Oficinas Aprendendo e Ensinando
Direitos Humanos

EDUCAÇÃO
EM DIREITOS HUMANOS :
UMA PROPOSTA DE TRABALHO
Vera Maria Candau
Novameria/PUC-Rio
1999
Na América
Latina as experiências de educação em
direitos humanos têm se multiplicado,
principalmente a partir da década de
80. No entanto, esta preocupação se
desenvolveu de forma heterogênea nos
diferentes países do continente, desenhando
trajetórias diversas, sempre intimamente
articuladas aos processos político-sociais
vividos nos diferentes contextos.
Os
especialistas no tema afirmam unanimemente que, em geral, esta
preocupação brota da necessidade de redefinir-se a ação dos
movimentos e organizações não governamentais de direitos humanos, uma
vez superados os regimes ditatoriais e retomados os processos de
democratização nas várias áreas do continente.
Nessa
perspectiva, afirma Basombrío (92), pesquisador que realizou um amplo
trabalho de registro e análise do que foi a luta por uma educação em
direitos humanos nos diferentes países latino-americanos nos últimos
anos:
“Na
gênesis desse processo democratizador ocupou um lugar importante a luta
pelo respeito e vigência dos direitos humanos que diversos movimentos e
organizações realizaram contra diferentes formas de autoritarismo,
violência ou marginalização presentes nas nossas sociedades”.
(p.11)
Sem
dúvida, a luta pelos direitos humanos na América Latina foi árdua nas
três últimas décadas. As violações se multiplicaram de modo
dramático. As vítimas foram numerosas e, em muitos casos, o resgate da
memória, o reconhecimento dos crimes que se cometeram em nome do Estado
e o fim da impunidade ainda hoje são temas que não foram enfrentados
com coragem e vontade política de fazer justiça.
No
entanto, as organizações e movimentos, além de denunciar as
violações dos direitos humanos e promover ações visando à sua
proteção e defesa, expandiram o horizonte de suas inquietações e o
espaço social de sua atuação. Paralelamente aos problemas que podemos
considerar como tradicionais e
básicos, vinculados aos direitos civis e políticos, começa
a partir da década de oitenta, a se priorizarem
as questões vinculadas aos direitos sociais, econômicos e culturais,
nos níveis pessoal e coletivo. Desde então, adquirem especial
relevância as atividades de promoção e educação em direitos
humanos.
O mesmo
Basombrío (92) sintetiza da seguinte
maneira o processo que se viveu:
“A
educação em direitos humanos é na América Latina uma prática jovem.
Espaço de encontro entre educadores populares e militantes de direitos
humanos, começa a se desenvolver coincidentemente com o fim de um dos
piores momentos da repressão política na América Latina e conquista
certo nível de sistematização na segunda metade da década e dos 80.”
(p.33)
Nesse
processo histórico, podemos assinalar dois aspectos especialmente
mobilizadores: a articulação entre os grupos promotores da educação
popular e dos direitos humanos e o papel catalizador e de fomento que
tiveram algumas organizações internacionais.
No que se
refere ao primeiro aspecto, é importante sublinhar que, durante muitos
anos, as organizações promotoras da educação popular e as de
direitos humanos se desenvolveram independentes umas das outras e
praticamente sem se relacionarem de modo institucional. No entanto,
pouco a pouco, principalmente a partir da década dos 80,
multiplicaram-se os encontros, gerando uma fecundação mútua que teve
como uma de suas expressões mais significativas o impulso das
atividades de educação em direitos humanos.
No que se
refere ao papel das organizações internacionais, mencionaremos às que
aparentemente tiveram maior importância no desenvolvimento dos
trabalhos sobre educação nos direitos humanos no continente: a UNESCO,
o Instituto Interamerica de Derechos Humanos (IIDH - Costa Rica) e o
Programa de Educación para la Paz y Derechos Humanos del CEAAL (Consejo
de Educación de Adultos de América Latina.
