
Testemunhas
confirmam ação do Cabo Anselmo na repressão
Jornal do Commercio – 8
de fevereiro de 1995
Direitos Humanos
Depoimentos
contestam versão oficial da morte de três militantes da VPR
A
participação do Cabo Anselmo – informante da polícia durante o
regime militar – na prisão de sua companheira e militante da VPR
(Vanguarda Popular Revolucionária) Soledad Barret Viedma foi confirmada
ontem, em dois depoimentos prestados ao Grupo Tortura Nunca Mais. Na
presença do secretário Roberto Franca (Justiça), a ex-advogada de
presos políticos, Mércia Albuquerque e a comerciante Sonja Maria
Cavalcanti testemunharam pela primeira vez para contestar a versão
oficial das mortes de Soledade, Pauline Reichstul e Jarbas Pereira
Marques.
Sonja
Maria reconheceu o Cabo Anselmo – em uma foto levada por Mércia –
como sendo um dos homens que participaram da prisão de Soledad e
Pauline. Ela contou que Soledad costumava ir a sua boutique, em Boa
Viagem, deixar mercadorias para ser revendidas. No dia 8 de janeiro de
1973, Soledad e Pauline estavam na boutique quando cinco homens, se
dizendo policiais, invadiram o local, bateram barbaramente em Pauline,
enquanto Soledad, grávida do Cabo Anselmo, apenas indagava
insistentemente “por que?”.
Depois
ainda segundo o relato de Sonja, as duas foram levadas em dois carros,
um de placa 7831 (pertencente ao Incra) e o outro um volks particular,
cuja placa não foi anotada. “Quase enlouqueço na época”, disse a
comerciante que nunca teve militância política nem sabia do
envolvimento das moças com a VPR. “Fui registrar queixa e me
aconselharam a deixar as coisas pra lá. No dia seguinte é que vi a
foto delas nos jornais e me dei conta da gravidade do caso”.
Relembrar
a cena que presenciou no necrotério deixou Mércia Albuquerque, hoje
com 61 anos e hipertensa, emocionada. Procurada por Rosália Marques, mãe
de Jarbas Pereira Marques, desaparecido no dia 8 de janeiro de 73, Mércia
conseguiu entrar no necrotério em frente ao Cemitério Santo Antônio,
no dia 9. Ali reconheceu os corpos de Soledad, Pauline e Jarbas.
“Pauline
estava nua, tinha uma perfuração no ombro e parecia ter sido muito
torturada. Jarbas tinha perfurações na testa e no peito e marca de
cordas no pescoço. Soledad, também nua, tinha ao seu redor muito
sangue e aos seus pés um feto”, disse a advogada. Ela relembrou também
uma conversa que teve com Jarbas três dias antes dele sumir. “Ele
disse que a equipe de Fleury (Sérgio Paranhos Freury, do antigo Dops,
em São Paulo) estava em Recife e que ia ser morto. Me entregou também
a foto de Cabo Anselmo dizendo quem era ele e que usava os nomes de
Daniel, Jardiel e Américo Balduíno”.
A
versão policial afirmava que os militantes haviam sido mortos durante
um estouro de um aparelho subversivo na Granja Timbi. Cabo Anselmo,
agente infiltrado no grupo, teria sido o única a escapar com vida.
No final dos depoimentos, as duas testemunhas receberam sete rosas
do secretário Roberto Franca, exatamente 23 anos depois da data
que a sentença contra os militantes foi tomada: 07 de janeiro de
73. |