Expositores
Convidados
Convido
a tomar assento à mesa o Dr. Paulo Sérgio Pinheiro,
coordenador do Núcleo de Estudos da Violência, da
Universidade de São Paulo, expositor desta II Conferência
Nacional de Direitos Humanos; o Sr. deputado Nilmário
Miranda, ex-Presidente da Comissão de Direitos Humanos
da Câmara dos Deputados, também expositor; o Dr. Jaime
Benvenuto, coordenador do Movimento Nacional de Direitos
Humanos, o terceiro expositor deste evento; o Sr. secretário
de Segurança Pública do Estado do Amapá, Dr. Adamor
Oliveira; o cacique xavante Celestino, representante das
nações indígenas. E, numa homenagem, solicito uma
salva de palmas às nações indígenas aqui presentes.
Convido também a tomar assento à mesa o Sr. Edson
Cardoso, representante do Movimento Negro Unificado; o
Dr. Antônio Carlos Bigonha, representando a
Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão,
representando o Dr. Wagner Gonçalves; o Dr. Wanderley
Leal, representante da Associação Brasileira de
Criminalistas; o Padre Francisco Reardon, coordenador da
Pastoral Carcerária da CNBB; o Dr. Manoel Santino,
procurador-geral de Justiça do Estado do Pará; o Dr.
José Carlos Anete, representante da Coordenadoria Econômica
de Serviço, SESI, da Bahia; o Dr. Ivair dos Santos,
coordenador do Departamento de Direitos Humanos do
Ministério da Justiça.
Quero ainda registrar a presença dos deputados
Alcides Modesto, Luiz Eduardo Greenhalgh, Agnelo Queiróz
e Paulo Rocha. Saúdo os Srs. deputados e vereadores
representantes de Comissões de Direitos Humanos em todo
o Brasil, os representantes dos Conselhos Estaduais da
Defesa da Pessoa Humana e também os Srs. deputados Luiz
Alberto e Gilney Vianna, que já faziam parte da Mesa.
Passo a palavra ao Dr. Paulo Sérgio Pinheiro,
que terá o tempo de 15 minutos para sua exposição
inicial.
O SR. PAULO SÉRGIO PINHEIRO - Sr. Presidente, autoridades presentes
à mesa, companheiros da sociedade civil, antes de começar
minha exposição, quero pedir licença para anexar um
homenageado à justíssima lista mencionada pelo
presidente, quero lembrar o senador Severo Gomes. Como o
Sr. ministro Nelson Jobim lembrava, no lançamento do
Programa Nacional de Direitos Humanos, S.Exa. foi um dos
principais relatores do art. 5º, com as suas 77 provisões
à nossa Carta de Direitos. Além disso, o senador
Severo Gomes foi o responsável pela implementação da
lei que cria o Parque Ianomami; S.Exa. foi decidido
combatente em prol da causa indígena. Então,
permito-me anexar o seu nome.
Fazer um balanço de um ano em 15 minutos é uma
proeza formidável. Vou tentar ficar rigorosamente
dentro desse prazo e espero que os outros oradores também
o façam. Esse é o problema de ser o primeiro orador.
Em primeiro lugar, tentarei dividir a exposição
em quatro partes. Primeiro, o que é a gramática dos
direitos humanos; segundo, qual é o principal problema,
a meu ver, da implementação do Programa; terceiro, a
questão da violência policial; e, quarto, a dimensão
internacional do Programa.
Fiquei muito contente em ouvir o deputado Pedro
Wilson citar tantas manifestações de solidariedade no
mundo, porque, no Brasil, só gostamos de solidariedade
quando estamos na ditadura. Depois que vem a democracia
esquecemos a solidariedade internacional. Foi muito
importante ter essa dimensão não-provinciana,
extremamente solidária no planeta.
O primeiro ponto que gostaria de lembrar é o que
significa, num país autoritário, racista,
hierarquizado e com a pior distribuição de renda do
mundo, o Estado começar a falar a linguagem dos
direitos humanos. Não é uma pequena mudança. Quando
ouço companheiros do maior respeito responderem que
houve apenas uma mudança na retórica, discordo. A retórica
é implementação. A retórica é que sempre foi
cultivada por todos os políticos como uma arte
importantíssima, e é decisivo que o Estado, este
Estado que foi sempre autoritário, que jamais conjugou
a expressão direitos humanos, fale em direitos humanos.
Acho que esta é a principal mudança: ter um programa.
Quando, há um ano, todos os correspondentes
estrangeiros disseram que isso seria apenas mais uma
coisa escrita, que eram só palavras, também discordei.
As palavras iluminam a ação. E o que é mais
importante — o presidente também o disse aqui — é
o fato de que é um programa do Brasil. Não, o programa
não tem carteirinha. Há um ano, eu dizia aqui mesmo
que esse não é um pacto de confiança com o Governo,
mas um pacto de desconfiança da sociedade civil com o
Estado brasileiro, porque não é algo em que a
sociedade agora vai confiar, entregando-se
simplesmente à implementação desse Programa. O
Programa é do Brasil, e tem de ser uma coisa viva.
Por mais limitações que tenham ocorrido na
implementação do Programa neste ano, para que
caminhemos é melhor não subestimarmos a verbalização
desse compromisso. O problema, o desafio que temos, é
saber como essa nova concepção de direitos humanos
afetou ou vai afetar o sistema e o processo políticos
no Brasil, é saber como, não só o Executivo, mas também
os outros Poderes, vão poder traduzir isso em ações
concretas.
O segundo ponto, o maior dos obstáculos que vejo
é — como dizia muito corretamente o relatório
mundial da Human Rights Watch Americas, na parte sobre a
questão brasileira — a tensão entre o Governo
Federal e os governos
dos estados. Este é o principal obstáculo, porque boa
parte dos governadores, boa parte dos responsáveis políticos
ou dos Poderes em várias Unidades da Federação
historicamente se omitiram e continuam se omitindo,
quando não se associam à prática das graves violações
aos direitos humanos. Evidentemente, há estados que
assumem esse compromisso, talvez seja um pouco suspeito,
mas como não sou paulista posso dizer que São Paulo
deu um passo adiante propondo o Programa Estadual de
Direitos Humanos. Foi o único estado até agora. Fiquei
seis meses fora do Brasil, pode ser que outro estado
tenha seguido o exemplo do Estado de São Paulo, mas, ao
que eu saiba, nenhum outro tomou essa decisão. Alguns
estados estão organizando conferências regionais, por
exemplo, recebi recentemente convite do Pará, que vai
realizar conferência com o patrocínio da sociedade
civil. Isso é uma coisa bastante estimulante. Mas é
importante termos claro que o Governo Federal assumiu
essa posição, e o Governo Federal, além das convicções
dos atuais governantes, o fez porque ele responde
perante a comunidade internacional sobre todos esses
horrores. Quando há um massacre em Eldorado de Carajás,
ou quando policiais funcionam como bandos de criminosos,
como no caso de Diadema e da Cidade de Deus, quem vai
responder, quem vai receber cara a cara essa situação
é o presidente da República e o Poder Executivo. Mas
os responsáveis por esses acontecimentos são as
instituições, são os agentes do Estado, até o rodapé
das instituições. Quando um bando de jovens meliantes
assassina um índio Pataxó, lá fora ninguém entende
muito bem, é como se o esporte nacional fosse queimar
pessoas nas ruas. Então, o Governo, o Executivo tem uma
responsabilidade imensa. Mas nós precisamos, nos nossos
estados, fazer com que essa responsabilidade se espalhe
do Executivo para o Legislativo e para o Judiciário,
que muitas vezes é o grande protegido de todo esse
debate.
Agora há os movimentos dos juízes democráticos.
Juízes jovens e mesmo
mais idosos têm criticado em todo o Brasil o próprio
Poder Judiciário. O presidente do Tribunal de Alçada
Criminal de São Paulo ainda outro dia dizia que, se a
sociedade civil não está contente com a prestação de
serviços do Judiciário, os juízes também não estão
nada contentes com o funcionamento daquele Poder.
É preciso levarmos a responsabilização, uma
microrresponsabilização, a cada um dos Poderes. Não
adianta discursar apenas contra a falta de vontade política.
Eu concordo totalmente com o deputado Pedro Wilson: é
preciso haver vontade política. Mas é preciso ser uma
vontade política cobrada e traduzida em todos os níveis
de funcionamento do Estado. Não dá só para dizer:
"O governador não tem vontade política. O
Executivo não tem vontade política para aprovar as 22
propostas de lei do Programa". Olhem para o
Congresso e vejam como
ele se comporta em relação a qualquer proposta
de reforma. Se levarmos em conta a
performance do Congresso neste ano, veremos que foi
ótima no que diz respeito ao que conseguimos com a
criminalização da tortura e o andamento da lei que
prevê o fim da competência da Justiça Militar para os
crimes comuns cometidos pelos policiais militares.
Hoje é um ponto na agenda. Está nas mãos do
Senado Federal se essa excrescência do regime autoritário
vai continuar ou não, e vimos mágicas na votação do
primeiro projeto do deputado Hélio Bicudo, que o
ministro Nelson Jobim também assumiu. É preciso que
acreditemos que essas bandeiras são efetivamente
suprapartidárias. Eu estava fora, e foi para mim uma
surpresa extraordinária ver essa massa de votos. O PMDB
e o PSDB também compareceram, mas os que deram sustentação
efetiva ao projeto
foram o PFL e o Partido dos Trabalhadores.
É evidente que fomos muito incompetentes no
passado em relação a essas fontes institucionais da
impunidade e das violações. Hoje caminhamos um pouco.
Somos um pouquinho mais sofisticados e vemos a
responsabilidade de cada uma das instituições. Mas
acho que precisamos nos aperfeiçoar.
Com relação
à pressão sobre o Congresso, só posso falar
sobre os seis primeiros meses, entre maio e dezembro.
Entre janeiro e esta data, não posso falar nada, porque
eu não sei. Mas, entre maio e dezembro, a pressão
sobre os parlamentares foi desarticulada, incompetente e
fraca. No dia da votação decisiva do Projeto Hélio
Bicudo/ministro Nelson Jobim, algumas ONGs aqui em Brasília
estavam alertas e se mobilizando, mas não me consta que
tenhamos feito pressão organizada sobre o Congresso
Nacional. Pressão organizada não significa só fazer
passeata, distribuir panfletos e protestar. É preciso
um convencimento dos parlamentares. A maioria dos
parlamentares não tem a
mais pálida idéia do que significa o Programa,
do que significam direitos humanos, do que é a Comissão
de Direitos Humanos da ONU, do que são os tratados. É
preciso, portanto, que tenhamos paciência e humildade
para convencê-los e transformá-los em aliados, porque
o problema é de todos nós.
Só para terminar esse segundo ponto, quero
enfatizar que precisamos aprender a desagregar. Da mesma
forma que temos de fazer uma microcobrança em cada nível
da institucionalização do programa, temos de ter uma
desagregação precisa dos seus objetivos. Cito aqui
apenas um, algo sobre o que muitas vezes ficamos em silêncio,
as violações contra os cidadãos brasileiros de
orientação sexual diferenciada, a luta dos
homossexuais e dos gays.
O meu colega Eduardo Muylaert, secretário de Segurança
Pública, em 1986, disse a frase que aqui quero repetir:
"Assassinato de homossexual é contagioso. Se esses
crimes não são reprimidos imediatamente podem se
transformar em epidemia". É preciso que não
toleremos nichos de silêncio em relação a qualquer
violação. Para isso, precisamos ser cada vez mais
sofisticados e ter dados cada vez mais precisos.
Passo para o terceiro ponto — e acho que devo
ter ainda alguns minutos —, a violência policial, já
incluída no temário do presidente.
Acabamos de realizar em São Paulo o seminário:
"A Violência Sem Medo", promovido pela
Universidade de São Paulo com o apoio da Rede
Globo, em que duas medidas carros-chefes foram
propostas. Primeira, a necessidade de termos em todos os
estados um sistema de controle epidemiológico da violência.
O que é este termo pedante? É preciso termos cada vez
mais medidas sofisticadas para detectar a violência. Não
adianta dizer que em São Paulo a média dos homicídios
é cinqüenta por cem mil, quando no meu bairro é três
por cem mil e nas comunidades da Zona Sul ou da Zona
Leste, na faixa entre quinze e 24 anos, é de duzentos
homicídios por cem mil pessoas. Esse esforço, no
sentido de fazermos uma cobrança localizada às
instituições e de termos uma defesa precisa de todos
os grupos que sofrem as violações, não é nosso. O
Estado é que tem de fazer isso. Não temos de nos
submeter ao Estado. Temos de cobrar do Estado Federal e
dos estados da Federação que sejam cada vez mais
sofisticados no levantamento dos dados sobre a violência
criminal.
Em segundo lugar, a conferência achou ótima a
apresentação do governador Mário Covas, que teve a
coragem de propor a revisão do pior capítulo da nossa
Constituição - o da Segurança Nacional - que tem duas
páginas. É preciso coragem política para enfrentar a
reforma da estrutura que a ditadura nos legou e que a
Constituinte foi incapaz de rever.
Temos a proposta do governador Mário Covas;
temos a proposta do ex-deputado Régis de Oliveira, hoje
vice-prefeito de São Paulo; temos a proposta do
deputado Hélio Bicudo e temos a proposta da OAB-São
Paulo, coordenada pela advogada Maria Eugênia da Silva
Teles. São magníficos projetos, mas, — os Srs.
parlamentares talvez possam me desmentir —, nenhuma
reforma da estrutura policial será votada este ano. No
ano que vem, teremos eleições. Nesta legislatura,
portanto, não haverá — pode ser que a minha bola de
cristal esteja embaçada — votação da reforma do capítulo
da segurança pública no Brasil.
O que fazer até lá, diante da epidemia? E
quando falo epidemia, significa que em várias capitais
brasileiras a taxa de violência fatal, de homicídios,
passou de uma endemia, quer dizer, uma curva que
conseguimos prever e projetar, para uma epidemia, ou
seja, deu saltos que não temos condições de prever.
Diante disso, é preciso tomarmos uma atitude,
como propusemos em São Paulo. Vamos entregar a proposta
ao governador Mário Covas e ao Dr. José Gregori, para
que a comissão destinada a reexaminar o papel da polícia
a estude. É preciso um plano de gerenciamento imediato
da polícia em todo o Brasil. Não podemos continuar a
fazer de conta que as polícias militares e as polícias
civis agem em conjunto. Não. Elas não se falam, quando
não se dão tiros. E eu falo só de São Paulo. Não há
colaboração, não há investigação sofisticada. Os
institutos médicos legais estão sob a dependência das
Secretarias de Segurança. É preciso que eles tenham
idoneidade científica e independência. É preciso que
não se dupliquem os serviços nas duas polícias. Só
falo de São Paulo, repito. A Polícia Civil tem um
centro de informações, a Polícia Militar tem outro.
Temos de acabar com os serviços reservados de todas as
polícias militares no Brasil.
Não é competência das polícias militares
terem P-2 ou serviços reservados.
Vou contar uma anedota. No governo Montoro,
pedimos que as polícias encaminhassem ao gabinete do
governador a informação sobre todos os homicídios
praticados pelas polícias. Cada dia recebíamos uma
informação datada. Um dia, trocaram os envelopes. O
envelope que era para Roberto Gusmão, que era o secretário
do Governo, veio para mim, e eu abri. Qual a minha
surpresa, quando eu vi que ainda no governo Montoro, sem
nenhuma ciência do governador, a Polícia Militar ainda
investigava reunião de sindicatos trabalhistas. Eu
achei que estava lendo documentos de 1920, do governo
Arthur Bernardes. Estava lá: "O sindicalista tal
levantou a palavra...". Que dizer, algo que se via
na República Democrática Alemã antes da transição,
boletins detalhados que as pessoas faziam naquela época.
As polícias militares não têm o dever de fazer
isso. É preciso que o movimento da sociedade civil
exija isso dos governos constituídos. Se o Governo
Federal quiser, que crie uma agência federal de informação.
