Apresentação
Deputado Nelson Pellegrino*
Lutar por um direito já
foi, não faz muito tempo, tarefa muito difícil para o cidadão comum.
Durante a ditadura militar, eram poucos os direitos e muitos os riscos
para quem os exigissem. Veio a redemocratização e, com ela, a nova
Constituição Federal, promulgada em 1988, culminando um processo de
resistência política e mobilização social que resgatou direitos
suprimidos e reconheceu outros novos. Superada essa fase histórica,
passamos a aperfeiçoar leis e instituições destinadas a fazer cumprir
as prerrogativas do cidadão. A luta democrática para garantir e
ampliar esse espaço de cidadania nunca parou nem pode parar, para que
todos nós possamos ser respeitados como senhores de direitos.
Esses direitos tão
duramente conquistados estão aí agora para ser usufruídos. Mas para
que um direito tenha eficácia, para que alguém possa exercê-lo, são
necessárias três condições: informação, iniciativa e organização
social. Ajudar a suprir a primeira condição é o objetivo deste
manual. A segunda e terceira condições também estão nas suas mãos:
depende de você exigir o direito que é seu.
Na era do conhecimento na
qual vivemos, informação vale muito. Pode valer vidas. Ao dispor das
informações organizadas neste volume, você terá mais do que a
capacidade de utilizá-las em seu próprio benefício. Você também terá
a responsabilidade de ajudar aos que não sabem como proceder numa das
muitas situações aqui descritas. Se um dia souber de alguém, um grupo
de pessoas ou uma entidade que pode se valer do conteúdo deste manual,
ajude-o a acessar os seus direitos! Afinal, cidadão completo é o que
possui consciência dos seus direitos e conhece os meios para exercê-los.
Ao multiplicar o número dos que terão acesso às informações deste
manual, você estará contribuindo para a educação e a cidadania.
Cidadania e direitos humanos
se completam. Todo aquele que nasce tem uma nacionalidade e, em decorrência,
passa a ser cidadão com direitos a serem garantidos pelo Estado. Os
direitos à cidadania estão definidos na Constituição Federal e em
toda a legislação nacional. Os direitos humanos, além de perpassar
todo o ordenamento jurídico nacional, estão erigidos em consenso por
toda a
comunidade internacional. São
os direitos mais elementares, os direitos de todos, como o direito à
vida, à liberdade, à igualdade etc. Mesmo os piores violadores dos
direitos humanos não perdem os direitos que não souberam respeitar. A
eles o Estado deve aplicar a lei com todo o rigor, mas dentro dos parâmetros
estabelecidos historicamente pela humanidade, com base na experiência,
inclusive nos seus momentos mais traumáticos.
Este manual é voltado para
os direitos da cidadania. Aqui são tratados os direitos do cidadão
brasileiro que mais têm sido violados, seja pela falta de políticas públicas,
seja pelo tratamento equivocado que recebe de órgãos governamentais.
No cumprimento de uma das missões institucionais da Comissão de
Direitos Humanos – que é promover estudos e pesquisas em direitos
humanos –, esta publicação vem contribuir no sentido de capacitar o
cidadão brasileiro para que saiba mais sobre os seus direitos, o que
fazer e a quem procurar no caso de violação dos mesmos. E aqui cabe
lembrar que, em caso de desrespeito ou violação de qualquer direito, a
melhor opção sempre é denunciar, procurando os canais competentes.
A idéia desta publicação
surgiu com a experiência bem sucedida da Cartilha da Cidadania,
elaborada pela Comissão de Direitos Humanos da Assembléia Legislativa
da Bahia, em parceria com o Fórum Estadual das Entidades de Direitos
Humanos. Enquanto estive na Presidência daquela Comissão, foram
distribuídos cerca de 30 mil exemplares da cartilha, divulgando informações
sobre como e onde o cidadão baiano pode se apoiar em busca de seus
direitos fundamentais.
Muito do conteúdo do
presente manual adveio da experiência acumulada pela Comissão de
Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Desde a escolha dos temas até
o tipo de procedimento sugerido, tudo reflete nossa experiência num
organismo que efetua, mensalmente, cerca de 200 atos de 10.fiscalização
e acompanhamento de denúncias de violações de direitos sociais, políticos,
civis, culturais, econômicos etc. Os denunciantes são cidadãos de
todos os cantos do País, que telefonam, mandam fax ou e-mail, ou
mesmo viajam até Brasília para registrar pessoalmente a sua indignação.
Desta forma, as escolhas de
conteúdo do manual não são arbitrárias. Pelo contrário, os temas
(que incluem grupos de pessoas vitimadas) são os mais recorrentes e as
providências as que se mostraram mais eficazes, segundo a experiência
acumulada pela Comissão. Em cada capítulo, são respondidas as dúvidas
mais comuns sobre os respectivos assuntos e fornecidas informações básicas
acerca dos direitos e de como efetivá-los. Além disso, remissões à
legislação pertinente e telefones úteis de entidades públicas e não-governamentais
de âmbito nacional.
Acrescentamos no final do
manual os endereços de todas as Comissões Legislativas de Direitos
Humanos das Assembléias Legislativas dos Estados, bem como do Ministério
Público Federal e os dos Estados. Em regra, estas são instituições
que detêm a prerrogativa de receber todo o tipo de denúncia de
desrespeito aos direitos fundamentais para dar a essas denúncias o
encaminhamento cabível, acompanhando seus desdobramentos.
O manual apresenta,
finalmente, dois importantes textos, ambos explicativos de sistemas
internacionais de defesa e promoção dos direitos humanos. Um deles, de
Luciano Mariz Maia e outros, mostrando como o sistema da Organização
das Nações Unidas (ONU) pode ser acessado. O outro texto, produzido
pelo CEJIL – Centro pela Justiça e o Direito Internacional, ensina
como opera o sistema da Organização dos Estados Americanos (OEA).
No momento em que o fenômeno
da globalização está presente em todos os campos de atividade, não
poderiam faltar neste volume análise e explicações sobre os sistemas
internacionais de defesa e promoção dos direitos humanos. Tanto o
sistema global (ONU) como o regional para as Américas (OEA) vêm se
constituindo, ao longo dos últimos anos, instrumento muito relevante
para garantir maior eficácia na garantia dos direitos universalmente
protegidos. É via jurídica que freqüentemente recorremos e
recomendamos percorrer quando a luta travada em âmbito nacional estiver
esgotada ou já tiver dispendido um prazo razoável sem solução.
Acionar os mecanismos
internacionais, como, por exemplo, apresentando denúncias de casos
impunes, auxilia ademais a consolidar a consciência de que os direitos
humanos são inalienáveis e inerentes a qualquer ser humano de qualquer
lugar do planeta. Os direitos humanos não podem ser mitigados por
nenhum Estado, sob pretexto algum, se quiserem ficar livres do
constrangimento de receber recomendações dos organismos internacionais
para cumprir obrigações estabelecidas em pactos e tratados
internacionais.
Nossa expectativa é que você,
cidadão, colha os melhores benefícios deste manual, seja para si ou
para sua comunidade ou grupo social. Assim você estará contribuindo
para concretizar os direitos humanos e para tornar a cidadania uma
realidade.
*O Deputado Nelson
Pellegrino é presidente da Comissão de Direitos Humanos na gestão
2001.
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