instituições a que
nos referimos deverão também regular as relações da economia
de mercado propriamente dita com as demais formas de produção
existentes no Brasil, como a economia informal, as relações
não-assalariadas, o extrativismo artesanal etc.
146.
O processo de modernização, em virtude da nova revolução tecnológica,
põe a ciência como um fator decisivo na produção da riqueza
e faz diminuir a importância do trabalho manual. Tal processo
pode ser valioso enquanto garante o direito elementar do trabalho
para todos e a preservação da natureza. Entre nós, no entanto,
ele tem significado um agravamento quantitativo e qualitativo
da pobreza, provocando o aparecimento de massas de excluídos,
destituídos de qualquer condição de vida decente.
147.
A empresa, na medida em que é parte de um sistema social maior,
tem também um papel público. O empresariado deve ter a consciência
de que "há necessidades coletivas e qualitativas que não
podem ser satisfeitas através dos mecanismos do mercado"
(Centesimus Annus, 40). Mais: deve desenvolver uma vontade
política e eticamente fundada de contribuir positivamente para
a satisfação dessas necessidades. Essas são condições indispensáveis
para que a economia se ponha a serviço de uma sociedade democrática,
justa e solidária.
148.
Por isso, nem os empresários, nem os trabalhadores e os respectivos
sindicatos deveriam envolver-se em política, com vistas apenas
a interesses corporativos. Isto seria uma forma de "neofeudalismo",
em que cada grupo se fecha em seus interesses e disputa para
si os favores do Poder, sem preocupação com o todo social.
149.
A essa visão ética da atividade econômica se contrapõem
frontalmente alguns dos males mais difusos na economia do País:
a especulação financeira, a política tributária injusta e a
sonegação fiscal. Por esta os agentes 64
econômicos
se negam a contribuir, conforme de justiça, à manutenção dos
serviços necessários e mesmo essenciais ao bem comum. Reforçam,
assim, a já escandalosa concentração da renda, quando é exigência
ética oferecer a todos escola, moradia, saneamento básico e
erradicar a fome no país inteiro.
1.3
-Área da Comunicação Social
150.
Numa sociedade planetária, cada vez mais complexa e urbanizada,
cresce a importância de uma comunicação transparente e veraz.
Para ser verdadeiramente humana, respeitando a dignidade da
pessoa, a comunicação deve ser dialogai. Deve possibilitar a
troca de experiências entre as pessoas envolvidas no processo
de comunicação, superando a mera informação. Exige que se evite
a manipulação e se favoreça a atitude crítica, tendendo para
a igualdade de condições entre os parceiros.
151.
Os meios de comunicação social, que têm um papel fundamental
na tarefa de informação, formação e promoção cultural, devem
estar a serviço do bem comum. "A sociedade tem direito
a uma informação fundada sobre a verdade, a liberdade, a justiça
e a solidariedade" (Catecismo da Igreja Católica, 2494).
152.
É preciso manter firmemente o direito à liberdade de expressão
e à diversidade cultural. Para garantir uma informaçâo livre
e honesta, no entanto, os meios de comunicação social não podem
ser dominados por poucos, numa situação de quase monopólio.
Não podem manipular a opinião pública através da seleção da
informação,
fora
de critérios de verdade e de justiça, ou por meio de publicidade
enganosa, gerando necessidades fictícias e falsas expectativas,
ou pela exploração da violência e da pornografia que invade
a privacidade das pessoas e das famílias.
153.
Cabe à sociedade, por sua vez, promover a democratização dos
meios de comunicação social, garantindo 0 acesso de todos à
informação e ao debate dos diferentes pontos de vista políticos
e culturais. Cabe também, tanto mais enquanto persiste o controle
de poucos sobre os meios de comunicação social, a formação de
uma consciência crítica dos usuários para que superem a mera
condição de consumidores ou espectadores (of. Catecismo
da Igreja Católica, 2495-2499). Os usuários devem dispor
de instrumentos legais para se manifestar diante de omissões
ou abusos da mídia como, entre outros, o Conselho de Comunicação
Social.
2
- Ética profissional
154.
Decorre da própria natureza social do ser humano que o bem de
cada um seja necessariamente relacionado com o bem comum. Por
isso, o exercício de qualquer pra issão na sociedade deve submeter-se
a normas éticas decorrentes desse princípio orientador da responsabilidade
de todos e de cada um, na busca do bem comum.
155.
A época atual - onde ciência e técnica adquirem um peso sempre
mais determinante - valoriza de um modo particular a profissão
e o "profissionalismo", feito de competência técnica
e de dedicação constante. O au66
mento
da produtividade e o aperfeiçoamento das tecnologias, no entanto,
leva, em muitos setores, à dispensa do trabalho humano menos
qualificado, e ao crescimento do desemprego.