Mas isso não é para estar nas mãos das polícias
militares dos estados, como continua a ocorrer.
Há várias medidas imediatas, além do fim da
competência da Justiça Militar para as polícias
militares. É preciso estabelecer, na direção do
controle externo, não só o debate do controle externo
do Judiciário, mas o controle externo civil das polícias.
Não é possível que essas corporações, que têm o
imenso poder da violência física do Estado, não
estejam submetidas a um controle civil externo, como
acontece na maior parte das democracias desenvolvidas.
Em São Paulo há um embrião interessante, que são os
conselhos de segurança, que poderão vir a germinar uma
possibilidade nessa direção.
O último ponto sobre o qual eu quero falar é a
dimensão internacional. Não o subestimemos, como o
presidente da Comissão muito claramente expôs na sua
abertura.
A comunidade de direitos humanos tem dimensão
internacional, não só nas organizações não-governamentais,
como a Anistia Internacional, que estava aqui, e a Human
Rights Watch, além de outras, mas ela tem a dimensão
dos Estados.
É preciso que o Brasil, como tem feito desde
1994, preste as informações, esteja elaborando os
relatórios, as convenções, os tratados. Lutamos muito
para ratificar esses tratados e convenções. É preciso
que a sociedade civil, junto com o Estado, esteja
prestando essa contribuição ao debate internacional. Não
adianta só ficar dizendo: "O Programa não
funcionou, porque nós não reconhecemos a jurisdição
da Corte Interamericana". Se a sociedade quer
efetivamente isso, é preciso pressionarmos, dialogarmos
competentemente com o Ministério das Relações
Exteriores. Não adianta ficar chorando pitanga. É
preciso nos organizarmos. Queremos que o Protocolo
Adicional da Convenção da Tortura, de 1984, seja
aprovado? Não adianta chorar. É preciso nos
organizarmos competentemente para que o Protocolo
Adicional da Convenção da Tortura seja aprovado.
Queremos uma solidariedade mais ativa com o Timor Leste
? É preciso que pressionemos, é preciso que estejamos
presentes em todas as oportunidades em que o Governo
toma decisões de política internacional.
A vertente internacional não é só a da
solidariedade. Vários setores do governo brasileiro
ficaram nervosos, quando o embaixador Celso Lafer disse
que receber os refugiados da antiga Iugoslávia era um
dever de solidariedade da Nação brasileira. Todo o
mundo foi solidário conosco na ditadura. É preciso que
pensemos na situação do refugiado. Está nas mãos do
Senado brasileiro a aprovação da Lei dos Refugiados.
Temos, para dar tradução ao que o deputado Pedro
Wilson aqui falava, de acompanhar de forma competente a
maneira como as decisões são tomadas em relação à
nossa postura internacional, no Parlamento brasileiro e
no Executivo.
Vou terminar, porque o presidente já foi muito
tolerante. Eu acho que esgotei o tempo, mas é uma
alegria enorme termos este auditório tão cheio. Mais
cheio, acho, que na abertura da última Conferência.
Isso é um sinal de competência.
No que me toca, achei extremamente clara a
maneira como tudo aqui foi referido, apesar de que esta
não é uma reunião deliberativa, mas uma reunião onde
a expressão da vontade é essencial para que o Programa
Nacional de Direitos Humanos no próximo ano avance
ainda mais.
Muito obrigado.
O PRESIDENTE (deputado
Pedro Wilson)
- Pediríamos a todas as entidades e
autoridades que pudessem indicar suas representações
nesta Conferência.
Acatando a oportuna sugestão do professor Paulo
Sérgio Pinheiro, gostaríamos de incluir, entre as
personalidades homenageadas nesta Conferência, in memoriam, o senador
Severo Gomes, pela relevante contribuição que prestou
à cidadania, aos direitos humanos e à nacionalidade
durante sua profícua carreira política.
Convidamos a tomar assento à Mesa, representando
as comissões estaduais de direitos humanos, o deputado
Renato Simões, presidente da Comissão de Direitos
Humanos da Assembléia Legislativa do Estado de São
Paulo. Também convidamos a Dra. Maria Inês Bierrembach,
presidente do Conselho Estadual de Direitos Humanos do
Estado de São Paulo, representando os Conselhos
Estaduais; e o vereador Daniel Antônio, presidente da
Comissão de Direitos Humanos de Goiânia, representando
as Comissões Municipais.
Queremos
registrar a presença do presidente do Grupo Gay
da Bahia, professor Luís Mott. Registramos a presença
de Luiz Renato, do Ministério Público do Espírito
Santo; Gilson Roberto, do Ministério Público de
Pernambuco; Sales Freitas, procurador de Justiça do
Estado de Roraima; Lúcia Barros, da Procuradoria Geral
do Estado do Mato Grosso; Manoel Santillo,
procurador-geral de Justiça do Pará; Sávio Rui Brabo
de Araújo, do Ministério Público do Pará; Bosco Sá
Vicente, do Ministério Público do Amazonas; Francisco
Raulino, do Piauí; Ariovaldo Perrone, do Ministério Público
do Rio Grande do Sul; Marco Aurélio, do Ministério Público
do Pará; César Augusto e Anselmo Agostinho, do Ministério
Público de Santa Catarina; Pedroso Teixeira Prado
Vieira, procurador de Justiça; Dr. Luiz Antônio Guimarães,
representando o procurador-geral de Justiça do Estado
de São Paulo, Dr. Luiz Antônio Marrey; Márcia
Domitila de Carvalho, da Procuradoria Geral da República.
Ainda mais, Marta Marília Tonin, da OAB do Paraná;
Herilda Balduíno de Sousa, da Comissão de Direitos
Humanos do Conselho Federal da OAB; Luiz Francisco
Caetano, da OAB de Goiás; Manoel Menezes Cruz, da OAB
de Sergipe; Lenise, da OAB de Goiás; Sara Mendes, da
OAB de Goiás; Maria Abadia, da Comissão de Direitos
Humanos da OAB; Dayse Benedito, da Subseção da OAB de
São Paulo; Almeida Castro, da OAB do Espírito Santo;
Ayda Mascarenhas e Edson Ulisses, da OAB de Sergipe;
Eduardo Duarte, da OAB Ceará; Valério Djalma
Cavalcante Sobrinho, da OAB Rio Grande do Norte; Sérgio
Vítor Tamer, da OAB do Amazonas.
Concedo a palavra ao deputado Nilmário Miranda,
o segundo expositor nesta II Conferência Nacional de
Direitos Humanos.
O SR. DEPUTADO NILMÁRIO MIRANDA - Bom dia a todos os participantes
e aos colegas da Mesa.
Há um ano, saudamos aqui o lançamento do
Programa Nacional de Direitos Humanos. Afinal, tinha
sido o primeiro programa de direitos humanos da América
Latina e o terceiro do mundo. Havia planos semelhantes
na Austrália e nas Filipinas. E o fizemos sobretudo
pelo fato de o presidente Fernando Henrique Cardoso ter
convidado o nosso companheiro Paulo Sérgio Pinheiro
para fazer a coordenação da sua proposta. Ele fez
seminários em seis capitais e consultou mais de
duzentas entidades na minuta. Mas, não satisfeitos com
isso, nós convocamos a Conferência Nacional de
Direitos Humanos, a primeira, que também fez várias
propostas, muitas das quais foram acatadas a partir da
minuta do nosso companheiro Paulo Sérgio Pinheiro.
Esta segunda Conferência é um momento muito
importante para a luta pelos direitos humanos no Brasil.
Trata-se de uma conferência autoconvocada, ela não tem
nenhum caráter oficial, mas dessa vez houve reuniões
preparatórias em muitos Estados do País, onde,
inclusive, se discute a proposta para a criação de
planos estaduais de direitos humanos.
Não quero deixar também de, antes de avaliar o
plano, lembrar que a luta por direitos humanos é muito
antiga. Nessa fase da História do Brasil, há pelo
menos três grandes momentos que não gostaria de deixar
de citar. Lembro que o plano nasceu na luta contra a
ditadura, nos movimentos femininos pela anistia, na luta
pela anistia promovida pelos familiares dos presos, dos
mortos, dos desaparecidos, dos exilados, dos banidos e
dos torturados, junto com as
igrejas e entidades da sociedade civil. E, após
a anistia, esse movimento se organizou nacionalmente na
defesa dos excluídos e contra a violação de direitos
humanos, de que era vítima a maioria da população.
O segundo grande momento dos direitos humanos
deste século, creio, foi durante a Assembléia Nacional
Constituinte. O movimento demonstrou grande capacidade,
seja com emendas populares, seja usando todos os meios
possíveis e imagináveis
para que nós tivéssemos assegurados os direitos
humanos na Constituição.
O terceiro momento ocorreu em Viena, com a
internacionalização, a universalização dos direitos
humanos, quando o grupo que foi a Viena, aqui organizado
com o apoio do então ministro da Justiça, Maurício
Correia, começou a fazer uma agenda por direitos
humanos no Brasil. Foi quando começou a se falar em
Plano Nacional de Direitos Humanos. Quase todas as ações
legislativas e programas públicos depois delineados
começaram a nascer ali. Isso, infelizmente, foi
interrompido com a saída do ministro Maurício Correia
e só foi retomado em 1995.
Aqui no Congresso, na legislatura passada,
importantes CPIs prepararam o avanço posterior.
Foi o período das CPIs da Prostituição Infantil, do
Extermínio de Crianças, da Pistolagem, da Violência
no Campo, da Violência contra a Mulher, do Sistema
Carcerário. Toda essa podridão que hoje está vindo à
tona já estava detectada ali. Foi o período da Comissão
Externa para colaborar com as famílias dos mortos e
desaparecidos políticos, logo depois da abertura da
vala de Perus.
Depois dessas sucessivas grandes CPIs que
despertaram a consciência do Congresso e de uma parte
da sociedade política, é que foi criada aqui, pela
primeira vez, uma Comissão de Direitos Humanos na Câmara
dos Deputados, em 1995, o mesmo ano em que se conquistou
a Lei dos Mortos e Desaparecidos Políticos, a Lei n°
9140/95.
Também não posso deixar de me referir ao Foro
Nacional contra a Violência no Campo, que vem
persistentemente levantando esse debate, articulando
instituições da esfera pública e da sociedade civil.
E quero referir-me também ao clamor que se criou contra
a Justiça Militar após o episódio do Carandiru.
Acho que a partir desses episódios históricos
nasceu o Programa Nacional de Direitos Humanos. Como eu
disse da outra vez, pode não ser tudo o que queremos,
mas tudo o que está ali é nosso. Tudo ali vem de uma
luta histórica. Com esse plano nós podemos cobrar do
presidente Fernando Henrique Cardoso, que pode cobrar
dos estados, todos podemos cobrar do Congresso, do
Judiciário e do Ministério Público, e a comunidade
internacional e as associações internacionais podem
cobrar do Brasil uma atitude a partir dos compromissos
assumidos pelo Governo Federal.
Também concordo com o
nosso amigo Paulo Sérgio Pinheiro no sentido de
que conquistamos um conceito, uma concepção de
direitos humanos, da indissociabilidade dos direitos
civis e políticos dos direitos sociais, econômicos e
culturais (apesar de que, isto tem poucos reflexos na prática),
e da universalidade dos direitos humanos. Pela
primeira vez na história do Brasil, o Estado assume que
é responsável pela proteção e garantia dos direitos
humanos. Isso não é pouca coisa. Os direitos estão
definidos na nossa Constituição, nas leis, nos
tratados e pactos internacionais.
Até recentemente, aliás, até hoje, nós
estamos vendo o Estado na outra esfera. Governos
estaduais têm assumido de forma desavergonhada a defesa
dos maiores violadores dos direitos humanos. Basta
lembrar aqui o caso Carandiru, quando o governo de então
assumiu plenamente todas as mentiras forjadas em torno
do episódio. Sentimos muita vergonha quando vemos uma
pessoa com a trajetória do Almir Gabriel acobertar os
responsáveis pelo ocorrido em Eldorado do Carajás e
ainda patrocinar proposta de emenda à Constituição
Estadual para proteger os responsáveis por aquele
massacre.
Lembramos também do governador Garibaldi Alves,
que teve uma trajetória tão bonita no Senado e nomeou
alguém como Maurílio Ferreira Pinto subsecretário de
Segurança Pública, e depois de ter sido forçado a
afastá-lo, readmitiu-o como diretor da INTERPOL. Uma
pessoa sobre a qual pesam veementes indícios de que
seja chefe de um grupo de extermínio, que está à
frente da polícia há vinte anos no Rio Grande do
Norte. O Marcelo Alencar, que foi advogado de presos políticos,
e hoje respalda a política do general Nilton Cerqueira,
de gratificar policiais pela quantidade de mortos que
fazem entre os civis, instituindo na prática a pena de
morte. Lembramos ainda o governador de Sergipe, que
agora começa a ceder a pressões e ameaça demitir o
melhor Secretário de Segurança que já houve no
estado, que é o Wellington Dantas, que fez a reforma
mais profunda que talvez já tenha sido feita em um
aparato policial no Brasil nos tempos modernos.
A partir do Programa Nacional de Direitos
Humanos, o Governo Federal pode se omitir, mas não pode
mais defender a impunidade e a violência praticada pelo
Estado.
Em que se avançou neste ano? Acho que o avanço
ocorreu no campo dos direitos civis, tanto individuais
quanto coletivos. Esse avanço ocorreu mesmo com aquela
forma depauperada, digamos assim, da aprovação da
transferência para a Justiça Comum dos homicídios
dolosos cometidos por militares, quando nós saudávamos
a edição do Programa. O líder do governo no Senado,
senador Élcio Álvares, foi o responsável pela redução
do alcance do projeto para apenas os homicídios
dolosos. Mas depois ocorreram outras tragédias, como na
Cidade de Deus, Diadema e a podridão toda que veio à
tona com as CPIs e com as denúncias vindas de todo o País,
quando aprovamos de novo aqui na Câmara projeto
estendendo a jurisdição para a Justiça Comum do
julgamento de crimes de lesão corporal e tortura.
Infelizmente, a pressão de coronéis PM conseguiu
manter a extorsão e o achaque no âmbito da Justiça
Militar - talvez para que ela não acabe de vez.
Após a tragédia de Eldorado do Carajás e de
Corumbiara, aprovamos aqui o rito sumário para a
reforma agrária, a inclusão do Ministério Público
nas ações de despejo no campo, a cautela nas liminares
para ação de despejo. Após o episódio de Diadema, nós
conseguimos aprovar a admissibilidade da proposta de emenda à Constituição referente à federalização
dos crimes contra direitos humanos, que vai propiciar
uma discussão muito rica. O que são crimes contra
direitos humanos? Para que esta proposta
seja aprovada aqui no Congresso vamos ter de
definir esses crimes, e contamos com a participação e
o apoio de toda a sociedade para isso.
Foi aprovada a tipificação dos crimes de
tortura; a criação da Secretaria Nacional de Direitos
Humanos; foi tornado crime o porte ilegal de armas; há
um projeto de lei sobre lavagem de dinheiro; foi
aprovada a indenização a José Ivanildo, morto no
xadrez da Polícia Federal do Ceará, instituindo
importante jurisprudência; houve o convênio com o
SEDEC para avaliar o risco da violência em quatro
capitais; há o
GAJOP, um convênio tímido, mas importante para
proteger vítimas e testemunhas;
temos os convênios da Anistia Internacional,
que permitiram a oferta de cursos para as polícias
de diversos estados. Tivemos um tímido programa de
bolsa-escola para crianças em situação de escravidão
no Mato Grosso do Sul, e um programa em Pernambuco, que
parece estar sendo desviado. Há ainda um compromisso
anunciado pelo Governo Federal, no valor de 400 milhões
de reais, para serem aplicados em prevenção e
tratamento do vírus da AIDS e há o projeto ampliando
as penas alternativas, que ainda está engatinhando na
sua tramitação.