Com base
nas informações disponíveis, constatamos que, na sua maioria, as
iniciativas de educação em direitos humanos foram implementadas em
âmbitos de educação não formal, aspecto que tradicionalmente
privilegia a educação popular. No âmbito da educação escolar é
mais recente a preocupação com tal temática. No entanto, esta vem se
afirmando e já foram realizadas entre nós várias experiências
desenvolvidas por
organizações não-governamentais, algumas com o apoio do Estado, assim
como, pela iniciativa de alguns - poucos - sistemas de ensino.
Essas experiências
têm elementos em comum, mas, ao mesmo
tempo, utilizam diferentes enfoques,
metodologias e materiais. No entanto,
podemos afirmar que os grupo que trabalham
neste campo baseiam-se na convicção profunda
e militante de que é necessário construir
uma cultura dos direitos humanos a partir
do cotidiano, influindo profundamente
nas mentalidades e gerando novas práticas
sociais; para isso é fundamental o papel
da educação. Formar para a cidadania
e para a democracia é um objetivo irrenunciável
das diferentes práticas educativas,
no âmbito formal e não formal, e passa
necessariamente pela afirmação teórico-prática
dos direitos humanos.
Neste
momento, já na segunda
metade dos 90, com a progressiva afirmação no nosso país e em todo o
continente da hegemonia neoliberal, são propostas várias estratégias
educativas que, sob o pretexto de melhorar a qualidade e modernizar o
sistema, pretendem colocar a educação na lógica do mercado. Nesse
contexto, multiplicam-se as perplexidades e buscas e colocam-se novas
questões, sendo necessário ressituar a educação em direitos humanos
e identificar os novos
desafios que deve
enfrentar.
Trata-se
de procurar reforçar processos de democratização para que penetrem e
transformem os diferentes âmbitos sociais em que se desenvolvem as
sociedades latino-americanas. Neste marco de profundas mudanças e
transformações de todo o tipo - produtivas, de mentalidades, de
exercício da cidadania - devemos, como educadores, questionar-nos sobre
o sentido de promover uma educação em direitos humanos e como
fazê-lo.
É nesta
perspectiva que se situa o presente trabalho, que tem por referência
fundamental a experiência desenvolvida pela Novamerica (organização
não-governamental brasileira) de 1991 até hoje, e que tem por objetivo
apresentar alguns elementos que consideramos imprescindíveis para que
se possam promover processos de educação em direitos humanos numa
perspectiva crítica e transformadora, enfoque que esteve presente desde
suas origens e que consideramos inerentes a sua própria identidade.
Segundo
Sime (94)
“A
educação em direitos humanos nasce herdando da educação popular uma
vocação explícita para construir um projeto histórico, uma vontade
mobilizadora definida por uma opção feita pela mudança estrutural e
um compromisso com os setores populares. Isto marcará discrepâncias
com visões educativas neutras e outras que não fizeram ambas opções.
(...)
Aqui residia grande parte da energia
ética e política de então que era comum a diferentes setores: propor uma alternativa de
sociedade e uma maneira de construí-la." (p.88)
Uma
postura fundamental
Toda
proposta de educação em direitos humanos tem de estar informada por
uma tomada de posição que explicite o marco filosófico e ideológico
do qual se parte. Não se pode definir metodologias sem ter esse marco
claramente formulado. É esta definição que permitirá construir
critérios para a seleção dos conteúdos e a definição de
estratégias. Para nós, nestas palavras de Salvat (94) se encontra uma
boa síntese da postura fundamental que deve informar toda experiência
ou projeto de educação em direitos humanos.
“Os
direitos humanos aparecem, para nós, como uma utopia a promover e
plasmar em diferentes níveis e espaços da sociedade. Como tais, se
apresentam como um marco ético-político que serve de crítica e
orientação (real e simbólica) das distintas práticas sociais
(jurídicas, econômicas, educativas, etc.) na luta permanente por uma
ordem social mais justa e livre.