156.
Nesse contexto, pesa sobre governantes, sindicatos, Igrejas,
empresários, juízes, educadores e outros segmentos da sociedade,
o dever de lutar contra a exclusão social, promovendo a educação
de base, a formação profissional, a disseminação da nova cultura
tecnológica, a negociação na introdução de novos meios de produção
etc. Devido ao avanço impressionante da informática e das telecomunicações,
todos os profissionais (pessoal qualificado de nível superior
ou médio, na indústria ou nos serviços) lidarão cada vez mais
com informações. Neste sentido, estão sujeitos ao dever da transparência,
que é hoje exigência de justiça. Nem sempre a deontologia (ou
"código de ética") de uma categoria profissional consegue
superar a defesa dos interesses corporativistas. Em nome do
bem comum, os profissionais, em primeiro lugar os que professam
a fé cristã, bem como todos os que aspiram a prestar um serviço
à sociedade, devem levar em conta as exigências éticas fundamentais
e cristãs no exercício da profissão, inclusive revendo os seus
códigos de ética profissional.
157.
É lamentável que ainda não se tenha tomado consciência de que
desvios éticos da sociedade provenham da ausência de formação
ética de muitos profissionais. Essa formação deve ser proporcionada
em todos os níveis de escolaridade, sobretudo nas universidades,
onde faz-se necessário incluir nos currículos de estudos as
exigências
éticas
das diversas profissões e atividades científicas. Não são suficientes
simples cursos de deontologia que se restrinjam ao ensino dos
limites fixados pela lei ou até procurem meios de escapar às
suas sanções.
158.
Numa sociedade em que há tanta marginalização, devido à desqualificaçâo
cultural e profissional, o poder público, as instituições educativas
e todos os cidadãos devem se unir para a valorização e a promoção
do ensino q ,
ue
dê a todos acesso à educação. A pessoa humana qualificada se
realiza mais como pessoa e é a grande riqueza da sociedade.
159.
Uma das mais acentuadas características da modernidade é a
reivindicação de autonomia de cada esfera social. Assim, o empresário
é estimulado pelas estruturas econômicas a buscar somente o
lucro. O político é impelido a buscar o poder. O cientista
é solicitado a pesquisar sempre mais. A prática da pesquisa
nos oferece a oportunidade de recordar um princípio, que pode
ser aplicado analogamente a outras atividades, técnicas ou profissionais.
A ciência pretende afirmar-se como autônoma frente aos interesses
econômico-políticos e mesmo aos valores éticos. Esquece, porém,
que sua atividade tem dois aspectos. Por um lado, a ciência
produz uma forma de saber, que não deve ter outro critério senão
a busca da verdade; aqui reside sua autonomia. Por outro, a
ciência é uma atividade humana, que não escapa a condicionamentos
econômicos, políticos, culturais. Por isso, o cientista não
pode ignorar questões como: A que serve minha pesquisa? Que
prioridades devo respeitar, tendo como criténo o bem comum
da sociedade? É lícito ou não fazer
certas
pesquisas? Pensar que se possa fazer tudo o que é possível,
é exatamente aceitar um princípio anti-ético, porque implica
em poder fazer também o que é mau, o que pode prejudicar os
outros, o que não é eticamente aceitável(cf. Donum Vitae,
Introd. 2,5).
160.
Determinar, hoje, o que é lícito ou não, na pesquisa científica,
na prevenção da doença, na ação política, na economia, no comércio,
na organização social, na comunicação, torna-se freqüentemente
difícil, pela complexidade dos problemas e também pela ausência
de rellexão ética específica. Cabe aos profissionais, em diálogo
não apenas com os colegas, mas também com pensadores e teólogos,
levando em conta os princípios éticos fundamentais, buscar
- no seu próprio campo - uma ética profissional correta e praticá-Ia.
3
- Ética pessoal
161.
Não se pode separar a ética aplicada à vida pública e profissional
daquela que se aplica à vida pessoal e familiar. Queremos destacar
apenas alguns aspectos em que a responsabilidade ética das pessoas,
na atual sociedade, é mais exigida.
3.1
- Corpo e sexualidade
162.
A pessoa humana se descobre a si mesma como um ser sexuado,
isto é, como portadora de uma energia que aponta para a comunicação
com o outro. Por esta razão, a sexualidade humana se revela,
em primeiro lugar, como um símbolo que torna possível o encontro
en
ire
seres conscientes e livres e, assim, é o espaço para a conquista
da personalização e da integração entre as pessdas, quer em
nível afetivo, quer em nível social. Nesta perspectiva, a sexualidade
se apresenta como caminho privilegiado para a relação com Deus,
uma vez que seu sentido mais profundo é o amor. Quando o egoísmo
comanda a sexualidade, ela nega sua orientação mais profunda
e leva a pessoa humana a se fechar aos outros e a Deus.