Queria lembrar também que, se mais não tivemos
— e aí concordo com o presidente Pedro Wilson —,
foi por falta de vontade política, porque o Governo tem
quase quatrocentos votos no Congresso Nacional para
garantir sua reeleição e para aprovar certas reformas,
até mesmo contra
a sociedade, e
parece não demonstrar
o mesmo empenho quando se trata de aprovar
projetos duros, relativos aos direitos humanos.
Nunca
se falou tanto sobre direitos humanos no País. Podemos
dizer que saímos de um gueto. Entretanto, os índices
de violência estão crescendo em todos os lugares,
assim como as taxas de homicídio e
a prática de tortura. O sistema prisional chegou
a um ponto de tamanha desumanidade, que dispensa
qualquer comentário. Continuam a atuar os grupos de
extermínio, muitos deles incrustados no aparelho do
Estado.
Acho que é impossível dissociar isso da questão
do desemprego; da lentidão na reforma agrária e no
apoio à agricultura familiar; da não aprovação do
projeto de renda mínima, que depende do líder do
governo aqui no Congresso (o deputado Germano Rigotto, há
quatro anos está sentado em cima deste projeto); da ausência
de políticas compensatórias que mereçam esse nome.
Igualmente, ouvimos o Ministro da Saúde dizer que há
10 milhões de excluídos do sistema público de saúde
no Brasil. O Congresso tem estatísticas que mostram que
os gastos com saúde e educação reduziram-se no País.
Então, é impossível
dissociar o crescimento da violência, por mais
que tentemos, da situação social e política. Por isso
é que
podemos dizer que muitas vezes a nossa União Federal
viola os direitos no atacado e, depois, tenta protegê-los
no varejo.
Outro ponto que queria destacar é que a reforma
administrativa não modifica, tampouco melhora, as agências
governamentais que têm um papel importante na
implementação do Programa Nacional de Direitos
Humanos. Por exemplo, o INCRA é um verdadeiro entrave
à reforma agrária no País.
E qual a reforma
prevista para o INCRA?
O Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa
Humana, que seria o principal órgão da esfera pública
federal para os direitos humanos, não se reúne há
seis meses, mesmo com toda a explosão de violência no
País. Não há um ministro que convoque este Conselho
que, se tivesse sido convocado, também seria uma
instituição inócua, sem poder, de pessoas de bem que
detectam os problemas, fazem belos, excelentes e
precisos relatórios, mas nada acontece a partir daí. E
esta é a principal instância federal da esfera pública
em direitos humanos.
A FUNAI deveria implementar a política de promoção
dos índios. Venceu em 1993 o prazo para a demarcação
das terras indígenas sem que ela tenha sido feita, e
118 indígenas
foram assassinados
em três anos.
Qual é a reforma da FUNAI, prevista na reforma
administrativa que está em votação esta semana no
Congresso Nacional ? Nenhuma.
Onde está a Fundação Cultural Palmares, que
deveria identificar os remanescentes de quilombos e
fazer a promoção social dos negros?
Todos
nós esperamos muito da Polícia Federal, em que,
segundo dados da própria instituição,
faltam mais de duzentos delegados e sete mil
agentes. Mas continuam lhe transferindo novas atribuições,
embora ela continue desaparelhada. Sem falar do Ministério
Público Federal e da Justiça Federal, onde todas as
propostas de federalização vão esbarrar em limitações
materiais muito sérias.
Também o Orçamento Geral da União depende do
Governo Federal, mas não prevê recursos mínimos para
implementar o Programa Nacional de Direitos Humanos, não
prevê recursos para o banco de dados, não prevê
recursos para vítimas e testemunhas, a não ser aqueles
recursos escassos alocados no GAJOP. Mesmo o Fundo
Penitenciário Nacional, que depende também da esfera
federal, apesar da receita de 100 milhões de reais por
ano - recursos estes de aplicação obrigatória na
reforma do sistema penitenciário - deixou de aplicar na
sua destinação 78% dos recursos, no ano passado. O
dinheiro foi desviado para outra coisa, enquanto
assistimos à podridão no sistema penitenciário do
Brasil.
Das sete medidas de implementação previstas no
Programa, só uma foi cumprida, e apenas pela metade.
Foi a criação da Secretaria Nacional de Direitos
Humanos. Mesmo estando entregue em boas mãos, nas
melhores mãos, do ponto de vista do poder, a criação
da Secretaria não alterou nada,
uma vez que ela continua subordinada à estrutura
do Ministério da Justiça. Poderia ter sido ligada
diretamente à Presidência da República, mas como está,
não tem orçamento próprio, não tem recursos próprios,
não tem recursos humanos próprios.
Onde estão as campanhas publicitárias que
estavam previstas na implementação do Programa? Não
dependem nem de recursos do Governo. Bastava vontade política
para fazer campanhas,
para trabalhar isso numa cultura política.
Sequer a edição do Programa Nacional de Direitos
Humanos foi publicada em escala suficiente. Vamos aos
estados, ninguém tem, ninguém conhece o Programa.
Simplesmente porque não foi produzido, não foi
distribuído sequer para os agentes públicos no nível
do município e do estado. E o Governo poderia ter feito
campanhas publicitárias e não fez.
Ao mesmo tempo, estamos vendo o crescimento do 190
Urgente -
aquele programa vergonhoso da Manchete, que vive de
violar o direito à imagem das pessoas pobres. Estamos vendo o crescimento do lixo americano
e japonês inundando a nossa televisão. E até a nossa
maior emissora de televisão está apresentando
um seriado chamado
A
Justiceira.
Que
estado recebeu o incentivo que estava previsto
por ter implantado medidas favoráveis ao
Programa Nacional de Direitos Humanos? Quando o Ministério
da Justiça cumpriu o compromisso de fazer sequer um dos
relatórios? Deveria, em um ano, fazer três relatórios
— não fez nenhum — sobre a situação e a evolução
dos direitos humanos. E os relatórios dos estados para
o Ministério da Justiça,
outra medida de implementação? Não foram
feitos também. E o banco de dados para monitorar a violência?
Como é que se sabe se cresceu, se diminuiu, se
melhorou, se piorou, se não há banco de dados, se não
há monitoramento?
Com relação ao reconhecimento da Corte
Interamericana —
é bom que todos saibam — depende apenas da assinatura
do presidente da República, de mais ninguém. Não há
nada a ser feito a não ser a assinatura dele. E isto
permanece. Dezessete Estados latino-americanos já
reconheceram a Corte. E o nosso presidente não se
decidiu ainda. Seria uma medida boa para diminuir a
impunidade, pois permitiria levarmos até à Corte as
flagrantes e massivas violações dos direitos humanos
que ficaram na impunidade.
Teremos grandes desafios ao sairmos daqui. E o
primeiro deles, já estou vendo aflorar nos estados. É
o Plano Estadual dos Direitos Humanos. É o nosso maior
desafio. Ali é que é feita a segurança pública, é
nesta esfera que
se pode fazer a reforma das polícias, a modificação
do art. 152. Ali
está a ferida feia do sistema prisional.
Quer dizer, isso depende muito de nós que
estamos aqui. São Paulo e Minas Gerais terão os seus
planos. Parece que outros estados também já estão
pensando nisso. E a propósito da questão do sistema
prisional, quero dar um viva à Campanha da Fraternidade
de 1997, pela coragem demonstrada pela Igreja Católica,
ao colocar esta chaga para fora.
Na implementação do Programa Nacional de Direitos
Humanos, em seu segundo ano, não podemos aceitar o fato
de que a
Comissão de Implementação nunca
tenha se reunido, porque não houve convocação
do Ministro. Esta Comissão, formada pelas
melhores pessoas, se reunirá, pela primeira vez, um ano depois de anunciado o
Programa, amanhã à tarde, às 15h30min. E neste
segundo ano não podemos admitir que dela
não façam parte
pessoas do Movimento Nacional de Direitos Humanos
e de outras entidades nacionais, porque, mesmo que na
Secretaria Nacional de Direitos Humanos haja
companheiros nossos, ela deve lealdade ao Governo. E o
Governo continua sendo, pela ação ou pela omissão, um
dos maiores violadores de direitos humanos deste País.
Então, acho que qualquer implementação séria tem que
contar com a participação de pessoas independentes do
Governo, que não devem lealdade a governo algum.
Acho que o terceiro desafio, concordando com o
nosso presidente no encerramento da sua belíssima fala,
é a questão da educação. Não basta a matéria de
direitos humanos entrar na Academia da Polícia Federal,
nas academias de polícias militares e civis, é preciso
entrar em toda a escola brasileira, do ensino
fundamental até à universidade. Da maneira correta,
acho que esta Conferência discutirá isto aqui também.
Não acredito também que possamos avançar sem
vincular - o que é um velho sonho dos ativistas de
direitos humanos -
nossa luta com alguns direitos sociais, pelo
menos na questão do desemprego. Enquanto permanecer
esta perspectiva sombria de desemprego no País, de
lentidão da reforma agrária, de não implantação da
Lei Orgânica da Assistência Social e enquanto perdurar
a crise da saúde, é muito difícil. Vai ser uma causa
perdida lutar pelo avanço dos direitos humanos. É
preciso enfrentar de forma conjugada também alguns
direitos sociais.
O
presidente Pedro Wilson já deu sinais de alguns pontos
para uma agenda. No passado, toda vez que conseguimos
trabalhar com dois, três ou quatro pontos prioritários
conseguimos avançar nesses três ou quatro pontos.
Talvez esta Conferência também consiga traçar esses
pontos para agendar o Congresso, o Governo Federal, os
governos estaduais e a nós todos para esses novos avanços.
Talvez
possamos dar um passo aqui — isto dependerá,
evidentemente, de não se forçar a situação — no
sentido de sair alguma comissão, ainda que modesta,
para discutir pontos que serão levantados por esta
Conferência.
Também
no momento oportuno voltarei com esta proposta.
Refiro-me à omissão do Senado Federal, que não
homologa o Conselho Nacional de Comunicação Social,
que teria a capacidade, digamos, moral,
de monitorar os programas de televisão e de rádio
no Brasil e de estabelecer sanções morais. Poderíamos decidir, nesta Conferência, formar um grupo de
pessoas para escolher os dez piores programas de rádio
e televisão do Brasil, os que mais violam a dignidade
dos seres humanos através da mídia eletrônica. E no
dia 10 de dezembro,
Dia Internacional de Direitos Humanos, quando se
atribui o prêmio nacional, daríamos um prêmio às
avessas, com base nessa lista suja dos violadores de
direitos humanos no Brasil.
Aproveitaríamos também para chamar a atenção
do nosso Senado para a sua omissão imperdoável em não
homologar o Conselho Nacional de Comunicação Social.
Obrigado.
O SR. PRESIDENTE (deputado Pedro Wilson) - Registramos a presença
do vereador Ítalo Cardoso, presidente da Comissão de
Direitos Humanos da Câmara Municipal de São Paulo, bem
como da direção da ABONG - Associação Brasileira de
Organizações Não-Governamentais. Gostaria de
ressaltar também a participação do INESC nesta Conferência,
não só por sua presença, mas pela inestimável
colaboração na realização na sua realização.
Ouviremos agora o terceiro expositor, Dr. Jayme
Benvenuto. Em seguida, por uma concessão especial desta
Mesa, uma vez que não constava da programação,
ouviremos o pronunciamento do cacique Celestino Xavante.
Depois, teremos um rápido informe das onze conferências
estaduais de direitos humanos, aqui representadas por
Aloísio Matias, da conferência do Rio Grande do Norte;
Pedro Montenegro, de Alagoas; Valéria Getúlio Brito,
do Distrito Federal; Oscar Gatica, da Paraíba; Roseana
Pereira, do Ceará; deputado João Leite, de Minas
Gerais; Irene Maria dos Santos, de Goiás; deputado
Nelson Pelegrino, da Bahia e Jayme Benvenuto, de
Pernambuco. Estes estados realizaram conferências
estaduais preparatórias à presente Conferência,
produziram contribuições no sentido do Plano Estadual
de Direitos Humanos ou da luta dos direitos humanos em
cada unidade.
Encerraremos
assim a parte da manhã. Certamente essas indicações
serão muito importantes para os trabalhos de grupo com
que vamos retomar às 14h30min.
Com a palavra o Dr. Jayme.
O SR. JAYME BENVENUTO - Bom-dia a todos. Sr. Presidente da Mesa, a
quem saúdo, bem como a todos os demais integrantes da
Mesa. Senhoras e senhores, o Movimento Nacional de
Direitos Humanos tem procurado priorizar, ou melhor,
monitorar o Programa Nacional dos Direitos Humanos,
justamente por acreditar que se trata de
uma medida extremamente positiva que foi tomada
pelo Governo Federal, obviamente com a participação da
sociedade civil. Consideramos que o Programa Nacional de
Direitos Humanos, lançado exatamente há um ano pelo
presidente da República, representa, sem nenhuma sombra
de dúvidas, um grande avanço para o Brasil, seja por
conter uma série de propostas há muito reclamadas por
centenas de organismos nacionais e internacionais de
proteção aos direitos humanos, seja em função do
processo amplamente participativo de sua elaboração. O
Programa Nacional de Direitos Humanos é uma conquista,
antes de tudo, da sociedade brasileira. É dela, mais do
que de qualquer outro ente social,
a titularidade do direito de fazer valer o
programa na prática.
Com base nesta titularidade, o Movimento Nacional
de Direitos Humanos, na qualidade de representante de
parcela significativa da sociedade brasileira - são
ao todo cerca de 350 Centros de Promoção e
Defesa dos Direitos Humanos articulados ou filiados ao
movimento - reputa
importante fazer algumas considerações em torno do
Programa.
As considerações, obviamente, têm o objetivo
de contribuir para a concretização do Programa no mais
rápido espaço de tempo. O principal aspecto positivo
do Programa é precisamente a sua existência, a qual
vem proporcionando,
em todo o País, a discussão em torno de uma série de
problemas e alternativas relacionadas aos direitos
humanos. Efetivamente, nunca se viu na história do País
uma discussão tão ampla e séria sobre os direitos
humanos com vistas à busca de soluções.
Ainda que fiquemos na qualidade de representantes
de direitos humanos, esperando melhores respostas em
torno desse tema, não podemos deixar de reconhecer que
várias propostas
já foram ou estão sendo implementadas. É o que
acontece em termos, apenas exemplificativos, em relação
às seguintes propostas:
atribuição por lei à Justiça Federal de competência para julgar os crimes
contra os direitos humanos, muito embora falte
regulamentar o que são crimes contra os direitos
humanos; atribuição por lei à Justiça Comum da
competência para processar e julgar determinados crimes
cometidos por policiais militares no exercício da função;
a estruturação da Divisão de Direitos Humanos na Polícia
Federal, a qual já conta com uma delegacia
especializada para apuração dos crimes contra os
direitos humanos; a multiplicação e manutenção dos
Juizados Especiais Cíveis e Criminais em diversos
estados; o apoio à criação,
nos estados, de programas de proteção a vítimas e testemunhas de
crimes, através de ações desenvolvidas mediante convênio
estabelecido entre o Ministério da Justiça e o GAJOP,
filiado ao Movimento Nacional de Direitos Humanos que,
numa primeira fase, alcança cinco Estados: Ceará, Rio
Grande do Norte, Espírito Santo, Rio de Janeiro e
Bahia. Citamos também a aprovação do projeto de lei
que tipifica o crime de tortura, assim como
o incentivo ao funcionamento nos estados e municípios
de vários serviços destinados a dotar os cidadãos dos
documentos fundamentais da cidadania; entre outras
propostas que, para não me alongar, não vou mencionar.
Ao lado dos avanços colocados, alguns limites de
conteúdo podem ser atribuídos ao Programa. O primeiro
refere-se à quase absoluta desconsideração dos
direitos econômicos, sociais e culturais, os chamados
direitos de segunda geração (de acordo com a
classificação de direitos humanos em três gerações
relacionadas às etapas de reconhecimento ao longo da
história).