Nesse sentido, os vemos paradigmáticos,
isto é, como modelo e/ou critério exemplar
a partir do qual podemos ler nossa história
e nossofuturo como povos.” (In: Magendzo,94:
164)
Nesta
perspectiva queremos situar nossas
propostas e opções.
Uma concepção pedagógica
Uma
proposta metodológica de educação em direitos humanos necessita
alguns eixos articuladores do trabalho que se pretende executar. Na
nossa proposta a vida cotidiana é considerada uma referência
permanente para a ação educativa. Para transformar a realidade se faz
necessário trabalhar o cotidiano em toda a sua complexidade. Criamos e
recriamos continuamente nossa existência no tecido diário de
relações, emoções, perguntas, produção de conhecimentos e
construção de sentido.
Segundo
Sime (91), uma proposta educativa que
tenha como eixo central a vida cotidiana
e que queira recuperar o valor da vida,
no sentido radical, tem que desenvolver
de forma criativa três aspectos básicos.
O primeiro pode ser definido
assim:
“deve
ser uma pedagogia de indignação e que diga não a resignação. Não
queremos formar seres insensíveis, e sim capazes de indignar-se, de
escandalizar-se diante de todas as formas de violência, de
humilhação. A atividade educativa deve ser um espaço onde expressamos
e compartilhamos a indignação através dos sentimentos de rebeldia
contra o que está acontecendo.”(p.272)
Na nossa
sociedade, muitas vezes os processos educativos são impermeáveis à
realidade do contexto social nas quais se inserem. O cotidiano
educacional transforma-se num mundo autoreferido, que ignora o cotidiano
social. Em muitas ocasiões, sequer existe um espaço para que os
diferentes sujeitos possam expressar e refletir sobre a estruturação
do seu dia-a-dia, de suas famílias e comunidades. As práticas
educativas e a vida parecem ser dois mundos que se ignoram. Romper com
essa desarticulação é uma inquietude básica da educação em
direitos humanos.
Além disso,
os sentimentos que os diversos âmbitos
educativos permitem que se expressem
e se cultivem normalmente sintonizam
mais com a resignação e a tranqüilidade
e não com a indignação e a rebeldia.
Indignar-se e rebelar-se não significa
estimular a confusão nem gerar conflito.
Trata-se de superar toda indiferença
diante das violações dos direitos humanos
que se multiplicam em nossas sociedades
e que também estão presentes nas práticas
educativas. Também supõe que estejamos
conscientes de que tais violações não
são fenômenos naturais, mas sim, realidades
construídas historicamente, que tenhamos
a coragem de questionar-nos sobre suas
causas e nossa conivência. Exige que
se supere a tendência à insensibilidade, passividade e impotência, nos âmbitos pessoal e social, pela multiplicação
contínua das formas de violação dos
direitos humanos.
“A
educação em Direitos Humanos deve promover essa sensibilidade, essa
capacidade de reagir ao que ocorre com os anônimos deste país, com as
vítimas sem nome nem sobrenome famoso. Esta pedagogia da indignação
deve estimular a denúncia enérgica e a solidariedade.
Em outras
palavras, queremos transformar nossa cólera em denúncia e não em
silêncio. É necessário difundir, comunicar aos demais, o porquê de
nossa raiva e dizer quem são os responsáveis das injustiças que se
cometem. Isto já é o início da solidariedade e deve continuar
ampli?????t???k????`o?ando-se através de outras ações criativas e reflexões
críticas.” (Síme, 91:272-273)
O segundo
aspecto que assinala Síme é a pedagogia de admiração diante de toda
expressão de afirmação da vida. Em nosso dia-a-dia, muitas vezes não
notamos as inúmeras formas, pessoais e coletivas, de busca da
sobrevivência, preservação e promoção da vida. Por pequenas que
sejam, revelam a capacidade de resistência, enorme criatividade e vontade firme de viver e de
buscar vias para promover condições dignas de vida.