163.
A sexualidade humana é uma realidade muito rica ,
dotada
de muitas dimensões: genética, hormonal, biológica, afetiva,
social, cultural, religiosa, política... Por ser tão fundamental
na vida humana, é trágico quando ela é instrumentalizada na
direção da alienação. A absolutização de uma de suas dimensões,
como por exemplo, a do prazer, pode ser mecanismo que fere
a dignidade da pessoa, afastando-a de um engajamento na solução
das grandes questões que marcam a vida social. Campanhas abortivas
e anti-natalistas provêm, às vezes, de uma concepção ideológica
que reduz a problemática social à questão da fertilidade das
famílias pobres.
164.
Neste sentido, a sexualidade como fato humano não pode ser reduzida
à genitalidade nem desligada quer do prazer de viver quer da
sociedade. Ela diz respeito à globalidade da vida pessoal e
social. Somos individual e socialmente seres sexuados.
165.
O recente fenômeno da resdescoberta do corpo nos revela, junto
a novos valores, também aspectos negativos e reducionistas do
corpo humano e da sexualidade, levan
do
a sociedade a uma crescente erotização, especialmente nos meios
de comunicação social, nas modas e nos carnavais.
166.
Essencialmente somos "seres corpóreos". O corpo não
é mero objeto da natureza biológica; ele é o lugar de relações
humanas e sociais. No corpo e pelo corpo nos realizamos pessoal
e socialmente. Como criação abençoada por Deus, o corpo humano
não pode ser reduzido a objeto, nem de exploração (através do
trabalho, da prostituição, da escravização de todo tipo), nem
de consumo "
privado"
("sou dono de meu corpo"; "faço dele o que eu
quiser"...).
167.
Nosso corpo tem uma dimensão humana que o diferencia do mundo
animal e o constitui em dignidade e valor peculiar (of. GS 14;
51) e uma dimensão social. Pelo corpo, a pessoa humana entra
na rede de relaçôes que constitui a realidade social, complexa
e multiforme, que forma a famlia humana. A visão individualista
é, pois, inaceitável; deve-se afirmar a solidariedade humana
como exigência ética para a própria realizaçâo da sociedade.
168. O reconhecimento do sentido humano do corpo e da sexualidade
deverá, portanto, vir acompanhado da exigência de corrigir
e superar atitudes eticamente redutivas, ligadas ao subjetivismo,
pelo qual se pretende dispor do próprio corpo segundo critérios
individualistas, ou ligadas ao egoísmo, que pretende dispor
do outro como mero instrumento de prazer próprio. Também implicará
o respeito tanto da igualdade fundamental de direitos, quanto
das peculiaridades dos dois sexos. Na formação sexual levem-se
em conta sempre os valores morais e religiosos.
3.2
-PromoFão da vida e da família
169.
O aumento da violência na sociedade, os atentados à vida humana
e à sua dignidade e a atual situação de desagregação familiar
são outros indicadores da crise ética em que vivemos e da necessidade
de buscar novos ,
padrões
éticos para a promoção da vida e da família.
170.
A vida humana é sagrada" (Donum Vitae, Introd,
5). Fruto da ação criadora de Deus, ela continua em essencial
e permanente relação com ele, como a seu fim limo, de tal modo
que a ninguém é permitido, de forma
ma,
reivindicar para si o direito de destruir diretamente um ser
humano (of. ibidem).
171.
Por isso mesmo, "a vida humana deve ser respeitada e protegida,
de maneira absoluta, desde a sua conte ção, e ao ser humano
que aí se gesta devem ser reconhecidos os direitos da pessoa",
entre os quais o fundamental é o direito inviolável à vida (Donum
Vitae, I,l),
172.
Do mesmo modo, são moralmente inadmissíveis a eutanásia e outros
meios destinados a tirar a vida de pessoas anormais, de doentes,
como os aidéticos e outros (of. Catecismo da Igreja Católica,
2277). É necessário que se dêem aos doentes, particularmente
aos pobres, todos os cuidados indispensáveis; do contrário,
aos desprovidos de meios financeiros, estaremos deixando apenas
a morte como única saída.
173.
Reagir à crescente violência na sociedade
pena
de morte "significa assumir a próp c°m a
ria violência como forma de comportamento da sociedade",
além de ser "um
modo
de julgamento contrário aos melhores princípios da ordem jurídica"
(Declaração do Conselho Permanente da CNBB, Em Favor da Vida,
Contra a Pena de Morte. 27.6.91).