O Programa Nacional de Direitos Humanos, ao
sistematizar as propostas elaboradas pela sociedade,
priorizou apenas os direitos civis e políticos, ou os
chamados direitos de primeira geração, uma vez que
foram reconhecidos primeiramente na história da
humanidade. Tal priorização fere inteiramente o princípio
da indivisibilidade dos direitos humanos, aprovado com a
participação ativa do Governo brasileiro na Segunda
Conferência Mundial dos Direitos Humanos, ocorrida em
Viena, em 1993.
O princípio da indivisibilidade dos direitos
humanos quer significar que os direitos humanos não são
passíveis de hierarquização e de divisão.
A classificação dos direitos humanos em três
gerações tem importância, portanto, meramente metodológica,
na medida em que resgata o seu processo de construção
histórica, não implicando em se atribuir maior ou
menor importância a quaisquer das gerações desses
direitos.
Por trás de tal princípio, está a concepção
de que inexiste a possibilidade de vigência real de
direitos civis e políticos sem que vigorem também os
direitos econômicos, sociais e culturais e vice-versa.
Em outros termos, o direito ao desenvolvimento, tão
buscado pela sociedade brasileira, impõe a vigência,
igualmente, de direitos de primeira e de segunda geração.
Do ponto de vista social, é injustificável que os
direitos econômicos e sociais estejam de fora de um
programa que busca responder às principais violações
dos direitos humanos no Brasil.
A situação da educação, da saúde, do
trabalho e da terra, urbana e rural, entre outras questões,
tem no Brasil contemporâneo a mesma carga dramática
das violências físicas cometidas pelas polícias
brasileiras, para citar um dos graves problemas
relacionados ao exercício dos direitos civis e políticos.
Exemplo gritante é o dos trabalhadores sem terra,
alijados do processo de desenvolvimento, em função de
uma estrutura de poder excludente, que vemos se
perpetuar às vésperas do século XXI. Para esse grande
contingente de populações vulneráveis a violências
centenárias, o PNDH não conseguiu ainda dar respostas
ainda que apenas programáticas.
Do ponto de vista jurídico-positivo, o Programa
Nacional de Direitos Humanos desconsiderou uma série de
dispositivos constitucionais que especificam a importância
dos direitos econômicos, sociais e culturais, a começar
pelo preâmbulo da Constituição Federal, que
estabelece a instituição de um Estado democrático,
destinado a assegurar o exercício dos direitos
sociais e individuais à liberdade, à segurança, ao
bem-estar, ao desenvolvimento, à igualdade e à justiça
como valores supremos. Numa clara referência
consideramos a indivisibilidade dos direitos humanos. O
art. 3º, inciso III, da Constituição Federal, por sua
vez, estabelece a erradicação da pobreza e da
marginalização e a redução das desigualdades sociais
e regionais como um dos objetivos fundamentais da República
Federativa do Brasil. Como fazê-lo, perguntamos, a não
ser dando atenção especial para os direitos econômicos,
sociais e culturais?
Um outro limite do Programa Nacional de Direitos
Humanos está relacionado aos mecanismos para o seu
monitoramento. Embora o Programa tenha previsto duas
formas de monitoração, de competência respectivamente
dos estados-membros e do Ministério da Justiça, tais
mecanismos ainda não conseguiram se converter em
instrumentos eficazes para a exigibilidade das
propostas. Em função da precariedade de funcionamento
desses mecanismos, muitas das propostas de curto prazo
do Programa ainda não se converteram em realidade.
Entre as 62 propostas de competência federal,
destacamos as seguintes, que ainda carecem de existência
prática: a
criação do cadastro federal de inadimplentes sociais,
visando ao incentivo do respeito aos direitos humanos
por parte dos estados e municípios; a criação dos
sistemas integrados de controle de armamentos e munições,
em parceria com os governos estaduais; o apoio, no
contexto da reforma do Estado,
à proposta de modernização do Poder Judiciário;
o repasse de recursos do Fundo Penitenciário Nacional
aos estados, destinado a proporcionar melhorias no
sistema penitenciário dos estados, entre outras
propostas. Maior, no entanto, é a quantidade de
propostas que dependem de propositura ou de aprovação
por parte do Poder Legislativo Federal para serem
concretizadas. Esse fato demonstra que o Congresso
Nacional ainda não conseguiu incorporar na sua prática
a necessidade de viabilizar as propostas do Programa
Nacional de Direitos Humanos.
p class="BodyText" style="text-align:justify;tab-stops:120.65pt 156.65pt 192.65pt 228.65pt 264.65pt 300.65pt 336.65pt 372.65pt 408.65pt 444.65pt">
Destacamos a seguir algumas dessas propostas:
revisão da legislação regulamentadora dos
serviços privados de segurança; criação do Conselho
Nacional de Justiça,
com a função de fiscalizar as atividades do
Poder Judiciário;
reforma do Poder Judiciário;
incentivos fiscais, creditícios e outros às
empresas que empreguem egressos dos sistemas penitenciários;
proibição de todo
tipo de discriminação com base em origem, raça,
etnia, sexo, idade, credo religioso, convicção política,
ou orientação sexual; alteração
da legislação penal para incentivar ações com
o objetivo de eliminar o trabalho infantil e punir a sua
exploração; tipificar o crime de exploração sexual
infanto-juvenil; regulamentar o art. 7º, inciso XX, da
Constituição Federal, que prevê a proteção do
mercado de trabalho da mulher através de incentivos
específicos; revogar as normas discriminatórias ainda
existentes contra a mulher, o índio e o negro; rever o
Estatuto do Índio; propor e aprovar o Estatuto do
Refugiado; reformular a Lei dos Estrangeiros e
ratificar os atos internacionais, assinados pelo
Brasil, identificados no Programa Nacional de Direitos
Humanos.
Entre as 47 propostas de competência exclusiva
dos estados, destacamos a seguir as que são mais
importantes e que ainda não foram concretizadas, com
raras exceções: a
elaboração dos mapas da violência rural e urbana,
essenciais para a definição das políticas estaduais
de segurança pública e controle da criminalidade; a
elaboração de planos estaduais de direitos humanos,
estabelecendo prioridades a serem enfrentadas; o
estabelecimento de critérios para seleção,
admissão, capacitação,
treinamento e reciclagem de policiais;
o afastamento do serviço
dos policiais acusados de violência contra os
cidadãos; a criação de ouvidorias de polícia, com
representantes da sociedade civil, à exceção dos
Estados de São Paulo, Ceará e Pará,
que já o fizeram;
implementação de seguros de vida e de saúde
para policiais; criação de sistemas de proteção
especial às famílias dos policiais ameaçados em razão
de suas atividades; estabelecimento de programas de
cooperação e entrosamento entre as polícias civil e
militar e o Ministério Público.
Isso também para ficar apenas nas principais
propostas que não foram implementadas pelos Estados.
Entre as poucas propostas de competência dos
Estados que foram cumpridas, a maioria já havia sido
cumprida, antes mesmo do Programa Nacional de Direitos
Humanos ter sido lançado pelo Presidente da República.
É o caso, por exemplo, da criação de Conselhos de
Defesa de Direitos da Criança e do Adolescente, da criação
de Comissões de Direitos Humanos nas Câmaras
Municipais e nas Assembléias Legislativas, entre
outras.
A propósito da dificuldade de estabelecer o
monitoramento do Programa, em termos gerais, a
responsabilidade pela presente situação deve ser
compartilhada entre todos os poderes públicos,
nos níveis federal, estadual e municipal, que
demonstraram pouca sintonia para fazer valer as
propostas, articuladamente; destacando-se aí o Poder
Legislativo, responsável pelas propostas de alteração
legislativa, e as representações da sociedade, que não
vêm se mostrando capazes de exercer influência
decisiva para a adoção das propostas por parte dos
poderes públicos, especialmente das que requerem
mudanças legislativas.
A este respeito, o Movimento Nacional de Direitos
Humanos incluiu o acompanhamento dos projetos de lei em
tramitação no Congresso Nacional entre suas ações
prioritárias para os próximos anos. Em torno do Poder
Legislativo, deverá ser exercida doravante, sistemática
e forte pressão com vista à adoção, no prazo mais
curto possível, dos
mecanismos democratizantes que constam
do Programa Nacional de Direitos Humanos.
Com vista a auxiliar no monitoramento do Programa
e, conseqüentemente, aumentar as possibilidades de
convertê-lo em realidade no prazo mais curto possível,
o Movimento Nacional de Direitos Humanos propõe o que
se segue: primeiro,
a constituição de um grupo ou comissão formado por
entidades governamentais e não-governamentais,
vinculado ao Ministério da Justiça, destinado a
monitorar permanentemente o Programa Nacional de
Direitos Humanos. O referido grupo teria a competência
de detalhar as propostas previstas no Programa,
inclusive através da elaboração de projetos de lei a
serem encaminhados ao Congresso Nacional. Além disso,
seria responsável pela elaboração de
relatórios semestrais em torno da situação dos
direitos humanos no País e dos esforços desenvolvidos
para a implementação do Programa. Por fim, realizaria audiências públicas periódicas com a convocação de
autoridades federais e estaduais e a presença
de representantes da sociedade civil, sempre que
for necessário o esclarecimento de situações
relacionadas a violações dos direitos humanos e a
medidas de cumprimento do Programa Nacional de
Direitos Humanos.
A
segunda proposta é a de se constituir
um organismo
estatal, na estrutura do Poder Legislativo, destinado a
implementar as deliberações do Brasil a nível
internacional (de modo a evitar o descumprimento dos
pactos, tratados e convenções, nos termos até então
vistos) e acompanhar a execução do Programa Nacional
dos Direitos Humanos no que se refere às propostas que
exigem alteração legislativa. Esta instância deve
cuidar ainda de compatibilizar as mudanças legislativas
com o Orçamento da União, de modo a possibilitar a
concretização das propostas aprovadas.
Terceira
proposta: convocação, pelo Governo Federal, dos
governos estaduais e municipais, pelo menos os mais
importantes, com a finalidade de tratar da situação
dos direitos humanos no País e incentivá-los a adotar
as propostas constantes do Programa Nacional de Direitos
Humanos. Como resultado dessa convocação, deve ser
firmado um grande compromisso nacional para a superação
dos impasses vistos na área dos direitos humanos.
Quarta: realização de conferências temáticas
de direitos humanos nacionais e estaduais, tendo em
vista a necessidade de impulsionar a implementação do
Programa Nacional de Direitos Humanos, mediante a
especialização das discussões e de suas conseqüentes
soluções.
Quinta: em nível internacional, consoante a
Constituição Brasileira, que manda que as relações
com os outros países se estabeleçam com a prevalência
dos direitos humanos, sugerimos que o Brasil preste
solidariedade a países que se encontram em sérias
dificuldades, a exemplo de Ruanda, Timor-Leste e Bósnia.
A sexta
e última proposta
seria a adoção imediata pelo Brasil da jurisdição
da Corte Interamericana de Direitos Humanos -
destinada a julgar violações aos direitos
humanos pelos países signatários da Convenção
Americana de Direitos Humanos -
como forma de incrementar a observância de
direitos humanos internamente.
Diante
da clareza que temos, na qualidade de representantes de
parcelas da sociedade civil organizada, de que também
é nosso
papel impulsionar o cumprimento das propostas constantes
do Programa Nacional de Direitos Humanos, com o que nos
somamos aos esforços desenvolvidos pelo Governo
Federal, colocamo-nos à disposição, para contribuir
no que estiver ao alcance do Movimento Nacional dos
Direitos Humanos, especialmente na elaboração de
ajustes ao Programa e na implementação das propostas
no sentido da democratização do nosso País.
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (deputado Pedro Wilson) - Com a palavra o Dr. Paulo
Sérgio Pinheiro para
complementar a sua exposição.
O SR. PAULO SÉRGIO PINHEIRO - Sr. Presidente, esqueci-me de dizer
que o que falei de uma forma mais completa está num texto que eu e o professor Paulo Mesquita Neto estamos
apresentando aqui na reunião sobre o Programa Nacional
de Direitos Humanos:
avaliação do primeiro ano e perspectivas. Este
texto está sendo copiado pela secretaria do encontro, e
espero que V.Exªs. tenham acesso a ele. Com relação
à questão da implementação, V.Exªs. verão nesse
texto que há uma grande confluência com o que foi
comentado pelos meus dois amigos. Queria apenas dizer ao
presidente que vou comunicar ao Dr. José
Gregori que o núcleo só poderá funcionar de
maneira adequada se o Movimento Nacional de Direitos
Humanos estiver presente.
Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (deputado Pedro Wilson) - Passamos a palavra ao
cacique Celestino Xavante, que fará a sua exposição.
Logo depois, vamos desfazer esta Mesa e convidar
os relatores das conferências estaduais para fazer a última
comunicação na parte da manhã, o que é muito
importante para os trabalhos em grupo. Peço, desde
agora, ao Dr. Paulo Sérgio Pinheiro, ao deputado Nilmário
Miranda e ao Dr. Jaime Benvenuto que acompanhem, se possível,
na parte da tarde, os diferentes grupos, no sentido da
avaliação, porque
queremos dar a ela a maior objetividade possível.
Com a palavra o cacique Celestino Xavante.
O SR. CELESTINO XAVANTE - (Pronunciado
em língua Xavante e traduzido, simultaneamente, por
Jeremias Xavante) Sr. Presidente, Srs. deputados, V.Exªs.
sabem que não é desde hoje que estamos presenciando o
problema do índio. Há 500 anos que o homem branco chegou nestas tão amadas
terras brasileiras, tão respeitadas pelos nossos pais,
pelos nossos antepassados. Atualmente essas terras estão
sendo devastadas, o meio ambiente está sendo destruído,
e com ele as nações indígenas, verdadeiros guardiões
da natureza. Então, gostaria de conscientizar não só
as autoridades que estão aqui presentes, mas também
toda a sociedade para o fato de que muitas vezes
escutamos que muitas pessoas estão preocupadas com os
direitos humanos. É verdade, mas os índios são os
maiores prejudicados nessa história. Será que as
mortes anteriores, não só a do índio Galdino Jesus
dos Santos, foram punidas? Será que se fez justiça?
Estamos muito céticos com relação a isso. Sabemos que
os assassinos do Galdino, através de informações que
temos, vão ser soltos, vão responder ao processo em
liberdade. O que é isso, autoridades? O que é isso
senhores presentes ? Será que a impunidade mais uma vez
vai reinar? Vamos pensar seriamente a respeito disso.
Estamos realmente céticos e, por isso, apresento os líderes
que estão presentes aqui. Quero dizer para V.Exªs. que
eles são verdadeiros líderes. Quando eles vêm aqui,
quem os desrespeita primeiramente é o nosso órgão
tutor, a FUNAI. Aquela Fundação nunca recebeu os
nossos líderes que vêm aqui em busca de soluções e
para expor os seus problemas perante as autoridades.
Eles são ignorados, são jogados à própria sorte nas
pensões, onde há muita sujeira. Será que isso são
direitos humanos? Será que isso é respeitar um ao
outro? Acho que não. Então, gostaria de apresentar os
nossos líderes que estão aqui presentes: (apresentação
de lideranças indígenas).
Baseados
na nossa concepção, queremos, primeiramente, que a
sociedade, de um modo geral, comece a respeitar-nos.
Queremos mudanças na FUNAI, queremos tirar o presidente
atual, que está desrespeitando o índio, efetuando prisões
e batendo no índio. Em pleno dia 19 de abril, na
capital do Brasil, fomos agredidos física, moral e
culturalmente. Os nossos guerreiros foram
desrespeitados, humilhados na Polícia Federal. Estamos
aproveitando essa oportunidade para dizer a V.Exªs. que
o Presidente da FUNAI está desrespeitando as nossas
autoridades. Respeitamos as autoridades de V.Exªs.,
deputados, senadores, e o próprio FHC respeitamos até
o momento. O presidente Fernando Henrique Cardoso ainda
não demonstrou interesse em discutir diretamente com as
sociedades indígenas o Estatuto do Índio, o problema
dos índios. Então, gostaríamos de conversar
diretamente com S.Exª. Assim como S.Exª. está
recebendo várias camadas da sociedade, — já recebeu o MST, meninos de rua e as ONGs — por que não
receber o índio? Por que S.Exª. está evitando o índio?