A
educação em direitos humanos favorece a capacidade de perceber essas
buscas concretas e cria espaços onde se socializam tais experiências,
além de construí-las e implementá-las.
“Esta
pedagogia da admiração é um convite a criar espaços para partilhar a
alegria de viver. Alegramo-nos porque vamos descobrindo que existem
pequenos germes de um cotidiano novo, porque nos admiramos ao ver como
mudamos e ao ver como os demais mudaram ou querem mudar. A admiração
estimula a gozar tudo o que, desde nossa realidade imediata, contribua
para a vitória da vida.” (Síme, 91: 274)
????t???k????`o?span
style="mso-bidi-font-size: 10.0pt">Segundo
Sime, o terceiro aspecto inerente a uma proposta educativa cujo eixo
central está na vida cotidiana, trata de afirmar uma pedagogia que
promova convicções firmes e se expresse na forma de trabalhar a
dimensão ética da educação.
“A
convicção do valor supremo da vida é a coluna vertebral do nosso
projeto de sociedade, de homem e de mulher novos. Nossa opção pela
vida é o que unifica nossa personalidade individual e nossa identidade
coletiva. Mas também existem outros valores que propomos como
convicções, que dão consistência ética à mística pela vida:
solidariedade, justiça, esperança, liberdade, capacidade crítica.”
(Sime, 91: 274)
Assim, o cotidiano
se transforma no lugar privilegiado de reconhecimento da vida, de
revelação das lutas e dos conflitos diários que permitem liberar o
potencial de vida presente em cada pessoa, nos grupos sociais, no
conjunto da sociedade, na natureza. A educação em direitos humanos
está referida radicalmente a esta vontade de afirmação da vida.
Princípios Orientadores
A partir de uma
postura fundamental e uma concepção claramente explicitadas, é
possível formular princípios orientadores de toda prática educativa
neste campo. Enumeraremos alguns que consideramos básicos:
1. Afirmar uma visão política
da educação
Hoje,
mais do que nunca, é necessário questionar toda tendência que
favoreça uma visão meramente técnica e instrumental da educação. A
ótica dos direitos humanos nos situa numa perspectiva crítica em
relação ao modelo neoliberal hegemônico e nos compromete a desvelar
sua racionalidade, suas implicações político-sociais e seus
pressupostos éticos. Ao mesmo tempo, nos inclui entre os que tratam de
construir novos paradigmas que possam favorecer a democracia como estilo
de vida e sociedades em que seja possível exercer uma cidadania plena.
Neste sentido, é
importante promover uma educação articulada à problemática mais
ampla da sociedade e às diferentes práticas sociais, que seja um
espaço em que os diferentes sujeitos se formem para serem construtores
ativos da sociedade em que vivem e exercem sua cidadani?????t???k????`o?a. Isto exige a
vigência de práticas educativas participativas e dialógicas, que
trabalhem a relação prática-teoria-prática na qual o cotidiano
educativo esteja impregnado da vivência dos direitos humanos.
2. Promover uma ética do
público e da solidariedade
O
neoliberalismo subordina a conduta ética ao mercado, fomentando assim o
individualismo, a competitividade e uma ética do privado. No entanto, a
educação em direitos humanos favorece uma ética que enfatiza o
público, a solidariedade e o bem comum. Trata-se de colaborar na
construção de relações sociais que manifestem transparência e
justiça, favoreçam o compromisso coletivo e fortaleçam os movimentos
e organizações da sociedade civil.
3. Construir uma cultura de
direitos humanos
A cultura
brasileira e de toda a América Latina está profundamente marcada pelo
autoritarismo e a l?????t???k????`o?ógica do apadrinhamento e do privilégio. Criar
condições que permitam afetar as mentalidades e favorecer processos
que promovam o desenvolvimento de uma cultura dos direitos humanos é
para nós um grande desafio. Sem dúvida, a educação é um elemento importante para a
construção de sujeitos que internalizem
e expressem essa cultura em
comportamentos e ações cotidianas.