174.
O progresso das ciências biológicas e médicas possibilita "um
domínio cada vez mais vasto e profundo sobre os dinamismos
que presidem a procriação e as primeiras fases da vida humana"
(João Paulo II, Christifideles Laici, 38). Esse poder,
que se concentra, hoje, nas mãos dos cientistas, não deve levá-tos
à tentação de intervenções e manipulações perturbadoras do
patrimônio genético da humanidade (of. ibidem). É responsabilidade
de todos na sociedade submeter o saber científico e técnico
a normas éticas de defesa e promoção da vida humana.
175.
A promoção da vida tem na família um espaço privilegiado. Apesar
dos grandes desafios que pesam sobre ela em nosso País (of.
Documento de Santo Domingo, 216-221), deve ser resgatada
como "santuário da vida" (Centesimus Annus, 39)
e "célula primeira e vital da sociedade" (Familiaris
Consortio, 42). Contra ela estão "o egoísmo humano,
as campanhas contra a natalidade, as políticas totalitárias,
e também as situações de pobreza e miséria física, cultural
e moral, bem como a mentalidade hedonista e consumiste, (que)
conseguem extinguir as fontes da vida" (Christifideles
Laici, 40; of. Familiaris Consortio, 36). Diversas
visões ou sistemas de vida, aliados ao desinteresse e à falta
de amor, atentam contra a função educativa da própria famMia
(of. ibidem).
176.
Promover a família, hoje, significa também urgir as exigências
humanas e evangélicas do amor conjugal,
contra
os fermentos de dissolução dos laços de fidelidade e indissolubilidade
do matrimônio, em contradição com o desígnio do Criador.
Na verdade, "o amor conjugal comporta uma totalidade onde
entram todos os componentes da pessoa - apelo do corpo e do
instinto, força do sentimento e da afetividade, aspiração do
espírito e da vontade -; ele visa uma unidade profundamente
pessoal, que, para além da uniâo numa só carne, conduz a formar
um só coração e uma só alma; ele exige a indissolubilidade e
a fidelidade na doação recíproca definitiva; e se abre para
a fecundidade..." (Familiaris Consortio, 13. Cf.
Catecismo da Igreja Católica, 1643).
4
- Perspectivas para a Igreja
177.
Na tarefa de buscar novos caminhos para a ética não basta apontar
os sintomas da crise, mostrando as suas causas; nem mesmo é
suficiente atacar os seus efeitos maléficos na sociedade e nas
consciências. Faz-se necessário um esforço de todos para a
formação da consciência ética. A Igreja sabe que esta tarefa
cabe a toda a sociedade da qual ela faz parte. Por isso, seria
impossível levá-1a adiante sem um diálogo amplo e compartilhado,
envolvendo vários segmentos ou classes sociais, governo e povo,
empresariado, trabalhadores, organizações sindicais, instituições
representativas das diversas etnias, culturas e religiões, famMia
e escola.
178.
A Igreja, por sua vez, no seu papel de formadora da consciência
pessoal e social de seus membros, levará adiante sua missão
também no diálogo fraterno entre Pas
,
fores e fiéis, fazendo valer o "protagonismo dos leigos"
de
que nos falou o Documento de Santo Domingo (DSD 97, 103,
293, 302; of. também Catecismo da Igreja Católica, 2038).
179.
A formação da consciência ética nâo se promove apenas com apelos
para novas atitudes, comportamentos e práticas éticas em nível
pessoal e social. Ela exige, além disso: 1) estudo interdisciplinar,
envolvendo sobretudo as ciências humanas, para aprofundar a
compreensâo do "ethos" do nosso povo e sua maneira
própria de efetivar os valores éticos no contexto do atual pluralismo
cultural e religioso; 2) incentivo ao protagonismo dos leigos
para que atuem na sociedade como fermento evangélico de novas
práticas éticas nas várias áreas: na economia como na política;
na cultura como na educação; no âmbito da vida pessoal, familiar
e profissional.
180.
No diálogo com a sociedade, respeitando plenamente a autonomia
que lhe compete como realidade da ordem criatural, como contribuição
específica para a formaçâo da consciência ética, a Igreja apresenta
o Evangelho de Jesus Cristo, ao qual ela procura ser fiel numa
atitude de uma conversão permanente de todos os seus membros
e organismos. Busca, assim, a prática de uma ética do perdâo,
da verdade, da justiça e do amor, decorrente não apenas da
razão, mas da experiência vivida e ref7etida do seguimento de
Jesus Cristo, hoje.
181.