Somos seres humanos, pensamos, estamos preocupados com o
nosso meio ambiente, com o Planeta Terra, e queremos
demonstrar isso. Queremos o apoio de V.Exªs. nesse
sentido. Sr. Presidente, queremos conversar com FHC,
porque o ministro que está aí interinamente não quer
conversar conosco, ele não quer receber os índios. Então,
peço a S.Exª., o presidente da República, que nos
receba imediatamente para sentarmos e discutirmos os
nossos problemas democraticamente, porque atualmente a
FUNAI é antidemocrática. As portas estão fechadas.
Aproveito a oportunidade para dizer a V.Exªs.
que a situação está insuportável. Estão dizendo que
um grupo está pedindo a saída do atual presidente. Não
só um grupo, mas todas as nações indígenas enviaram
um fax para falarmos, em nome delas também, sobre essa
questão. Então, a informação de que só um grupo está
querendo mudanças na FUNAI não é verdadeira. Todas as
nações indígenas estão querendo mudanças imediatas,
como a reestruturação da FUNAI, conforme pensam as
nossas lideranças e as nações indígenas, porque
todos nós estamos preocupados com o nosso órgão
tutor. Queremos resgatar a sua credibilidade, porque ele
atualmente está muito desacreditado, não só perante a
opinião pública nacional, mas perante a opinião
internacional também. E nós queremos as mudanças
dessa forma.
O cacique está falando isso porque estão
faltando projetos, estão faltando remédios para nós,
porque não fomos nós que levamos as doenças para as
nossas comunidades; as doenças foram introduzidas lá.
Os nossos curandeiros não estão conseguindo curar,
porque são doenças trazidas de longe, e isso está nos
prejudicando. É isso que ele está dizendo para todos
vocês, para que, neste momento, nós, conjuntamente,
conversemos com FHC para as mudanças imediatas na
FUNAI.
É isso.
O SR. PRESIDENTE (deputado Pedro Wilson) - Agradecemos as palavras
do cacique Celestino Xavante, traduzidas pelo Jeremias.
Gostaríamos de registrar a presença do vereador
Luiz Carlos Bassuna, do PT, presidente da Comissão de
Direitos Humanos da Câmara Municipal de Salvador,
Bahia; também da vereadora Nilza, da Comissão de
Direitos Humanos de Barreiras; da Ângela, do Serviço
Paz e Justiça, o SERPAJ.
Neste instante, desfazemos esta Mesa e convidamos
para tomar assento à Mesa os representantes das Conferências
Estaduais de Direitos Humanos. Começando por Aluízio
Matias, representante da Conferência Estadual de
Direitos Humanos do Rio Grande do Norte; Pedro
Montenegro, de Alagoas; Valéria Getúlio Britto e
Silva, do Distrito Federal; Oscar Gatica, da Paraíba;
Roseana Pereira, do Ceará; deputado João Leite, de
Minas Gerais; Sra. Maria Irene Pereira, de Goiás;
deputado Nelson Pelegrino, da Bahia, Salvador; Jayme
Benvenuto, de Pernambuco, e o jornalista Dermi Azevedo,
da Conferência do Estado de São Paulo.
Na
área habitacional, em que pesem também as iniciativas
já em curso no Distrito Federal, percebe-se necessário
enfrentar adequadamente a situação, desenvolvendo políticas
públicas que considerem sobretudo as circunstâncias
que levaram segmentos desfavorecidos da população a
ocupar áreas públicas. A abordagem do problema, em hipótese
alguma, deve contemplar a utilização da força e da ação
violenta.
Na área de educação para os direitos humanos e
cidadania, torna-se necessária a viabilização de uma
política educacional voltada para a formação humana.
E assim por diante, nosso relatório avalia cada
área.
Vamos distribuir esse documento a todos. As
entidades e organizações que coordenaram a I Conferência
do Distrito Federal foram o Conselho Distrital de Defesa
dos Direitos da Pessoa Humana, a Comissão de Direitos
Humanos da Ordem dos Advogados do Distrito Federal, a
Comissão de Direitos Humanos da Câmara Legislativa do
Distrito Federal, o Movimento Nacional dos Direitos
Humanos, o INESC, o Sindicato dos Jornalistas, o Centro
Ecumênico de Estudos Bíblicos, o Centro Cultural, e
outros.
Muito obrigada.
O SR. PRESIDENTE
(deputado Pedro Wilson) -
Agradecemos à Valéria, e antes de passar a
palavra para o Oscar Gatica, da Paraíba, anunciamos
mais algumas presenças.
Registro a presença de Maria Nazaré Pereira, da
STAS de Pernambuco; Lígia Guimarães Mesquita, da
Secretaria do Trabalho e Ação Social do Estado de
Pernambuco; Margareth Nicolau, da Secretaria da Criança
e do Adolescente do Distrito Federal; Maria de Lourdes
Brito, da Secretaria da Criança e Assistência Social
do Distrito Federal; Djalma Lopes de Souza, da
Secretaria de Justiça e Segurança do Maranhão;
Alberto Petrônio Carvalho, da Secretaria de Segurança
do Amazonas; Roseli de Souza Correa, da Secretaria de
Segurança Pública do Amazonas; Alexandre Tavares, da
Secretaria de Segurança Pública de Pernambuco; Flávio
Henriques, da Secretaria
do Interior, Justiça e Cidadania do
Rio Grande do Norte; Achiles Gonçalves Ferraz,
da Secretaria de Justiça e Segurança Pública; Ício
Brasil, da Secretaria de Justiça e Segurança Pública do Rio Grande do Sul; Francisco Dagmar, da Secretaria de
Justiça do Rio Grande do Norte; delegado Hélio Luz,
chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro, aqui
representando o secretário de Segurança Pública do
Rio de Janeiro; Ademar Oliveira, da Secretaria de
Segurança Pública do Amapá; Perly Cipriano, que está
aqui na mesa, secretário de Justiça do Espírito
Santo; Erli dos Anjos, também da Secretaria de Justiça
do Espírito Santo; Mário Pedro, da Secretaria de
Fiscalização do Trabalho; Carlos Eduardo, da
Secretaria de Segurança e Cidadania; Ana Maria Macedo,
da Secretaria de Justiça e Cidadania do Paraná; e Adão
Rosa, secretário de Segurança Pública do Espírito
Santo.
Passamos a palavra ao Oscar Gatica, aqui
representando a Conferência de Direitos Humanos do
Estado da Paraíba.
O SR. OSCAR GATICA - Sr.
Presidente da Mesa, demais membros, Sras. e Srs., a
Conferência Estadual do Estado da Paraíba,
realizada dia 9 de maio do corrente ano, no
Centro de Ensino da Escola da Polícia Militar da Paraíba,
com a participação de onze órgãos públicos e vinte
e três entidades da sociedade civil,
foi promovida pelo Conselho Estadual de Defesa
dos Direitos do Homem e do Cidadão e pelo Movimento
Nacional de Direitos Humanos da Universidade Federal da
Paraíba.
Em primeiro lugar, considero o Programa Nacional
de Direitos Humanos, a principal iniciativa do Governo
Federal com relação à temática — em todos os
tempos não se tem conhecimento de uma iniciativa igual
na história brasileira — e o compromisso desta Conferência
é com a implantação, o monitoramento e
tudo o mais
que for necessário para que este Programa
Nacional de Direitos Humanos se transforme em
realidade no
Brasil.
Observem que, como foi manifestado nas
conferências estaduais, há um desconhecimento
geral por parte dos órgãos públicos e também das
entidades da sociedade civil com relação ao Programa.
Há necessidade de divulgá-lo mais, bem como os seus
compromissos; e a responsabilidade monitorá-lo
é da sociedade civil.
Também entende a Conferência da Paraíba que o
Programa só se transformará numa realidade se a
sociedade civil participar
da sua implantação e de todos os órgãos de execução,
sobretudo no âmbito estadual e municipal.
Não vamos aqui abordar todas as avaliações,
porque o tempo não permitiria, mas afirmamos que o mais
importante, em nosso ponto de vista,
é a ausência de mecanismos de monitoramento e
de implantação do Programa, assim como a questão do
compromisso dos estados e
municípios para com ele.
Nesse sentido, gostaríamos de apresentar uma
proposta no sentido de que o Governo Federal, o próprio presidente da República,
convoque os governadores dos estados a um compromisso de
adesão ao Programa, de forma a facilitar o diálogo com
as entidades da sociedade civil.
Vamos apresentar e discutir as demais propostas
no grupo.
Obrigado.
O SR. PRESIDENTE (deputado Pedro Wilson) - Obrigado, Oscar.
Passaremos a palavra, então, para Roseana Pereira, do
Ceará.
A SRA. ROSEANA PEREIRA
- Boa tarde. Já é uma da tarde e eu só tenho vontade
de dizer que foi ótimo, porque temos
tão pouco tempo e já estamos atrasados na
programação.
No
Estado do Ceará realizamos a I Conferência Estadual no
dia 8 de maio, no Seminário da Prainha, e como disse na
ocasião o nosso
deputado, presidente da Comissão de Direitos Humanos, Mário
Mamede, foi um momento ímpar para o estado. Foi um dos
maiores acontecimentos de direitos humanos que já
ocorreu no Ceará. Estavam presentes todos os segmentos
da sociedade civil que dizem respeito à questão dos
direitos humanos. Quero apenas lamentar a ausência do
MST e da CPT. Na parte dos órgãos públicos também
todos estiveram presentes. Quem não esteve presente
mandou representação. Foi um momento muito produtivo
com os grupos específicos de trabalho — crianças,
mulheres, negros, índios, homossexuais, sistema
penitenciário, questão da terra, justiça e segurança,
portadores de deficiência —, todos eles muito ricos
em propostas muito voltadas para o estado, para o município,
o que nos levou a pensar em dar continuidade a essa
Conferência para a confecção do Programa Estadual de
Direitos Humanos. Saiu essa proposta e nós vamos
caminhar para isso.
Em segundo lugar, queria também dizer que tendo
em vista o desconhecimento do Programa Nacional dos
Direitos Humanos, identificado na Conferência (um
problema que já vínhamos sentindo), a Comissão de
Direitos Humanos e Cidadania da Assembléia Legislativa
do Ceará fez imprimir uma edição de bolso do
Programa, para que todo cidadão tenha acesso a ele no
seu bolso, na sua camisa. E ele vai ser distribuído
agora em todas as comunidades, grupos organizados,
setores públicos do estado, para democratizar essas
informações e as propostas que ali estão.
Não constatamos também qualquer forma de
implementação do Programa e de monitoramento, nem no
estado, nem em âmbito nacional. Nós também sentimos
esta falta e é muito complicado fazer uma avaliação
do Programa quando não há, não foi estabelecido e não
funcionam as formas de implementação e monitoramento.
Outra coisa que gostaríamos de abordar:
é preciso, nas propostas, reforçar os capítulos
referentes à conscientização e mobilização pelos
direitos humanos que estão no Programa Nacional, o que
seria uma forma, não só de divulgá-lo como também
de enfrentar
a visão preconceituosa que a maioria do pessoal
das periferias, das favelas e do interior tem em relação aos direitos.
Por fim, a Conferência aconteceu
num momento extremamente complicado, num momento
conjuntural específico do Estado do Ceará, configurado
pelas denúncias sobre violência policial e corrupção,
e nós nos deparamos com o encerramento das investigações
da Comissão Especial que tinha sido constituída no
Estado do Ceará para apurar tais denúncias.
No dia da Conferência, o governador dava os
trabalhos da Comissão por encerrados, satisfeito com as
investigações. Mas nós não, porque mais denúncias
estão chegando, denúncias feitas inclusive durante a
Conferência, que manifestou em moção o nosso repúdio
pelo encerramento da Comissão, uma vez que os fatos não
foram devidamente investigados. Outra questão
é que no Estado do Ceará começa a ser
implementado o Programa Nacional dos Direitos Humanos,
em vista de uma forte pressão
das entidades da sociedade civil.
Tendo em vista o grande número
denúncias de violência e corrupção, o
governador enviou uma mensagem à Assembléia
Legislativa instituindo cinco pontos do Programa
Nacional do Direitos Humanos, entre eles o Conselho
Estadual de Direitos Humanos. Isso para nós foi um avanço.
Mas, ao mesmo tempo, temos uma crítica: esta
providência aconteceu em face de
um problema sério de violação de direitos
humanos. As denúncias ocorreram agora, quer dizer, o
Governador não tinha tomado pé dessas coisas, não
tinha ainda se dado conta de que existia um Programa
Nacional de Direitos Humanos. Só diante das denúncias
e pressionado pela sociedade, ele fez isso. Pela
apresentação do deputado Nilmário Miranda, notamos
que todas as medidas que foram implementadas, as poucas,
sempre aconteceram após
um massacre. É preciso que morra gente, é
preciso que aconteçam graves violações para que o Programa seja
implementado.
Isto é um absurdo. E lá no Estado do Ceará foi
preciso haver denúncia, aquele negócio todinho
estampado, para que o governador tomasse providências.
Por último, queríamos expressar nossa indignação.
Foi criada a Ouvidoria-Geral do Estado do Ceará,
contudo, o Ouvidor é uma escolha direta do governador
e, ao mesmo tempo, a Presidência do Conselho Estadual
dos Direitos Humanos está vinculada a ele. Para nós,
isso é um retrocesso na luta pelos direitos humanos.
As propostas detalhadas da Conferência já estão
aqui; o relatório nós vamos reproduzir para servir de
subsídio aos grupos.
Muito obrigada.
/span>
O SR. PRESIDENTE (deputado Pedro Wilson) - Muito obrigado, Roseana.
Antes de passar a palavra ao deputado João Leite, de
Minas Gerais, quero registrar as presenças da deputada
estadual Fátima Bezerra, do PT do Rio Grande do Norte,
e da Sra. Helena Greco, do Movimento Tortura Nunca Mais,
de Minas Gerais, que parabeniza a todos os participantes
da 2ª Conferência.
Deputado João Leite, de Minas Gerais.
O SR DEPUTADO JOÃO LEITE - Boa tarde, trouxemos a esta Conferência o relatório (que está à
disposição em uma das mesas aí fora) do Ciclo de
Debates que fizemos
para avaliação do Programa Nacional de Direitos
Humanos.
Para nós foi uma alegria ter um programa para
ser avaliado, mas todos que participaram puderam
localizar como grande problema a desarticulação do
Governo Federal em relação aos governos estaduais, que
desconhecem totalmente o Programa, como é o caso de
Minas Gerais; o que é um sério problema, já que várias
ações previstas no Programa, e a sua implementação,
dependem de cada estado.
Mas eu queria abordar três pontos que foram
muito importantes para os participantes (o restante está
no relatório). A autonomia da perícia oficial e das
corregedorias de polícia foi um ponto colocado como
fundamental. Fortalecimento, reconhecimento e
descentralização dos conselhos de direitos de todas as
áreas — mulher, criança, adolescente — com
autonomia financeira, administrativa, bem como incentivo
para a sua criação nos locais onde inexistem.
Aprovação urgente de um novo estatuto para os
povos indígenas. Temos oito mil indígenas em Minas
Gerais, muitas nações, e por meio da revisão e
atualização da Lei n.º 6.001, de 1973,
poderiam ser retirados
do seu texto os vícios do período ditatorial,
durante o qual se originou.
Contamos especialmente com a participação
efetiva e atuante das entidades. Em setembro nós
teremos em Minas Gerais o Seminário Estadual de
Direitos Humanos, no qual queremos tirar bases para o
Programa Estadual de Direitos Humanos, e o que nos traz
grande esperança é a participação intensa das
entidades de Minas Gerais.
Muito obrigado, Sr. Presidente.
O SR. PRESIDENTE (deputado Pedro Wilson) - Obrigado, deputado João
Leite, passaremos imediatamente para Irene Maria dos
Santos, representando
a Conferência de Goiás.
A SRA. IRENE MARIA DOS SANTOS - Eu não vou dizer boa tarde, porque
eu ainda não almocei. É bom dia a todos os presentes e
aos companheiros da Mesa.