4. Promover uma educação
intercultural
Os
movimentos sociais que se desenvolveram com especial força em todo o
continente na última década (consciência negra, grupos indígenas,
cultura e educação popular, movimentos feministas etc.) favoreceram a
formação de uma nova consciência das diferentes culturas presentes no
tecido social brasileiro e latino-americano.
No
entanto, a cultura que predomina nas práticas educativas é
extremamente homogênea e está vinculada à visão de determinados
grupos sociais. A educação em direitos humanos favorece o
reconhecimento dos diferentes grupos sociais e culturais, gera espaços
para que os valores, conhecimentos e tradições sejam realçados e
?????t???k????`o? fomenta o diálogo intercultural. Articular igualdade e diferença é
uma de suas preocupações fundamentais. Como afirma o sociólogo
português Boaventura Souza Santos,
“temos
o direito de sermos iguais sempre que as diferenças nos inferiorizam;
temos o direito de sermos diferentes sempre que a igualdade nos
descaracteriza.” (apud Paiva, Jornal do Brasil, 10/09/95).
Essa temática
esteve ausente na formação de educadores e é preciso introduzi-la e
trabalhá-la, tanto na formação inicial quanto continuada, para que
possam ser agentes de uma educação intercultural.
5. Formar educadores como
agentes culturais e sociais
Nesta
perspectiva, não se pode conceber o papel dos educadores como meros
técnicos, instrutores, responsáveis unicamente de ensinar diferentes
conteúdos e exercer funções de
normatização e disciplina. Os educadores são profissionais e
cidadãos, mobilizadores de processos pesso?????t???k????`o?ais e grupais de cunho
cultural e social. Somente
a partir desta ótica
é
que poderão ser promotores de uma educação em direitos humanos.
O direito à vida,
a uma vida digna e a ter razões para viver, deve ser defendido e
promovido para todas as pessoas, assim como para os diferentes grupos
sociais e culturais. Esta é uma afirmação com raízes
antropológicas, éticas, políticas e transcendentais, que apontam para
a construção de uma alternativa de futuro mais humana, comprometida
com a afirmação da vida a escala mundial e planetária.
Um
enfoque multidimensional do processo educativo
A
educação em direitos humanos não pode ser reduzida à introdução de alguns
conhecimentos nas diferentes práticas educativas. Na elaboração de
estratégias metodológicas para educação em direitos humanos, é
importante que explicitemos as dimensões que pretendemos trabalhar nas
nossas práticas
?????t???k????`o? pedagógicas. Essas dimensões as concebemos de maneira integrada e têm
de ser trabalhadas de forma conjunta. São elas: ver, saber, celebrar,
comprometer-se, sistematizar e socializar.
A
educação em direitos humanos trabalha permanentemente o ver, a
sensibilização e a conscientização sobre a realidade. Ampliar
progressivamente, de acordo com a realidade dos sujeitos concretos, sua
visão sobre a vida cotidiana, assim como
ajudar a descobrir os determinantes estruturais da realidade deve
ser uma preocupação permanente. Articular o local, o contexto
latino-americano e a realidade mundial é outra de suas exigências
fundamentais.
Junto com
o ver, profundamente vinculado a este, está o saber socialmente
construído sobre os direitos humanos, além do saber que emerge da
prática cotidiana e os saberes culturais de referência. Que estes
saberes se relacionem reciprocamente, deve ser uma exigência cotidiana.
Os conhecimentos e a reflexão sobre esta temática irão pouco a pouco
sendo aprofundados e ampliados. Progressivamente, serão incorporadas as
dimensões filosófica, político-social, histórica e jurídica.