Possam essas reflexões contribuir para que a sociedade brasileira
desperte sua consciência moral e nela inspire a busca da responsabilidade
e da solidariedade. A
75
bênção
de Deus náo faltará a quantos se esforçam para devolver ao povo,
e principalmente às novas geraçôes, a confiança de que é
possível construir uma sociedade justa e solidária, em que toda
pessoa veja seus direitos reconhecidos e ela mesma, consciente
de seus deveres, contribua para o reconhecimento da dignidade
de todos.
ANEXO
PRONUNCIAMENTO
PROMOÇÃO DOS VALORES ÉTICOS
Todos
sentimos que, de anos para cá, os costumes da sociedade mudaram
muito. Está havendo um modo de pensar, de agir, de viver fora
dos princípios éticos até há pouco tempo respeitados e aceitos.
É o que se chama de crise ética. Pior ainda é a crise da Ética,
isto é, aceita-se como "natural" esta nova situação,
como se não houvesse norma para reger os atos humanos tanto
particulares, como públicos. Falta aceitação da necessidade
da Ética, que compreende os valores capazes de garantir a realização
pessoal e social do ser humano, conforme sua dignidade e o sentido
de sua vida.
É
geral esta crise, nâo só brasileira, mas característica da
vida moderna. Atinge a família, as modas, a escola, os negócios,
sobretudo os meios de comunicação social e as atividades políticas.
Não há dia sem notícias da desonestidade pública, de corrupção,
de abuso de poder, de exploração, de licenciosidade, de violência,
de humilhações aos necessitados de atendimento ou até de justiça.
Faz-se
necessário que lutemos todos para superar esta degradante situação,
para erradicar a corrupção e para implantar séria e profunda
reforma das instituições. Isto é possível. Há sinais de que,
em muitas áreas, já se buscam novos caminhos éticos.
Como
Pastores, queremos reafirmar que, sem uma sincera conversão
conforme os critérios éticos do evangelho, não seremos fermento
de uma nova sociedade. Propomo-nos, também, oferecer algumas
ponderações para os cristãos do nosso rebanho, para todos
os que vêem no Evangelho uma mensagem de Vida e Esperança e
para os que confiam na Igreja Católica como promotora dos
valores éticos. Juntamente com este Pronunciamento entregamos
à opinião pública do país outro documento mais amplo, mais sistemático
- "Ética: Pessoa e Sociedade" - que encaminhamos particularmente
à consideração dos dirigentes de nossa Sociedade: na educação,
na política, na economia e nos Meios de Comunicação.
Queremos
prestar um serviço à dinâmica democrática de nosso país, onde
poucos se tornam ricos cada vez mais ricos às custas de muitos
pobres cada vez mais pobres.
"A
existência de milhões de empobrecidos é a negação radical da
ordem democrática. A situação em que vivem os pobres é critério
para medir a bondade, a justiça e a moralidade, enfim, a efetivação
da ordem democrática. Os pobres são os juízes da vida democrática
de um país" (Exigências Éticas da Ordem Democrática, nQ
72).
I
- CRISE E REDESCOBERTA .
DA
ETICA
Nesta
situação de crise podemos, contudo, reconhecer sinais de redescoberta
da ética.
Na
sociedade de hoje, economia, política, ciência e técnica seguem
a sua própria lógica, sem referência à religião ou à ética.
Assim, o bem das pessoas é sacrificado e cria-se uma situaçâo
em que é muito reduzida a preocupação como bem comum. Os indivíduos
se sentem abandonados a si mesmos e levados a lutar cada um
por si.
Em
oposição a isso, manifesta-se a resistência de pessoas, grupos,
comunidades e movimentos sociais que buscam manter vivas as
exigências éticas nos diversos campos da atividade humana.
Neste
contexto, a sociedade atual estimula e alimenta o INDIVIDUALISMO,
que privilegia as opções e decisões do indivíduo, considerando
esclusivamente seus próprios interesses. Diz-se, com freqüência:
"você decide". É verdade que cada um é chamado a
tomar decisões pessoais. Mas é falso pensar que cada um pode
decidir apenas a partir de seus "gostos" particulares.
Na
decisâo deve-se prestar atençâo à voz da consciência que diz:
"Faça o bem e evite o mal". Cada um tem o dever de
formar a consciência procurando a verdade e discernindo o que
contribui para o bem.
O
individualismo tão exacerbado em nossos dias leva muitos a assumir
como princípio de vida: "Cada um para si"... Corrói-se,
por dentro, o sentido de fraternidade e de solidariedade. É
quase como repetir a palavra de Caim: "sou eu o guarda
de meu irmão?" (Gn 4,9).
Alegra-nos
constatar que em contraposição à tirania do individualismo,
surgem hoje muitos sinais concretos de autêntica busca da solidariedade,
especialmente através de grupos, movimentos e organismos que
lutam pela defesa e promoção da vida.