Realizamos a nossa primeira Conferência Estadual
dos Direitos Humanos no Estado de Goiás nos dias 19 e
20 de dezembro de 1996. Em relação à avaliação do
Programa Nacional dos Direitos Humanos não vou falar,
porque é o mesmo de todos os estados. E eu gostaria de
deixar registrada a dificuldade que tivemos em realizar
a 1ª Conferência no Estado de Goiás.
Primeiro, por um grande desconhecimento do conteúdo
do Programa, não só por parte dos órgãos públicos,
mas também dos movimentos e entidades.
Então passamos por todas as dificuldades que já
foram referidas pelos representantes de outros estados,
mas conseguimos fazer a Conferência, cujo saldo foi
muito positivo.
Avaliamos, após a Conferência, que ela foi um
marco fundamental na promoção dos direitos humanos no
Estado de Goiás. Sentimos, durante a sua
realização, que, quase completando cinqüenta
anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos -
mesmo com esse Programa de Direitos Humanos tão
falado mas tão desconhecido, criado pelo FHC -
o anseio e a angústia do povo brasileiro, do
povo da América Latina apontam ainda para a busca de
soluções das questões sociais econômicas e políticas.
E, quando terminamos a nossa Conferência, tiramos uma
plenária permanente composta por três entidades, com a
responsabilidade de encaminhar a discussão de direitos
humanos no estado e na região. Estamos tentando, mas não
está sendo fácil encaminhar isso. Já marcamos para
conversar com o governo, porque o objetivo principal da
nossa Conferência é pressionar o governo de Goiás
para que efetive o Programa Nacional no âmbito do
estado. Fizemos não um relatório, mas um documento que
está aqui no stand
do Movimento Nacional dos Direitos Humanos, e que
será distribuído entre os participantes. Temos
a esperança de que esse documento seja um instrumento
capaz de dar os primeiros passos significativos na promoção
dos direitos humanos.
E neste momento eu gostaria de ressaltar a
participação e contribuição do Ministério Público e da Polícia Militar de Goiás.
Obrigada.
O SR. PRESIDENTE (deputado Pedro Wilson) - Passamos o microfone ao
deputado Nelson Pelegrino, que representa a Conferência
da Bahia. Antes, registro a presença de Romeu Fortes,
deputado estadual e membro da Comissão de Defesa e
Cidadania, da Assembléia Legislativa de Pernambuco;
vereador Nílson Peixoto, da Comissão de Direitos
Humanos da Câmara Municipal de Recife; vereador
Valdemar Borges, da Câmara Municipal de Recife, também
presidente da Comissão de Direitos Humanos; deputado Cláudio
Vereza, da Assembléia Legislativa do Espírito Santo;
Fragato, da Comissão de Direitos Humanos da Assembléia
Legislativa do Espírito Santo;
deputada Maria Cecília Tafareli, da Assembléia
Legislativa de São Paulo, aqui representando o
presidente daquela Assembléia; deputado João Henrique
Blass, da Assembléia Legislativa de Santa Catarina;
deputado Carlito Mers, da Assembléia Legislativa de
Santa Catarina; Fátima Carvalho, da Comissão de
Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Ceará;
deputado Renato Simões, presidente da Comissão de
Direitos Humanos da Assembléia Legislativa do Estado de
São Paulo, e deputada
Maria Carmem Fidalgo, da Comissão de Direitos Humanos
da Assembléia Legislativa da Bahia; deputado Nílton
Lopes Nascimento, presidente da Comissão de Direitos
Humanos da Assembléia Legislativa do Maranhão. Também
gostaria de registrar a presença de Erenilton Brito
Silva, da Força Sindical, de João Carlos, advogado do
Espírito Santo; e de Maria Emília Ferreira, do
Departamento de Saúde do Estado de São Paulo.
Passamos então a palavra para Nelson Pelegrino.
O SR. DEPUTADO NELSON PELEGRINO- A Conferência Estadual de Direitos
Humanos da Bahia foi organizada pelo Fórum Estadual de
Direitos Humanos e teve como temário a questão da violência
racial. A Conferência produziu a Carta da Bahia, resolução
que eu passo a ler:
Com a participação de 65 entidades da sociedade
civil, a 1ª Conferência Estadual de Direitos Humanos
da Bahia analisou o processo de implantação na Bahia
do Programa Nacional de Direitos Humanos. Verificamos
que não houve avanços significativos a esse respeito e
denunciamos a falta de empenho dos Governo Federal e
Estadual para a implementação do referido Programa,
tendo se agravado a situação da violência oficial
contra a maioria da população baiana.
Seguem-se os considerandos da Carta:
Considerando que a violência racial no Brasil, e
em especial na Bahia, tem exterminado negros e índios
com o apoio do Estado; considerando a importância de
políticas públicas para a efetivação dos direitos
humanos como prioridade nacional; considerando que o
Programa Nacional de Direitos Humanos excluiu uma série
de reivindicações apresentadas por entidades não-governamentais
e da sociedade civil; considerando o princípio
fundamental da indivisibilidade e universalidade histórica
dos direitos humanos e que o Programa excluiu de suas
metas os objetivos sócio-econômicos, avaliamos que o
Programa ficou parcial neste sentido.
A Conferência Estadual de Direitos Humanos
reafirma todos os pontos que achamos importantes no
Programa, os gerais e os específicos. Pinçamos alguns
que consideramos
centrais, abrangentes e gerais, e que por esses motivos
devam ser objeto inclusive de uma centralidade da luta
para a efetivação de medidas que estão no Programa
Nacional de Direitos Humanos. Essa
é uma meta específica. No caso da Bahia, há
uma Comissão Parlamentar de Inquérito que tramita na
Assembléia para apurar a ação de grupos de extermínio.
Já foi criada, mas até hoje não foi instalada, pois a
maioria parlamentar não nomeia os seus membros,
impedindo dessa forma que a Comissão se instale. O
problema de grupos de extermínio na Bahia é muito sério.
Apontamos como necessidade:
Que seja criado em cada estado um programa de
defesa dos direitos humanos adequado à realidade local,
e que seja realizada uma conferência para elaborar um
programa estadual de direitos humanos na Bahia, assim
como em outros estados. Achamos que isso é importante
também.
Que seja estimulada a organização dos diversos
segmentos da sociedade civil para fiscalizar, monitorar
e cobrar a implementação do Programa Nacional dos
Direitos Humanos. É importante também
identificar essa Comissão que amanhã se reúne,
um ano depois que o Programa foi instituído, inclusive
com a participação da sociedade civil, para monitorar
o acompanhamento do programa.
Que o Brasil seja integrado à Corte
Interamericana dos Direitos Humanos, que seja
estabelecido o cadastro federal de inadimplentes,
proposta que está no Programa Nacional dos Diretos
Humanos, organizando a relação de estados e municípios
que não cumprem obrigações mínimas de proteção e
promoção dos direitos humanos. Achamos que essa
importante medida deve ser viabilizada a curto prazo.
Que seja atribuída à Justiça Federal competência
para julgar os crimes praticados em detrimento ou de
interesse dos direitos humanos, colocar sob a
responsabilidade dos
órgãos federais de proteção dos direitos humanos, as
causas civis ou criminais que sejam de competência do
referido órgão ou da Procuradoria Geral da República.
Trata-se da questão
da federalização dos crimes contra os direitos
humanos, que, sem dúvida,
é uma medida fundamental.
Que as polícias sejam unificadas e
desmilitarizadas, com a revisão profunda de toda a
cultura organizacional das instituições policiais e a
extinção dos tribunais militares. Achamos que esta
foi uma omissão do Programa Nacional de Direitos
Humanos, e que deve ser uma sugestão dessa Conferência,
a sua incorporação
ao Programa Nacional de Direitos Humanos: a
desmilitarização, unificação e reestruturação de
todas as polícias do Brasil.
Que seja proposto o afastamento de suas
atividades dos policiais acusados de violência contra
cidadãos, com imediata instauração de inquérito
para a execução de processo criminal. Esta é uma
providência que está proposta no Programa Nacional de
Direitos Humanos, que consideramos relevante e que tem
sido sugerida por nós de forma reiterada ao Comando da
Polícia Militar da Bahia.
Que seja regulamentado, para
aplicação de fato, o art.129, inciso VII, da
Constituição Federal, que trata do controle externo da
atividade policial pelo Ministério Público; outra
providência que nós achamos muito importante. Em
alguns Estados, o Ministério Público tem declarado que
ainda não há regulamentação. Nós sabemos que em
Minas e São Paulo já há regulamentação e estamos até
trabalhando nesse sentido também na Bahia. Nós achamos
que é fundamental sua aplicação a curto prazo.
Que seja apoiada a instalação de programas
estaduais de proteção às vítimas e testemunhas,
dando segurança à vida. Outra coisa importante também
é o Pró-Vida, que tem que ser ampliado e implantado
nos estados.
Reformulação do Conselho de Defesa da Pessoa
Humana, ampliando a participação de representantes da
sociedade civil; essa é outra providência que está no
Programa e até hoje não foi efetivada.
Achamos também importantes a revisão da legislação
sobre desacato à autoridade; o controle externo do
Judiciário; a definição de medidas que venham
combater a discriminação racial e
a desvinculação dos institutos médicos legais
das secretarias de segurança pública;
bem como a realização de
uma conferência nacional de direitos humanos
para estudar, reexaminar e reelaborar o Programa
Nacional de Direitos Humanos.
Por fim, a Carta diz que a Conferência objetivou
avaliar e apresentar sugestões ao Fórum Estadual de
Direitos Humanos da Bahia e ao Programa Nacional de
Direitos Humanos, e que se fazem necessárias a discussão
e a implementação de medidas em defesa desses
direitos, através da elaboração de um amplo plano de
metas específicas para a Bahia. Ou seja, a Carta da
Bahia apontou para a perspectiva de realizarmos, no
segundo semestre, uma conferência estadual de direitos
humanos para começarmos a reelaboração do Programa
Nacional de Direitos Humanos.
Além disso, dedicamos a Conferência ao índio
pataxó Galdino Jesus dos Santos, reivindicando que
fosse instituída uma pensão para sua família durante
cem anos; recriminamos a violência policial que tem
havido na Bahia e
a repressão contra os demitidos da Prefeitura e a
agressão sofrida por um dos integrantes do Fórum dos
Direitos Humanos, Leo Ornelas. Foi também apresentada
uma moção em repúdio à desativação da Residência
Feminina.
A Carta da Bahia, resultado da nossa Conferência,
será entregue à Coordenação dessa 2ª Conferência
Nacional de Direitos Humanos. Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (deputado Pedro Wilson) - Obrigado, deputado Nelson
Pelegrino.
Com a palavra o Sr. Jayme Benvenuto, que
representa a Conferência Estadual de Pernambuco.
O SR. JAYME BENVENUTO - Boa tarde. Eu falarei muito brevemente sobre
os resultados da Conferência Estadual, porque muitos
pontos estão em comum com o que já foi apresentado.
A Conferência de Pernambuco ocorreu nos dias 29
e 30 de abril, no auditório da Assembléia Legislativa
do Estado, e contou com cerca de cem participantes. Foi
uma promoção conjunta do Movimento Nacional de
Direitos Humanos, da Comissão de Direitos Humanos da
Assembléia Legislativa do Estado, da Comissão de
Direitos Humanos da Câmara Municipal, da Rede Estadual
de Direitos Humanos e do Conselho Municipal de Direitos
Humanos do Recife.
A Conferência procurou priorizar três temas, de
modo a não se perder na discussão de todo o Programa
Nacional de Direitos Humanos. Esses três temas
priorizados foram considerados os mais importantes para
a realidade do Estado de Pernambuco: a questão dos
direitos econômicos, sociais e culturais, com
especialização na área da reforma agrária;
o direito à
justiça e à segurança; e o direito da criança e do
adolescente.
Não entrarei propriamente nas propostas
relativas a estas questões porque elas constam de um
relatório cuja cópia vai ser distribuída e porque,
por ocasião do debate dos temas específicos, os nossos
representantes irão apresentá-las nos grupos de
trabalho.
Abordarei então algumas questões bem gerais,
relacionadas à aplicação e à implementação do
Programa Nacional de Direitos Humanos no Estado de
Pernambuco. Em primeiro lugar, há a constatação —
comum a quase todos os estados — de que nós não
realizamos e elaboramos o Programa Estadual de Direitos
Humanos, no
sentido de priorizar algumas questões para o estado,
relacionadas à questão geral do Programa Nacional.
Temos também
a proposta da elaboração
de um mapa da violência rural e urbana, até como
elemento para a construção do Programa Estadual de
Direitos Humanos. Essas duas conclusões constituem
perspectivas de trabalho de uma comissão que foi
criada.
Talvez o principal resultado da Conferência seja
a criação, no estado, de uma instância de
monitoramento do Programa. Essa instância ainda não
tem nome mas provavelmente se chamará Fórum Estadual
de Direitos
Humanos e será composta de representantes de órgãos
estaduais — de
todas as Secretarias (em especial Justiça e
Segurança), da Polícia Militar, de todos os Poderes
— e de representantes da sociedade civil, de entidades
da sociedade civil, como o MST, o Movimento Nacional de
Direitos Humanos, a CUT, a Rede Estadual de Direitos
Humanos, a OAB, entre outras. Essa instância terá
justamente o objetivo de fazer com que o Programa tenha
existência prática no estado, no prazo mais curto possível.
Como resultado geral, foi proposta a instalação
do Conselho Estadual de Defesa Social, que tem a competência
de tratar das questões relacionadas aos direitos
humanos no estado. Embora tal Conselho esteja na
Constituição desde 1989, não existe na prática. Para
avançar na sua implementação, sabemos que o Governo
do Estado tem realizado reuniões.
Em termos gerais, é isso o que tenho a destacar.
O SR. PRESIDENTE (deputado Pedro Wilson) - Obrigado, Jayme.
Faltam apenas dois Estados e, antes de passar a
palavra ao Sr. Dermi Azevedo, de São Paulo, anuncio a
presença de Antônio Maria Rocha, da Fundação
Educacional do Distrito Federal; de João Bosco de
Oliveira, da Associação Brasiliense de Peritos
Criminais; Ervino
Schimidt, do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do
Brasil; Francisco Badenes, delegado de Polícia Civil do
Espírito Santo; Francisco José Fitipaldi, do Tribunal
de Justiça do Espírito Santo; Sandro Torres Avelar, do
Tribunal de Justiça do Distrito Federal; Dyrceu Aguiar
Dias Cintra, da Associação Brasileira
Juízes para a Democracia; Vanderlei Leal Chagas,
da Associação Brasileira de Criminalística; e Maria
Ivete Silva de Oliveira, da Consultoria Jurídica do
Governo do Distrito Federal.
Com a palavra o penúltimo orador, Dermi Azevedo,
que representa o Estado de São Paulo.
O SR. DERMI AZEVEDO - Companheiras e Companheiros, o nosso processo
de avaliação do Programa Nacional de Direitos Humanos
tem como base a elaboração do Programa Estadual de
Direitos Humanos. Desde o ano passado estamos
referenciando a elaboração do Programa Estadual com o
Programa Nacional.
Esse Programa Estadual está sendo elaborado em
regime de parceria. Há um comitê de acompanhamento
formado pela Secretaria da Justiça, pelo Núcleo de
Estudos de Violência da USP, pela Comissão de Direitos
Humanos da Assembléia Legislativa e pelo Conselho
Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana. Além
disso, têm sido realizadas audiências públicas no
interior, sendo que a última será realizada agora, na
capital. Posteriormente essas audiências serão
complementadas pela Conferência Estadual dos Direitos
Humanos, concluindo com a elaboração do Programa
Estadual de Direitos Humanos, que depois também será
monitorado em
parceria.
Cópias do nosso documento estão sendo distribuídas,
mas quero sinalizar apenas alguns aspectos do nosso
relatório de avaliação do Programa Nacional de
Direitos Humanos. Ele tem três partes. Na primeira
falamos da violação estrutural dos direitos
humanos; na segunda, falamos dos avanços registrados
nessa luta; e na terceira especificamos algumas questões
que consideramos preocupantes e fazemos algumas
propostas.