A
educação em direitos humanos deve ser uma prática que proporcione
prazer, alegria e emoção. Quando se descobre o valor da vida, sua
enorme riqueza e seu p?????t???k????`o?otencial de crescimento e criatividade, o
coração se dilata. Nos contextos em que se convive com a morte de
forma cotidiana, a celebração da vida adquire uma densidade
particularmente intensa. Acolher a vida, protegê-la contra tantas
ameaças, denunciar as violações que se cometem, promover a auto-estima das pessoas, -
crianças, jovens e adultos -, afirmar e
multiplicar as experiências de promoção da vida, provoca felicidade e
é apaixonante. A dimensão afetiva é um componente imprescindível da
educação em direitos humanos.
Sem
compromisso concreto não existe educação em direitos humanos.
Afirmamos que os Direitos Humanos são conquistas históricas e que
nascem da prática de grupos sociais determinados. Estas conquistas se
dão a partir da ação, do envolvimento, da participação em ações,
grupos, campanhas, movimentos e iniciativas concretas. O incentivo a
esta prática, desde os primeiros níveis de escolarização e das
primeiras experiências de educação em direitos humanos, é um
componente imprescindível.
Nessa
perspectiva, um componente que deve ser cuidado de forma especial é a
?????t???k????`o? construção de práticas coletivas e a participação em organizações
e movimentos da sociedade civil. Trata-se de educar a partir da prática
para a construção comunitária e a participação ativa no coletivo,
como aspectos fundamentais na luta pelos direitos humanos.
A
sistematização das práticas coletivamente construídas é outro
componente importante do nosso enfoque de educação em direitos
humanos. O processo pedagógico é dinâmico e está em contínua
construção-desconstrução-reconstrução. É necessário estar
permanentemente refletindo sobre o que se vive. Neste sentido, é
imprescindível sistematizar as diferentes práticas educativas.
Se
partimos da afirmação de que a educação em direitos humanos é uma
prática social coletiva, a socialização é uma dimensão que favorece
o intercâmbio, o diálogo e o confronto entre experiências diversas.
Como já
afirmamos, tais dimensões se interpelam e têm de ser trabalhadas de
forma articulada, não fragmentada, pois a educação em direitos
humanos não pode ser reduzida a nenhuma delas tomada isoladamente.
Segunda
Mosca y Aguirre (92):
“Uns
dos maiores obstáculos à difusão da educação em direitos humanos é
o abismo entre o discurso - as palavras e os feitos e as atitudes. Se um
educador, um sistema escolar, pensa educar para os direitos humanos,
deve sempre começar por praticá-los. Não existe educação para os
direitos humanos, não existe projeto válido neste campo, sem um
profundo compromisso social para que eles se tornem realidade” (p.19)
Oficinas pedagógicas:
estratégia de formação privilegiada
Na nossa
proposta metodológica de educação em direitos humanos uma estratégia
de formação é privilegiada: a oficina pedagógica.
Segundo
Reyes (91):
“... a
oficina é concebida como uma realidade integradora, complexa e
reflexiva, na qual a relação teoria-prática é a força motriz do
processo pedagógico. Está orientada à promoção constante da
comunicação ?????t???k????`o?com a
realidade social e para ser um grupo de trabalho altamente participativo
no qual cada um é um membro a mais do grupo e dá sua contribuição
específica.” (In: Betancourt, 91:21)
Trabalhamos
nessa perspectiva. Assumimos também a afirmação de Gonzales Cubelles
(87):
“Refiro-me
à oficina como tempo-espaço para a vivência, a reflexão, a
conceitualização: como síntese do pensar, sentir e atuar. Como “o”
lugar para a participação, o aprendizado e a sistematização dos
conhecimentos. (...)
Agrada-me
a expressão que explica a oficina como o lugar de manufatura e de “mentefatura”.