No
Brasil, o sistema colonial e escravocrata consagrou a desigualdade
e reforçou a arrogância do mais forte. Diz-se muitas vezes:
"Quem pode, pode". Quem tem poder (econômico ou político)
acha que pode fazer o que bem entender, gozar dos privilégios
que quiser, usar da violência e esbanjar a riqueza. Tudo isso
se opõe frontalmente ao princípio elementar da justiça e estimula
o recurso à VIOLÊNCIA.
À
lei do mais forte opõem-se a consciência da dignidade humana
e a defesa dos direitos dos fracos.
São
muitas as iniciativas de defesa dos direitos, de luta pela cidadania
e, não obstante certa desmobilizaçâo que hoje se constata no
Brasil, surgem iniciativas que estimulam a união dos pequenos,
o respeito à lei, a participação na edificação do bem comum,
a busca do estado de direito e o fortalecimento da democracia.
A
convivência social se deteriora não apenas pela violência,
mas hoje sobretudo pela CORRUPÇÃO. Ela criou raízes profundas
e temos dificuldades em erradicála de nosso País. Deformou-se
a bela palavra atribuída a
Sâo
Francisco de Assis: "É dando que se recebe". Muitas
vezes, os que deveriam ser os primeiros defensores e
promotores do bem comum passam a defender seus próprios interesses
através de negociações escusas. Dividem-se vantagens ilícitas,
desvia-se o dinheiro público para atender interesses particulares,
mantêm-se mordomias, vantagens e altos salários que afrontam
a miséria de nosso povo. A impunidade e a morosidade da Justiça
acabam estimulando a prática da corrupção, em detrimento do
bem comum.
Sabemos
que a luta contra a corrupçâo tem ainda pela frente longo caminho
por se percorrer. Mas já nos parece promissor o questionamento
a políticos que distanciam seus interesses das aspirações dos
eleitores, mostram pouca transparência no agir e se envolvem
na corrupção ou no abuso do poder. As iniciativas contra a corrupção
são sinais de esperança de uma renovação profunda da política
e da sociedade.
Promissor
também é o desempenho de políticos que, com honestidade, generosidade
e sacrifício, se dedicam ao bem comum, aos quais não deve faltar
o nosso estímulo e o reconhecimento do povo.
A
desigualdade gera, de um lado, situações de injustiça e de
pobreza e, de outro lado, leva o povo à prática do "jeitinho",
da esperteza, da malandragem e da busca da sorte. Daí o gosto
pelos jogos de azar, loterias e apadrinhamento por parte de
ricos e poderosos. Muitos admitem como válido o princípio "salve-se
quem puder" e passam a considerar como lícito qualquer
meio para assegurar a sobrevivência. A falta de esperança
em ga
rantir
sustento digno com trabalho honesto incentiva o recurso à desonestidade.
Torna-se
dramático o interrogativo ético que surge do contraste entre
a abundância de recursos econômicos e técnicos e a fome e a
miséria que destroem a vida humana.
A
indignação ética diante do drama da fome suscita como solução
emergencial a Ação da Cidadania contra a Miséria em favor da
Vida.
Com
satisfação, constatamos que se intensifica hoje, em muitos ambientes,
a discussão sobre ética e economia. Desse debate a Igreja Católica
tem participado ativamente, não somente através de pronunciamentos
do Papa e dos Bispos, como também pela atuação de muitos leigos
que buscam colocar em prática o ensino social da Igreja.
Se,
de um lado, constatamos a crise ética e da ética, de outro
lado, verificamos a recriação da ética pelos movimentos sociais
para novos estilos de vida marcados pelo sentido da liberdade
e da solidariedade, bem como a abertura para a experiência do
sagrado na vida humana.
Como
pastores, reafirmamos "Cristo, medida de nossa conduta
moral" e sentido pleno de nossa vida (of. SD 231). A
proclamação e implantação do Reino de Deus, por parte de
Jesus é anúncio profético de felicidade para todos os que acolhem
sua boa-nova. Este se transforma em exigência ética na "moral
das bem-aventuranças", que concentra a Lei nos mandamentos
do amor a Deus e ao próximo, amor gratuito, universal e capaz
de perdão e reconciliação.
Anunciamos
Jesus Cristo ressuscitado, princípio de toda Evangelização,
raiz e fundamento dos valores éticos que devem penetrar no coração
e nas estruturas da sociedade.
A
Igreja se sente responsável, nâo somente por anunciar a mensagem
evangélica, mas também por indicar princípios e normas morais,
tanto no plano individual quanto na ordem social, na medida
em que os considera necessários à salvação e ligados
aos direitos fundamentais das pessoas (of. Catecismo da
Igreja Católica, 2032).