Na
parte da violação estrutural dos direitos humanos, a
premissa básica é a de que o aprofundamento do fosso
existente entre os incluídos e os excluídos no modelo
socioeconômico vigente no País é a nossa principal
realidade de violação dos direitos humanos. Não há
como negar que as políticas baseadas no ajuste
estrutural trazem consigo, de um lado, a estabilidade
econômica, mas, de outro, conseqüências funestas
traduzidas no desemprego programado e na restrição aos
bens mínimos necessários à dignidade humana.
Nós falamos, em várias partes deste documento,
sobre a situação paradoxal dos direitos humanos no
Brasil, analisando também a política de privatizações
do Governo Federal à luz desses direitos. Os
governantes alegam que o dinheiro obtido com as
privatizações será utilizado em favor da saúde, da
educação, da moradia e da segurança, mas, até prova
em contrário,
não é isso o que se constata, uma vez que verificamos
um agravamento do déficit em cada uma dessas áreas.
Ao mesmo tempo, assinalamos a responsabilidade
dos Poderes Legislativo e Judiciário; falamos do latifúndio,
da comunicação e da informação; da relação entre mídia
e direitos humanos; e do aumento da cultura da violência,
traduzida no individualismo, no consumismo e na falta de
solidariedade.
Também falamos no preconceito e na discriminação,
que continuam sendo praticados em larga escala,
exemplificados pelo assassinato do índio pataxó
Galdino Jesus dos Santos e pela queima de mendigos nas
grandes cidades, indicando um vazio de valores que
atinge, de modo particular, a juventude brasileira.
Falamos da questão carcerária; da não realização
da reforma agrária; e da questão indígena, sobretudo
num momento em que começam as comemorações dos 500
anos do "Descobrimento do Brasil".
A seguir, registramos um aspecto muito especial
sobre a reforma agrária: para nós, sem reforma agrária
não se pode legitimamente falar de efetivação dos
direitos humanos no Brasil, e dizemos enfaticamente que
os movimentos sociais que lutam pela reforma agrária não
podem ser tratados como caso de polícia. Pelo contrário,
suas reivindicações devem ser atendidas em caráter
urgente e prioritário, e as vozes roucas de seus
participantes devem ser ouvidas prioritariamente, muito
mais do que as vozes do discurso único dos megaempresários
que se articulam para comprar nossas estatais.
No que se refere aos avanços, assinalamos o
compromisso público das autoridades com os direitos
humanos, a começar pelo Presidente da República; a
elaboração desse Programa e dos programas estaduais; a
criação da Secretaria Nacional de Direitos Humanos; e
a ampliação dos espaços públicos de direitos humanos
— conselhos, comissões e comitês.
Também assinalamos algumas questões muito específicas
que não foram tratadas, como a possibilidade de
retomada da corrida armamentista e da compra de novos
equipamentos de tortura. Como denunciou recentemente o Le
Monde, há uma ofensiva no sentido de se vender tais
equipamentos aos países do chamado Terceiro Mundo.
Por fim, propomos que o Programa seja, cada vez
mais, tratado em parceria, que se elaborem os programas
estaduais, que tentemos ganhar um espaço permanente na
mídia e principalmente removamos o entulho autoritário
ainda existente nas estruturas das polícias.
Para terminar, gostaríamos também de registrar
uma homenagem a uma grande companheira que deixou esta
vida recentemente, Dª Helena Pereira, do Grupo Tortura,
Nunca Mais. Muito obrigado.
O SR. PRESIDENTE (deputado Pedro Wilson) - Obrigado, Dermi Azevedo.
Esta Conferência tem também como um de seus
principais objetivos estimular a adequação do Programa
Nacional de Direitos Humanos aos estados, dada a sua
autonomia constitucional e legal e a sua proximidade com
o cidadão. Daqui a pouco começaremos a discutir o
Programa Nacional de
Direitos Humanos no município, na comunidade, no
bairro, onde estão a polícia, a igreja, a sociedade civil, as ONGs, os
sindicatos, as associações
de moradores e o próprio Estado, que, pelo menos
constitucionalmente, é a principal fonte de proteção
e promoção dos direitos humanos.
Agradecemos e recebemos essas contribuições com
carinho, esperando
que todos os estados brasileiros se esforcem para
avançar suas estruturas de defesa e promoção dos
direitos humanos, de forma que, na entrada do terceiro
milênio possamos ver a omissão, a conivência
do Estado e as violações de direitos humanos como algo
pertencente ao passado.
Antes de encerrar esta primeira fase dos
trabalhos que, na nossa avaliação, cumpriu seus
objetivos (de
dar conhecimento a todos sobre as propostas de luta nos
estados), reafirmo
a importância da participação de todos nós nos
grupos temáticos, que vão se reunir hoje à tarde.
Agradecendo a presença de todos, especialmente
dos representantes das nações indígenas,
encerramos esta primeira parte, convocando todos
os participantes para os grupos temáticos, às 14:30h,
no Anexo II. Em cada sala há uma indicação dos grupos
de trabalho. Outras informações serão dadas nos
respectivos grupos de trabalho, e lembramos que amanhã
retornaremos às 9 horas em ponto neste plenário.
Muito obrigado.
Sessão
do dia 13 de abril de 1997
2º
dia da Conferência
O SR. PRESIDENTE (deputado Pedro Wilson) - Bom dia a todos. É com
satisfação que reabrimos os trabalhos da 2ª
Conferência Nacional de Direitos Humanos.
Hoje, segundo e último dia de trabalho,
começaremos com a exposição do Programa Nacional de
Direitos Humanos, pelo secretário Nacional de Direitos
Humanos, Dr. José Gregori, a quem convidamos para
integrar a Mesa.
Após a exposição do Dr. José Gregori, os
relatores dos doze grupos temáticos farão uma
apresentação sucinta das discussões que realizaram
ontem. São doze grupos. Pedimos a atenção de todos
relatores. Esses relatos vão subsidiar e documentar os
debates do final da manhã e do período da tarde.
Fizemos reproduzir integralmente os relatórios
dos grupos temáticos. Esses relatórios estão
consolidados em um só documento, que está à
disposição de todos no saguão de entrada do
Auditório Nereu Ramos.
Quero agradecer, em nome de todos os
participantes da 2ª Conferência Nacional de Direitos
Humanos, a colaboração aos relatores e coordenadores
dos doze grupos, que ontem se desdobraram até mais
tarde para que pudéssemos ter o registro das
discussões ainda hoje.
Retomando a dinâmica desta 2ª Conferência,
depois da apresentação dos relatórios dos grupos,
passaremos aos debates. Faremos uma pequena
interrupção para o almoço e voltaremos às 14h30min,
para prosseguir com os debates e encaminhamentos finais.
Nosso propósito é encerrar este evento às 17h, com a
votação de moções.
Solicito a atenção de todos os conferencistas
para outro aviso. Depois do almoço, logo após a
retomada dos trabalhos, haverá o lançamento neste
plenário do livro "Direitos humanos e violência:
o que fazer?", trabalho realizado pela Secretaria
de Justiça e Cidadania do Governo do Espírito Santo.
Depois de falar sobre o livro, o secretário Perly
Cipriano ficará à disposição para autografá-lo no
saguão de entrada deste auditório.
Haverá também o lançamento do relatório do
Tribunal Internacional contra os massacres de Eldorado
dos Carajás, evento realizado em novembro do ano
passado pela Comissão de Direitos Humanos, presidida
pelo deputado Hélio Bicudo.
Outro lançamento será o do Relatório de
Atividades da Comissão de Direitos Humanos da Câmara
dos Deputados, referente aos trabalhos realizados entre
fevereiro de 1996 e janeiro deste ano, período de
gestão do deputado Hélio Bicudo.
Também será lançado o vídeo
"Retratação Política em Toritama,
Pernambuco", uma produção da CENARTE e do Grupo
Tortura Nunca Mais, de Pernambuco, que contou com apoio
do Centro de Direitos Humanos e Memória Popular de
Natal.
Os livros e o vídeo que estão sendo lançados
nesta Conferência estarão à disposição dos
interessados no saguão de entrada do auditório, a
partir das 14h.
Passamos agora a compor a Mesa. Convidamos para
tomar assento à Mesa o Dr. Paulo Sérgio Pinheiro; o
deputado Mário Mamede, presidente da Comissão de
Direitos Humanos do Ceará; o Prof. Rubens Pinto Lira,
presidente do Conselho de Direitos Humanos da Paraíba;
o Dr. Marcus Vinícius Pinto, da Divisão de Direitos
Humanos do Itamaraty; o Dr. Paulo Mesquita Neto, relator
do Programa Nacional de Direitos Humanos; o Dr. Roberto
Franca, secretário de Justiça do Estado de Pernambuco;
a Dra. Marilda Helena dos Santos, representando o
procurador-geral de Justiça de Goiás e todos os
membros do Ministério Público do Brasil; a Dra. Ana
Maria, do Conselho de Direitos Humanos do Paraná; o Dr.
Humberto Espíndola, do Conselho de Defesa da Pessoa
Humana do Ministério da Justiça; a deputada Dalila
Figueiredo, da Comissão de Direitos Humanos; e os
caciques Daniel e Aniceto, representando aqui as
nações indígenas.
Hoje, dia 13 de maio, convidamos Marlene dos
Santos Pessoa, da Fundação Cultural Palmares,
representando a luta do povo negro pela libertação.
Convidamos também o deputado João Leite,
presidente da Comissão de Direitos Humanos de Minas
Gerais.
Gostaríamos de comunicar a este plenário que a
coordenação desta Conferência acertou
com os coordenadores do Grito da Terra (que está
sendo realizado com mais de mil participantes no
Auditório Petrônio Portela do Senado, os quais
estarão aqui conosco entre 16 e 17 h),
para o final desta Conferência, a realização
de uma manifestação clamando por justiça na Praça
dos Três Poderes, em frente ao Supremo Tribunal
Federal, às 17h.
A partir das 12h estarão no balcão de entrada
os certificados de participação na Conferência. Quem
não registrou o nome poderá fazê-lo, pois vamos
distribuir certificados de participação.
Vamos ouvir agora o Dr. José Gregori. Depois
teremos a apresentação dos relatórios, com cinco
minutos para cada grupo (peço que façam uma síntese).
Depois abriremos os debates, que continuarão após o
almoço. Logo após a apresentação dos
doze relatórios, teremos a palavra franqueada.
Comunico ao plenário também que recebi convite e
comparecerei, ao meio-dia, a uma audiência com o Sr.
presidente da República.
Com a palavra o Dr. José Gregori.
O SR. JOSÉ GREGORI - Companheiros de Mesa, presidente da 2ª
Conferência Nacional de Direitos Humanos, deputado
Pedro Wilson, minhas amigas e meus amigos, estou aqui,
na qualidade de secretário Nacional de Direitos
Humanos, não para uma comemoração, porque acho que é
muito cedo para falar em comemoração, mas para uma
reafirmação de propósitos no que toca ao empenho, à
vontade política, à decisão do Governo Federal em
relação aos direitos humanos.
Pela primeira vez na história da República, um
governo federal se dispôs a assumir o imenso
compromisso de executar uma política pública de
direitos humanos. É claro que outros governos se
interessaram pelos direitos humanos, mas sempre em
atitudes pontuais, nunca na forma que o governo atual
fez, como uma das opções de governo, como seria a
opção pela saúde, pela educação, pelo comércio
exterior, pelo saneamento; agora, entre essas
tradicionais opções de políticas públicas se
encontram os direitos humanos. Portanto, operou-se uma
mudança de status
dos direitos humanos, que ganharam esse patamar de
política pública, sob a responsabilidade do Governo
Federal.
Esta opção se materializou em primeiro lugar no
enfrentamento de questão espinhosa, difícil, que
vários governos tentaram, mas não lograram resolver a
bom termo. O atual governo resolveu enfrentar esse
problema não só por uma questão de princípio, de
responsabilidade, mas também como uma demonstração de
que, em matéria de direitos humanos, não estava
posando nem fazendo jogo de cena para platéias
desavisadas. Realmente, pelo tipo de dificuldade desse
problema, queria significar também o seu empenho e a
sua decisão relativamente aos direitos humanos.
Refiro-me ao enfrentamento da questão dos desaparecidos
políticos deste País.
Em segundo lugar, pela elaboração do Programa
Nacional de Direitos Humanos, dando cumprimento a
compromisso internacional assumido pelo Brasil em 1993,
na Conferência Mundial pelos Direitos Humanos, em
Viena. O Brasil foi o segundo país, depois da
Austrália, a elaborar o seu Programa Nacional de
Direitos Humanos. Finalmente, há cerca de vinte dias,
foi criada a Secretaria Nacional de Direitos Humanos.
Portanto, estou aqui para dizer que estamos no
rumo do compromisso com os direitos humanos. Neste
sentido, embora seja cedo para balanços, para
comemorações, para análises definitivas, sem dúvida
nenhuma acho que há argumentos, fatos, medidas,
propósitos que demonstram que este rumo não é mera
retórica, mas é um rumo fático.
Em matéria de direitos humanos, costumo dizer
que aquele que acredita neles e que aposta o melhor da
sua vida na concretização dos direitos humanos não
pode ter uma visão de prazo curto, mas sempre uma
visão de prazo médio. Porque quase tudo em matéria de
direitos humanos depende de um processo.
Não há possibilidade de assinalar pela pedra
fundamental nenhum avanço dos direitos humanos com data
de conclusão para o corte da fita inaugural. Isso é
possível na construção de um túnel, de uma estrada,
de um viaduto; não é possível em matéria de direitos
humanos. Os avanços em direitos humanos dependem da
dimensão de comportamento, da dimensão de cultura,
enfim, da visão ética das pessoas. E esse tipo de
influência nesse campo não é fácil. Depende, como
disse, de um processo.
O importante é saber se há rumo e se há
disposição para seguir esse rumo. E eu posso garantir
aos senhores, com inteira honestidade, que há essa
vontade política, há esse rumo e há disposição de
prosseguir decididamente no sentido de fazer avançar os
direitos humanos, sobretudo neste País tão carente.
Infelizmente — e temos de ter a coragem de
reconhecer — o Brasil é um dos países mais violentos
do mundo. As estatísticas a respeito da violência, de
crimes e de desrespeito aos direitos humanos estão
começando a ser feitas, porque, há muito pouco tempo,
a universidade abriu os seus olhos para esses problemas;
há muito pouco tempo, a Ciência abriu os seus olhos
para esse tema. Apesar da fragilidade dessas
estatísticas, desses dados, não hesitamos em afirmar e
repetir que, infelizmente, o Brasil é um dos países
mais violentos do mundo.
Se medirmos essa violência pelo número de
assassinatos, são 100 mil pessoas por ano. As
estatísticas do Banco Interamericano de
Desenvolvimento, apresentadas num congresso em
fevereiro, no Rio de Janeiro, mostram que o Brasil se
situaria — medindo-se
a violência pelo número de assassinatos de 100
mil pessoas em um ano — em terceiro lugar, só
perdendo essa marca perversa para a Colômbia e El
Salvador. Portanto, por mais que se faça, governo e
sociedade civil, fazemos pouco em relação às
necessidades brasileiras.
Mas o importante é saber, como eu disse, se
estamos no rumo, se as coisas estão começando a ser
diferentes do que sempre foram. E acho que uma análise
isenta e construtiva, uma análise de boa fé concluirá
que a situação começa a mudar, a ser diferente.