Na oficina, através do jogo recíproco dos participantes nas tarefas,
confluem o pensamento e a ação. Em síntese, a oficina se converte no
lugar do vínculo, da participação, da comunicação e, finalmente, da
produção de objetos, acontecimentos e conhecimentos.”(p.3)
As
oficinas são espaços de construção coletiva de um saber, de análise
da realidade, de confrontação
e intercâmbio de experiências, de exercício concr?????t???k????`o?eto dos direitos
humanos. A atividade, a participação, a socialização da palavra, a
vivência de situações concretas através de sóciodramas, a análise
de acontecimentos, a leitura e discussão de textos, a realização de
vídeo-debates, o trabalho com diferentes expressões da cultura popular
, etc, são elementos presentes na dinâmica das oficinas.
O
desenvolvimento das oficinas, em geral, se dá através dos seguintes
momentos básicos: aproximação da realidade/sensibilização,
aprofundamento/reflexão, construção, coletiva e
conclusão/compromisso. Para cada um desses momentos é necessário
prever uma dinâmica adequada para cada situação específica, tendo-se
sempre presente a experiência de vida dos sujeitos envolvidos no
processo educativo.
Estamos
trabalhando desde 1991 nesta perspectiva com professores e professoras,
promotores comunitários e outros agentes de educação não formal.
Desenvolvemos um grande número de oficinas pedagógicas em várias
partes do Brasil e em outros países da América Latina. Construímos
materiais didáticos adequados à educação em direitos humanos
dirigidos a crianças, adolescentes, jovens, professores/as, agentes
comunitários e adultos em geral. Toda essa experiência nos permite
afirmar que promover uma educação em direitos humanos supõe enfrentar
muitos desafios, exige repensar a relação educação-sociedade, assim
como a dinâmica educativa, as diversas práticas pedagógicas e o papel
do educador/dinamizador.
?????t???k????`o?
Mosca e
Aguirre chegaram a questionar se era possível educar em direitos
humanos e afirmam:
“Talvez
alguns respondam rapidamente sim. Nós - a partir de uma experiência
histórica - pensamos que não é impossível, mas também não é
fácil. Inicialmente, é necessário conhecer os direitos e, também,
admitir que conhecê-los não se limita a um mero enunciado dos 30
artigos da Declaração Universal, e sim
implica na descoberta e prática de certas atitudes complexas e
exigentes. E isso ocorre assim porque os direitos humanos não são
neutros, não toleram qualquer tipo de comportamento social, político e
cultural. Exigem certas atitudes, ao mesmo tempo que repelem outras.”(p.
19)
A experiência nos
tem demonstrado o quão são verdadeiras essas afirmações. Uma
proposta de educação em direitos humanos não pode reduzir-se a uma
série de técnicas didáticas ou dinâmicas de grupo. Nela está
implicada toda uma postura pedagógica. Também pode ser reduzida a uma
série de conhecimentos ou a atividades isoladas. Trata-se de uma
postura que deve penetrar as diversas dimensões da ação educativa.
Não pode estar desvinculada das práticas sociais. Tem de se expressar
em atitudes, saberes, comportamentos e compromissos, no exercício da
cidadani?????t???k????`o?a e na vida cotidiana em seus diferentes âmbitos. Compromete
nossos sentimentos, desejos e sonhos. Esta é a perspectiva que nos
parece importante ter presente na hora de desenvolver qualquer proposta
de educação em direitos humanos, na escola ou em âmbitos de
educação não formal.
BIBLIOGRAFIA
BÁSICA
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IDL y Tarea, 1992.
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Santafé de Bogota: Secretaría del Convenio Andrés Bello, 1991.
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CUBELLES, M. T. El Taller de los
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Nacional de Reparación y Reconciliación y PIIE 1994.
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Vozes, 1992
PAIVA,
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SIME,
L., “Educación, persona y proyecto histórico”, in Magendzo, A., Educación en Derechos Humanos:
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Reparación y Reconciliación y PIIE, 1994.
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