II
- EM BUSCA DE RESPOSTAS Tanto uma ética plenamente
humana quanto as exi
gências
éticas do Evangelho nos impelem a dar passos indispensáveis
à renovação da pessoa e da sociedade. É fundamental superar
a distância entre ética pública e ética privada, isto é, entre
a responsabilidade pelo bem comum e a realização pessoal. Não
são dois caminhos, não são duas étícas, mas um úníco projeto
de renovação pessoal e social.
1
- ética pública
Um
projeto comum de sociedade eticamente regulado exige uma proposta
ética iluminada pelos princípios de solidariedade e participação.
1.1
-Ética na política
A
vida política deve reencontrar sua dignidade na edificação
da cidade humana, onde todos têm oportunidade de realizaqão
pessoal e de comunhão solidáría. Recupera-se o espírito público
adotando estruturas e instituições adequadas, o que exige decisões
políticas conseqüentes. Um primeiro passo se impõe: a correta
relação entre o que é público e o que é particular.
No
entanto, a recuperaçâo da política passa pela moralização dos
políticos como verdadeiros "homens de Estado" e não
"negociantes do poder", enredados em jo
godas
pessoais. Isto exige romper os laços entre politica e negócios
privados.
Os
serviços públicos, para serem éticos, devem ser acessíveis,
eficientes, com critérios humanos, com sensibilidade social.
O parasitismo, o mau atendimento aos usuários, a irritante morosidade,
a irresponsabilidade, o descaso aos doentes... desafiam uma
educação para o "senso do serviço" ao nosso povo já
tão necessitado.
O
Documento de Santo Domingo faz um diagnóstico sombrio desta
realidade para toda a América Latina: "A corrupção tem-se
generalizado. Há um mau emprego dos recursos econômicos públicos;
progridem a demagogia, o populismo, a "mentira política"
nas promessas eleitorais; burla-se a justiça, generaliza-se
a impunidade e a comunidade se sente impotente e indefesa diante
do delito... (SD 233).
1.2-Ética
na economia
O
primeiro desafio, que brota da opção pelos pobres, apontado
no Documento de Santo Domingo é "promover uma Ordem econômica
social e política" (SD 296). A exigência ética fundamental
é que esta nova ordem se construa sobre as bases de uma "economia
solidária, real e eficiente" (SD 201).
As
Diretrizes da açâo pastoral da Igreja no Brasil (1991 - 1994)
afirmam que o modelo econômico neoliberal em nossa Pátria se
caracteriza pela separação entre a economia e a ética. Prevalece
o individualismo e o corporativismo tanto empresarial como sindical,
sem consiàerar o bem da Sociedade.
O
processo de modernização tecnológica põe a ciência como fator
decisivo na produçâo da riqueza e faz diminuir a importância
do trabalho, com risco de tornar a pessoa humana reduzida a
mercadoria. O mercado se torna o centro de tudo. A Encíclica
"Centesimus Annus" nos diz que "é tarefa do Estado
prover à defesa e tutela de certos bens coletivos, como
o ambiente natural e o ambiente humano, cuja salvaguarda não
pode ser garantida por simples mecanismo de mercado" (CA
40). Além do Estado, tem também a empresa um papel social.
1.3
-Ética nos Meios de Comunicação Social
A
sociedade tem o direito à informação fundada na verdade,
na liberdade, na justiça e na solidariedade.
Cabe
à sociedade promover a democratização dos MCS e a educação para
o senso crítico. A justa liberdade de expressão supõe
a subordinação a critérios éticos.
Os
Meios de Comunicação Social têm um papel fundamental na tarefa
de informação, formação e promoção cultural a serviço do bem
comum. Para manter uma informação livre e honesta, os Meios
de Comunicação Social precisam superar uma situação de quase
monopólio. Não podem ser geradores de necessidades fictícias,
de falsas expectativas, de exploração da violência e da pornografia,
nem, menos ainda, manipuladores das massas visando a objetivos
partidários, enaltecendo ou derrubando instituições ou pessoas.
2
- Ética Profissional
O
exercício de qualquer profissão na sociedade submete-se a normas
éticas. A falta de formação ética de muitos profissionais é
responsável por desvios da própria sociedade. O ensino da Ética
nas Universidades e nos Centros de Formação possibilitaria a
nossos profissionais exercer um serviço ao bem comum.
A
pesquisa científica conforme às exigências éticas cumpre sua
missão, especialmente num país como o nosso, quando comprometida
com as necessidades prementes da população.
3
- Ética Pessoal
Não
é admissível dissociar a ética da vida pública e profissional
da ética pessoal e familiar.