E eu quero dizer — não para agradar essa
platéia, pois já estou numa idade e tenho uma modesta
biografia que me dispensa de oferecer ou receber
gentilezas — que o primeiro sinal de que estamos
avançando é a realização de uma conferência como
esta. Isso seria impensável num Brasil que eu conheci,
vivenciei. Uma conferência como esta é possível e,
sem dúvida alguma, independentemente de que aqui se
tenham feito críticas ou se tenham feito elogios. Não
importa, a verdade é que a realização desta 2ª
Conferência, acostada na análise do Programa Nacional
de Direitos Humanos, dando continuidade à conferência
que se fez no ano passado para discutir esse programa,
ainda embrião, sem dúvida nenhuma, pela honestidade e
pela qualidade da participação, sem nenhuma ajuda
governamental — quem veio aqui foi por convicção,
foi por compromisso —, é muito importante e é um
dado concreto de que estamos caminhando, de que estamos
avançando.
Nesse sentido, quero dizer que o Governo, por
intermédio da Secretaria Nacional de Direitos Humanos,
receberá com todo o empenho as conclusões desses
trabalhos, para analisá-las e incorporá-las naquilo
que elas se coadunarem com as linhas do Programa
Nacional de Direitos Humanos, na atividade diária da
Secretaria Nacional de Direitos Humanos.
Mesmo antes de recebê-las, queria anunciar
publicamente que uma das reivindicações desta
Conferência será atendida. Ou seja, de que haja um
representante da Conferência no corpo, ou no conselho,
ou na comissão de acompanhamento dos direitos humanos,
que se reunirá hoje à tarde no Ministério da
Justiça, integrada
por pessoas de grande tradição no campo dos direitos
humanos — bastaria citar que o secretário desta
comissão de acompanhamento é o Prof. Paulo Sérgio
Pinheiro. Gostaria de anunciar, então, que será
reservado um lugar para aquele que for designado por
este plenário.
Em segundo lugar, queria dizer que, em relação
a outra reivindicação surgida nesta Conferência, de
que houvesse não só o empenho da Secretaria Nacional
de Direitos Humanos do Ministério da Justiça em
relação ao cumprimento, à execução do Programa
Nacional de Direitos Humanos, mas de todo o corpo
governamental, todos os departamentos que compõem o
Governo Federal, logo mais, ao meio-dia, num ato
singelíssimo, que vai marcar o primeiro ano do Programa
Nacional de Direitos Humanos, no Palácio do Planalto, o
Presidente da República tomará uma medida concreta
nesse sentido, de empenho direto, constante e
sistemático de todo o corpo governamental na execução
do Programa Nacional de Direitos Humanos.
Portanto, acho que estamos dando mostras
concretas de que não estamos no campo da retórica na
questão dos direitos humanos. Temos plena consciência
das dificuldades, do quanto são difíceis os avanços,
do quanto se precisa ter uma visão dialética quando se
trata de analisar as marchas e contramarchas, os
avanços e, às vezes, até os recuos em matéria de
direitos humanos; mas, na grande contabilidade, sem
dúvida alguma, já se começa a
perceber neste País um interesse cada vez maior
pelos direitos humanos.
Neste sentido, trago uma das minhas angústias,
para socializá-la com cada uma das minhas amigas e dos
meus amigos: imaginar meios e modos de se
conscientizar, cada vez mais, mais e mais gente
em relação aos direitos humanos. Estou convencido de
que ganharemos ou perderemos a batalha dos direitos
humanos no Brasil na medida em que as grandes massas
identificarem ou não, nos direitos humanos, um
dos instrumentos para combater, para diminuir a
violência.
E acho que os direitos humanos só terão este
poder, esta eficácia no combate à violência na medida
em que mais e mais gente souber o que sejam os direitos
humanos e passar a coordenar, a condicionar, a pautar, a
afeiçoar, a conformar a sua vida diária, o seu
cotidiano de acordo com
as linhas fundamentais dos direitos humanos.
É claro que é preciso uma Justiça que
funcione, é preciso um ativo social que não deixe
ninguém sem ter acesso aos bens da civilização. É
claro que é preciso uma polícia moderna, que dê
combate aos delinqüentes, sem desrespeitar os direitos
humanos. É claro que é preciso um perfeito
funcionamento institucional, mas é claro também que é
preciso uma mudança de atitude das pessoas, umas com as
outras, para se conseguir baixar os índices de
violência.
Tenho dito a todos que não é difícil atingir
aquela meta
, uma vez que temos uma bíblia dos direitos humanos,
que expõe com toda a simplicidade, com clareza, com uma
didática direta, no sentido de informar o que sejam os
direitos humanos. Esse documento, que dá ao homem o
direito de se dizer civilizado, é a Declaração
Universal dos Direitos Humanos, da ONU. Portanto, não
é difícil que cada pessoa saiba como condicionar o seu
dia-a-dia aos ditames, às linhas gerais dos direitos
humanos.
E lá está estabelecido, no primeiro artigo, que
defende o direito humano de todos os seres humanos, que
é o direito à vida. Cada um de nós, na vida em
sociedade, deve manter
relacionamentos de fraternidade, não de hostilidade. É inescapável que os
direitos humanos precisam estar na lei, precisam estar
nas conquistas sociais, econômicas; mas, se não
estiverem dentro de cada um, não há avanço possível
na "desviolência" que os direitos humanos
podem proporcionar.
Neste sentido, é vital — e agora passo à
minha angústia — que nós imaginemos meios e
modos de contagiar as pessoas, de imantar as pessoas, de
trazer as pessoas para a crença que temos no valor e na
importância dos direitos humanos; como criarmos uma
cultura dos direitos humanos, como elaborarmos uma
didática, uma pedagogia dos direitos humanos. É
comovedor, por exemplo, saber que por esforço de um
pequeno grupo do Ceará foi possível criar esse
livrinho, atraente até na sua cor, no seu formato, do
Programa Nacional de Direitos Humanos, sem nenhuma ajuda
do Governo Federal.
E queria deixar para a criatividade de cada um
dos meus companheiros e companheiras o que poderíamos
fazer no sentido de criarmos um megaevento; que, num
determinado dia, o Brasil inteiro parasse, por um
momento que fosse, no sentido da prática, no sentido do
testemunho dos direitos humanos.
Portanto, digo que nós estamos dispostos a isso.
Não achamos ainda a fórmula, mas, como agimos em
mutirão, num auditório, num plenário como este, digo
que uma das prioridades seria
a de realizarmos ainda este ano, no dia 10 de dezembro, quando
se comemora o Dia da Declaração Universal dos
Direitos Humanos, algo
no sentido de que todos os brasileiros, sem
nenhuma exceção, fossem tocados num determinado
momento pela questão dos direitos humanos. Sei que
esses avanços, que esses esforços que temos feito não
contagiaram ainda aqueles a quem chamamos de povão.
Na semana passada, junto com Paulo Sérgio
Pinheiro, tive ocasião de participar de um seminário
em São Paulo, que trouxe, pela primeira vez, com
disposição, uma das maiores organizações de
comunicação do mundo. Pela primeira vez se jogou, por
inteiro, a divulgação da reflexão sobre os direitos
humanos. E durante três dias, no auditório do
Parlatino, em
São Paulo, só se falou em direitos humanos, enquanto
as organizações, ou as televisões ligadas a essa
organização, com freqüência davam notícias sobre os
direitos humanos. E eu pedi à pessoa que me acompanha
em São Paulo — um soldado da Polícia Rodoviária
Federal, uma pessoa realmente diferenciada — que
perguntasse aos dezesseis
seguranças, fardados ou não fardados, que estavam no
Parlatino, se algum deles tinha ouvido falar da
Secretaria Nacional de Direitos Humanos, do Programa
Nacional de Direitos Humanos ou, desculpem-me a
modéstia, de José Gregori. Nenhum deles tinha qualquer
idéia a respeito
das três perguntas.
Portanto, nós temos essa atribuição
fundamental: espalharmos esta nossa crença, divulgarmos
a mensagem
que nós temos a respeito dos direitos humanos. E, neste
sentido, seria extremamente gratificante que, das
conclusões deste encontro, que
serão enviadas à
Secretaria Nacional dos Direitos Humanos. também
pudesse surgir sugestões para o que poderia ser
um megaevento, no sentido de um grande choque nacional em relação aos
direitos humanos.
Tenho a dizer que, do ponto de vista concreto,
nós vamos fazer distribuir — já entreguei os poucos
exemplares que chegaram às minhas mãos, mas até o fim
desta Conferência quase todos os participantes poderão
recebê-los — um trabalho que elaboramos, uma espécie
de balanço do primeiro ano de implementação do
Programa Nacional de Direitos Humanos.
Mas acho que o mais importante não está aqui;
mais importante do que a lei da tortura, do que a lei
que cria o crime de porte ilegal de arma, mais
importante do que a recaptura dos assassinos de Chico
Mendes, do que a condenação dos envolvidos em crimes
com a repercussão dos da Candelária, de Vigário Geral
(que foi possível, graças à proteção que demos a
testemunhas), mais importante do que a criação do
grupo da comunidade negra, mais importante do que os
pontos concretos, que aqui estão arrolados, que foram
possíveis graças ao nosso esforço comum - uma obra
que não é do Governo, uma obra que é do Brasil - mais
importante que tudo é aquilo que é difícil de ser
assinalado e ser traduzido em letra escrita: este País
readquiriu a capacidade de indignar-se. E isso, sem
dúvida alguma, é a primeira medida para poder lavrar o
terreno e semear a boa semente dos direitos humanos.
Portanto, deixo às minhas amigas e amigos os
cumprimentos pela realização dessa 2ª Conferência,
que, sem dúvida alguma, terá seguimento nos anos
vindouros. Acho que os direitos humanos vieram para
ficar e não serão obra de um governo, mas da própria
sociedade permanente do Brasil.
Acho que é importante que fique clara,
com absoluta honestidade, a disposição do
Governo Federal, a disposição da Secretaria Nacional
dos Direitos Humanos de continuar a sua luta com
acentuada intensidade, para conseguirmos índices de
maior respeito aos direitos humanos. É o nosso
compromisso com a História, é o nosso compromisso com
a humanidade, é o nosso compromisso com cada um de
nós.
Muito
obrigado.
O SR. PRESIDENTE (deputado Pedro Wilson) - Agradeço ao secretário
Dr. José Gregori as suas palavras e a sua presença
nesta Conferência. E gostaria, permita-me, quebrando um
pouco o protocolo, de fazer um apelo a S.Sa. e ao
governo no sentido de que, no prazo o mais rápido
possível, pudessem ser convocados os Srs. governadores,
para não só analisarmos o Plano Nacional, os
resultados desta Conferência, como também o
comprometimento dos governadores no sentido de que, na
Federação como um todo — União e estados federados
—, se possa cada vez mais implementar programas
estaduais.
Faço um apelo a S.Sa. no sentido de que o
Ministério da Justiça, a Secretaria Nacional dos
Direitos Humanos ou o Sr. presidente da República
possam convidar os Srs. governadores para que não só
leiam o Programa Nacional, mas também implementem os
programas estaduais
com a participação do poder público e das
entidades da sociedade civil.
Agradecemos, mais uma vez, a presença ao Dr.
José Gregori. Neste momento, S.Sa. terá que se
retirar. Daqui a pouco, iniciaremos os relatórios.
Também agradecemos a presença a todos os que
participaram da Mesa dos trabalhos.
Gostaríamos de anunciar a presença da deputada
estadual de São Paulo Maria Passarelli; do vereador
Joaquim, de
Uberlândia; do vereador
Luiz Bassuna, de Salvador; do deputado federal
Alcides Modesto; do vereador Daniel Antônio,
de Goiânia, presidente da Comissão de Direitos
Humanos da Câmara Municipal; do deputado estadual
Renato Simões, de São Paulo; do deputado federal Paulo
Rocha, do Pará; do deputado federal Gilney Viana, de
Mato Grosso; do deputado federal Luiz Alberto, da Bahia;
do governador Vitor Buaiz, do Espírito Santo, que
esteve presente mais uma vez; do deputado estadual
Claudio Vereza, do Espírito Santo.
Convido o deputado Carlos Vereza, numa homenagem
a toda a luta pelos direitos humanos, em favor dos
portadores de deficiência, a tomar assento à Mesa.
Gostaria também de registrar a presença da
deputada estadual Maria Del Carmen Fidalgo, da Bahia; da
deputada estadual Izane
Monteiro, do Pará; da deputada federal Fátima Pelaes;
da deputada federal Alcione Barbalho; da deputada
federal Socorro Gomes,
do Pará.
Convidamos também para tomar assento à mesa o
deputado Antonio José Cafu, membro da Comissão de Direitos Humanos da Câmara
Legislativa do Distrito Federal.
Convidamos os relatores dos doze grupos e as
pessoas indicadas para tomar assento à Mesa.
Infelizmente não temos os nomes aqui por escrito, mas
peço que tomem assento e se identifiquem com relação
aos respectivos grupos.
Gostaríamos de registrar a presença de Maria da
Guia, do Ministério da Justiça; de Carmélia Marques,
do Instituto de Identificação do Distrito Federal; de
Niéliton Leite Gomes, da BSGI; de Welington Rodrigues,
da Associação Brasil Soka Gakkai Internacional; de
Anísio Alves, do Ministério da Justiça; de João
Bosco Oliveira, da Associação Brasiliense de Peritos
em Criminalística; de Wanderley Chagas, da Associação
Brasileira de Criminalística; de Genesman Pereira, da
Polícia Militar de Goiás; de Adailton Vieira, da
Polícia de Goiás; de Rosita Milezi, do Centro
Scalabriano de Estudos Migratórios; de Rubens Lira, da
Comissão da Universidade Federal da Paraíba; de Marta
Marília, da OAB-Paraná; de Pedro Jorge, da Polícia
Militar de Alagoas; do vereador Geraldo Correia, da
Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Câmara
Municipal de Lins; de Ivanildo José Ferreira, do Centro
de Direitos Humanos Simão Bororo de Rondonópolis; de
José Antônio Carvalho, da Comissão de Direitos
Humanos da Assembléia Legislativa da Bahia; de Alceu
Prestes, do Instituto de Identificação da Polícia
Civil do Distrito Federal; de Ubiratan Oliveira, do
Instituto de Identificação da Polícia do Distrito
Federal; de Jaiece Gomes Santana, da Liga de Mulheres
Eleitoras do Brasil Regional Nordeste; de Abiail
Florentina, do GEIPOT; de Francisco, da Comarca de
Castelo, Espírito Santo; de Maria Cecília, da
Assembléia Legislativa de São Paulo; de Deise
Benedito, da OAB de São Paulo; de Lélio Benis Correia,
da Fundação ABRINq; de Bernadete Ferreira, da SERPAJ,
Tocantins; de Sérgio José, do Sindicato dos Policiais
Civis de Pernambuco; de Ana Cristina, assessora
parlamentar da Polícia Militar do Distrito Federal; de
Cíntia Rodrigues, da Assessoria Parlamentar da Polícia
Federal.
Gostaríamos também de comunicar aos senhores
presentes que ontem houve reunião informal da Comissão
de Direitos Humanos, com representantes de Comissões de
Direitos Humanos das Assembléias Legislativas, e já
foram realizadas três reuniões, três fóruns,
reunindo as Comissões Legislativas de Direitos
Humanos, a Comissão Federal, as comissões estaduais e
as comissões municipais organizadas.
Vamos ter o 4º Fórum Nacional de Comissões
Legislativas de Direitos Humanos nos dias 4 e 5 de
setembro. Nesse fórum, teremos momentos de
articulações, de relatórios, de encaminhamentos na
luta em prol dos direitos humanos em todo o Brasil. Esta
reunião nacional, que será realizada aqui em
Brasília, nos dias 4 e 5 de setembro, na Câmara, vai
ser precedida de três reuniões regionais.
A primeira reunião será a do Nordeste, nos dias
1º e 2 de agosto, em Fortaleza, e as comissões do
Ceará e da Bahia estarão encarregadas da
organização.
A segunda reunião será a das comissões dos
estados do Centro-Oeste e do Norte, nos dias 4 e 5 de
agosto, aqui em Brasília, e a responsabilidade será da
Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e
também da Comissão Distrital de Brasília.
A terceira reunião regional será a dos estados
do Sudeste e do Sul, nos dias 11 e 12 de agosto, em São
Paulo. Os Estados de São Paulo e Minas Gerais serão os
responsáveis pela organização.
|