3.1
- Corpo e Sexualidade
A
pessoa humana se descobre a si mesma como ser sexuado, portador
de uma energia que o impele para a comunicação com o outro,
e torna possível o encontro entre seres humanos conscientes
e livres. Assim se conquista a personalização e a integração
entre as pessoas em nível afetivo e social, caminho privilegiado
para o relacionamento com Deus.
A
sexualidade, por ser fundamental à vida humana, quando instrumentalizada
ou absolutizada, converte-se em instrumento de alienação e despersonalização.
O prazer, quando reduzido à genitalidade, pode ser um mecanismo
para
afastar as pessoas umas das outras. As campanhas abortivas e
antinatalistas provêm de uma concepção que considera a fertilidade
das famílias pobres como a causa preponderante da problemática
social.
O
permissivismo que admite todo e qualquer comportamento sexual
como isento de conotação moral desvirtua o sexo e deforma a
consciência sobretudo dos jovens ainda em formaçâo.
O
corpo não é mero objeto de natureza biológica. No corpo e pelo
corpo nos realizamos pessoal e socialmente. Não pode ele ser
reduzido à perspectiva privada e egoísta: "sou dono do
meu corpo, faço dele o que eu quiser".
A
visão ética e cristã da sexualidade é essencialmente ligada
à dignidade da pessoa humana. A grandeza e nobreza da
vida sexual provêm do sentido ablativo do amor. Por isso, tudo
que banaliza o sexo e o amor conjugal fere a dignidade do ser
humano. É necessário reeducar-nos para que se evitem os males
da permissividade, da licenciosidade, das experiências extra-conjugais
do sexo, dos desvios de comportamento. Uma bem orientada educação
sexual, que se não restrinja apenas a explicações biológicas,
mas se oriente para a compreensão das finalidades humanas da
sexualidade, por certo, terá grande alcance pedagógico. É de
se esperar da família, da escola, dos Meios de Comunicação Social
e da Igreja valiosa colaboração para que a pessoa humana saiba
valorizar a sexualidade como dom de Deus.
3.2
- Promoção da Vida e da Família
A
crise ética se manifesta também pelo aumento da violência na
sociedade, pelos atentados à vida humana e à sua dignidade,
pela atual desagregação da fami ia. A vida humana, dom do amor
de Deus, é sagrada; deve ser respeitada e protegida desde a
concepção. A nínguém é permitido destruí-1a.
Assumir
a pena de morte como maneira de reagir à problemática da víolência
em nossa sociedade significa "assumir a própria violência
como forma de comportamento da sociedade", além de ser
"um modo de julgamento contrário aos melhores princípios
da ordem jurídica" (Declaração do Conselho Permanente
da CNBB: Em favor da vída, contra a Pena de Morte, 27.06.9I).
A
promoção da Vida tem a Família como espaço privilegiado.
Deve ser respeitada como "santuário da Vida" (CA
39) e "célula primeira e vital da sociedade" ("Familiaris
Consortio", 42).
Promover
a Vida hoje signioca urgir as exigências humanas e evangélicas
do amor conjugal, contra os fermentos de dissolução dos lagos
de fidelidade e indissolubilidade do matrimônio, rompidos pelo
divórcio e negados pelas uniões livres.
Outro
campo que demanda a defesa da vida é a ecologia. Torna-se urgente
conjugar o desenvolvimento com o respeito ao meio ambiente.
Como diz o Documento de Santo Domingo: as propostas de desenvolvimento
têm de estar subordinadas a critérios éticos. Uma ética ecológica
postula a aceitação do princípio do destino universal dos bens
da criaçâo e a promoçâo da justiça e solidariedade como valores
indispensáveis (of. SD 169).
Na
tarefa de buscar novos caminhos para a ética nâo basta apontar
os sintomas da crise, mostrando-Ihes as causas. Nem mesmo é
suficiente atacar seus efeitos maléficos na sociedade e nas
consciências. Faz-se necessário o esforço de todos para a formação
da consciência ética. A Igreja sabe que esta tarefa cabe não
somente a ela, mas a toda a sociedade da qual ela faz pane.
Seria impossível levá-1a adíante sem diálogo amplo e compartilhado.
Unimo-nos aos vários segmentos ou classes sociais, governo
e povo, empresariado e organizaçôes sindicais, instituições
representativas das diversas etnias, culturas e religiões para
a construção de uma sociedade justa e solidária, baseada na
promoção dos valores éticos.
Ao
oferecermos estas ponderações ao povo do nosso País, pedimos
ao Criador faça germinar as boas sementes que ele depositou
no coração e na consciência de toda pessoa humana.
Itaici,
06 de maio de 1993
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